UOL Notícias Internacional
 

09/05/2009

Paquistão contra-ataca Taleban e provoca fuga de civis

The New York Times
Dexter Filkins*
Em Islamabad (Paquistão)
O exército paquistanês lançou na sexta-feira (08) uma ofensiva surpreendentemente vigorosa contra militantes do Taleban que assumiram controle sobre um amplo território a noroeste da capital, fazendo com que dezenas de milhares de paquistaneses fugissem da batalha.

O êxodo - por caminhão, automóvel, a pé ou em carrinhos de golfe - foi de quase 200 mil pessoas, o que obrigou os funcionários dos órgãos de ajuda humanitária a armar novas barracas em campos de refugiados ao longo da estrada congestionada ao sul do Vale Swat, cenário dos combates mais intensos. Autoridades do setor de ajuda humanitária disseram que até 300 mil pessoas estão de mudança ou preparando-se para partir.
  • Lynsey Addario/The New York Times

    Pertences de uma família são vistos junto a uma das barracas de campo de refugiados em Mardan, Paquistão



A crise humanitária desenrolou-se no Paquistão quando o exército paquistanês prosseguiu com aquilo que descreveu como um ataque total contra militantes do Taleban no Vale Swat, que há meses é o foco de uma luta pelo poder entre forças do governo e militantes. Oficiais do exército disseram estar enfrentando uma força de cerca de 4.000 militantes, que se aproveitaram de um acordo de paz em fevereiro para controlarem grande parte do distrito e das instalações governamentais do local.

No decorrer da última semana houve vários indícios de que o exército paquistanês havia finalmente decidido enfrentar os militantes energicamente, embora esperanças anteriores neste sentido, que tiveram início há cinco anos, tenham terminado invariavelmente em frustração. Há várias incertezas. Não se sabe se o exército, mesmo que deseje, será suficientemente competente para desfechar um golpe fatal contra os militantes, ou se a derrota dos talebans implicaria em um alto custo em vidas civis, o que reduziria ainda mais o apoio da população ao governo.

Paquistaneses da área dizem que até o momento o Taleban manteve todas as regiões que conquistou nos dias e meses anteriores. Testemunhas afirmaram na sexta-feira que os insurgentes continuam controlando Mingora, a capital distrital, e várias partes dos distritos de Buner e Lower Dir.

No quartel-general em Rawalpindi, o general Athar Abbas anunciou poucos progressos territoriais. Ele disse que helicópteros dispararam rajadas de metralhadora contra militantes no Vale Swat nas últimas 24 horas, e que 140 militantes e sete soldados paquistaneses foram mortos.

"Eles estão em fuga e tentando bloquear o êxodo de civis inocentes, impedindo a partida destes por meio de coerção", afirmou Abbas.

Segundo o general, a resistência militante na vizinha Buner, a apenas 97 quilômetros de Islamabad, diminuiu consideravelmente. Ele afirmou que as forças armadas suspenderam um toque de recolher em Buner para permitir que os civis escapem para Mardan e outras áreas.

Não houve meios de verificar a veracidade do relato de Abbas. Repórteres e a maioria dos forasteiros foram impedidos de chegar às áreas do conflito. O governo e as forças armadas paquistanesas, que em grande parte nada fizeram enquanto o Taleban crescia nos últimos meses, têm sofrido intensas pressões dos Estados Unidos no sentido de agir contra os militantes.

Uma autoridade do governo ouvida na sua casa em Mingora disse que muitos militantes foram mortos nesta semana, quando helicópteros paquistaneses atacaram uma mina de esmeraldas localizada perto da cidade. Mesmo assim, segundo a autoridade, a situação do governo no conflito não sofreu alterações. Ele ainda detém controle sobre apenas uma pequena área de Mingora. O gabinete do prefeito e a sede da polícia ainda estão nas mãos do Taleban.

A autoridade disse que não há mais água nem energia elétrica na capital distrital. "Milhares de pessoas estão fugindo", disse ele, falando com a condição de permanecer no anonimato, por temer ser assassinado.

Um paquistanês que falou na sexta-feira com os seus familiares em Mingora, disse que eles confirmaram que o Taleban continua controlando a cidade. Segundo ele, as estradas que conduzem à capital estão minadas, e, em algumas localidades, como Matta, um reduto taleban, os militantes estão impedindo os civis de partir.

Um outro paquistanês no Vale Swat, que também falou sob a condição de anonimato, disse que os combatentes talebans passaram a saquear os bancos locais, incluindo três na última quinta-feira.

Alguns civis que deixaram a área dizem que o exército paquistanês impôs toque de recolher de 24 horas por dia em grande parte da área de conflito, impedindo que milhares de pessoas fugissem. Segundo os refugiados, estes indivíduos fugirão à primeira oportunidade.

Soldados paquistaneses distribuíram panfletos acusando o Taleban de ajudar os chamados elementos antipaquistaneses. "Eles são iguais às forças judaicas que são contrárias à existência e à segurança do país, e desejam criar distúrbios na região", dizia um panfleto, segundo uma reportagem do "Dawn", um proeminente jornal paquistanês.

Milhares de civis continuaram em fuga na sexta-feira, muitos deles seguindo para três campos de refugiados situados em áreas baixas ao sul dos campos de batalha. Autoridades do Departamento do Alto Comissariado para Refugiados da Organização das Nações Unidas (ONU) manifestaram preocupação com a crescente onda de refugiados, afirmando que os seus funcionários montaram vários centros para monitorar o número de refugiados e auxiliá-los. "Tendo em vista o fluxo maciço de pessoas, isso não é suficiente", disse a autoridade em uma declaração.

As 200 mil pessoas que fugiram das áreas atingidas vêm juntar-se ao meio milhão de outras que já deixaram partes da província da fronteira noroeste, bem como das Áreas Tribais Federativamente Administradas, devido à luta entre o governo e o Taleban, e por causa do medo dos ataques com mísseis lançados por aeronaves teleguiadas dos Estados Unidos.

Refugiados que chegaram na sexta-feira em Mardan não mostravam satisfação nem com o Taleban nem com o seu próprio governo. Uma mulher paquistanesa, saindo da sua barraca em um campo de refugiados situando no entorno da cidade, disse que a batalha só fez arruinar a vida das pessoas que nada têm a ver com o conflito.

"Não temos nada", disse a mulher, de pé em meio a um oceano de refugiados. Ela chegou na sexta-feira com oito parentes. "Não temos cobertores nem comida. O governo está nos bombardeando das montanhas, e o Taleban atira em nós da cidade. O exército e o Taleban não estão se matando - eles são amigos", acusou a mulher. "Eles só estão matando civis. Quando os civis são mortos, o governo diz que matou um monte de terroristas".

* Contribuíram para esta matéria Pir Zubair Sha e Salman Masood, em Islamabad, no Paquistão; Lynsey Addario, em Mardan, no Paquistão; e Carlotta Gall, em Cabul, no Afeganistão.

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host