UOL Notícias Internacional
 

09/05/2009

Para os piratas somalis, o pior inimigo pode ser esperar na costa

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Garoowe, Somália
Abshir Boyah, um alto e notório chefe pirata somali que admite ter seqüestrado mais de 25 navios e ser membro de um conselho secreto pirata chamado "A Corporação", diz estar pronto para fechar um acordo.

Diante da crescente pressão naval nos mares e agora de uma reação em terra, Boyah tem visitado anciãos e xeques religiosos cansados dos piratas e seus vícios, prometendo abandonar a pirataria caso algumas exigências sejam atendidas.
  • Michael Kamber/The New York Times

    Homem que trabalha com câmbio traz diversos maços de notas da desvalorizada moeda somali



"Cara, esses sujeitos islâmicos querem cortar fora minhas mãos", ele resmungou sobre um prato de carne de camelo e espaguete. Os xeques parecem tê-lo incomodado mais do que a armada de navios de guerra estrangeiros que patrulha a costa. "Talvez seja hora de uma mudança", ele disse.

Pela primeira vez nesta região infestada de piratas no norte da Somália, algumas das comunidades que floresceram com os dólares da pirataria -fornecendo aos criminosos bem conhecidos refúgio, apoio, esposas, respeito e até mesmo ajuda do governo- agora estão tentando afastá-los.

Milícias populares, antipiratas, estão se formando. Os xeques e líderes do governo estão promovendo uma campanha para alienar os piratas, lhes dizendo para deixarem as cidades e pregando nas mesquitas para que as mulheres não se casem com estes "burcad badeed", que em somali significa "bandidos do mar", ladrões e não islâmicos.

Há até mesmo uma nova placa em um estacionamento em Garoowe, a capital ensolarada da região semiautônoma de Puntland, que pode ser a única do gênero no mundo. As letras grandes vermelhas dizem: Não é permitido piratas.

Como grande parte da violência, fome e surgimento de senhores da guerra que envolveu a Somália, a pirataria é um fruto direto -e para alguns somalis inevitável- de uma sociedade que padeceu 18 anos sem um governo central funcional e cuja economia foi devastada pela guerra.

Mas aqui em Garoowe, os piratas são cada vez mais vistos como manchas pela cultura nômade e muçulmana devota, assim como responsabilizados pela introdução de males da cidade grande como drogas, álcool, brigas de rua e Aids. Há poucas semanas, policiais de Puntland desbarataram uma quadrilha pirata e despejaram 327 garrafas de gim etíope. Na Somália, o álcool é proibido. Nunca se tinha ouvido falar de tamanho estoque de álcool.

"Os piratas estão arruinando a nossa sociedade", disse Abdirahman Mohamed Mohamud, o novo presidente de Puntland. "Nós os esmagaremos."

Nos últimos 18 meses, os piratas somalis arrecadaram até 100 milhões com o sequestro de dezenas de navios e pedindo resgate, segundo grupos marítimos internacionais. Será cada vez mais difícil para estes homens -ou para os empresários locais que eles apoiam- ganhar tanto dinheiro fazendo qualquer outra coisa neste país em dificuldades.

Ainda assim, os chefes piratas de Puntland insistem que estão prontos a abandonar a pirataria, caso os xeques encontrem trabalho para seus jovens lacaios e ajudem os piratas a formar uma guarda costeira para proteger os mais de 3 mil quilômetros de costa da Somália contra a pesca ilegal e o despejo de lixo. Estas são queixas antigas feitas pelos somalis, incluindo aqueles que não abordam os navios de carga empunhando fuzis AK-47.

Seria um exagero, para dizer o mínimo, o mundo aceitar a costa somali sendo policiada por seqüestradores reabilitados. Mas na segunda-feira, Boyah e duas dúzias de outros piratas infames de Puntland, muitos dirigindo Toyotas Surf, um utilitário esportivo rápido e leve que se tornou o veículo preferido dos piratas, chegaram à casa de um ancião em Garoowe para apresentar seu caso. "Negociação é nossa religião", disse um pirata, Abdirizak Elmi Abdullahi.

As autoridades de Puntland reconhecem, a contragosto, que os piratas as ajudaram de uma forma: ao atrair atenção e ajuda desesperadamente necessárias.

"É triste mas é verdade", disse Farah Dala, o ministro do planejamento e cooperação internacional de Puntland. "Após todo o sofrimento e guerra, o mundo está finalmente prestando atenção em nossa dor porque estão recebendo um pequeno sabor dela."

No mês passado, após um capitão americano ter sido seqüestrado por piratas somalis, os países doadores prometeram mais de US$ 200 milhões à Somália, em parte para o combate à pirataria.

De lá para cá, as marinhas estrangeiras aumentaram suas patrulhas e prenderam dezenas de piratas. Boyah reconheceu que os negócios se tornaram mais arriscados. Mas, ele disse, ainda há muitos navios mercantes -e muito oceano.

"É como uma caçada lá fora", disse Boyah por meio de um intérprete. "Às vezes você pega um veado, às vezes um dik-dik", um antílope comum na Somália.

Boyah, 43 anos, nasceu em Eyl, um covil de piratas na costa. Ele disse que abandonou a escola na terceira série, se tornou pescador e passou ao sequestro depois que a pesca ilegal por traineiras estrangeiras destruiu seu ganha-pão em meados dos anos 90.

"Ele é respeitado como um pioneiro", disse Yusuf Hassan, o editor do "Garoowe Online", um site de notícias somali.

Quando Boyah entrou em um restaurante recentemente, ele teve que apertar uma dúzia de mãos até conseguir se sentar à mesa de plástico, coberta de moscas, juntamente com dois jornalistas estrangeiros.

"Há!", ele disse, com a boca cheia de espaguete. "Estou comendo com homens brancos. É como um gato comendo com os ratos!"

O restaurante fica em frente ao palácio presidencial. Boyah passou por uma multidão de soldados de Puntland para entrar. É difícil não notá-lo, com cerca de 1,93 metro e perigosamente magro. Antes, ele estava sentado em um sofá, de pernas cruzadas, ao lado de um chefe de polícia. Os dois brincaram -ou talvez não- que eram primos.

O último presidente de Puntland, Mohamud Muse Hirsi, foi um ex-senhor da guerra altamente suspeito de ter colaborado com os piratas e que perdeu o cargo no voto em janeiro. O novo presidente, Abdirahman, é um tecnocrata que vivia na Austrália e voltou com muitos assessores educados no Ocidente -e com a ambição de ser o primeiro líder da Somália a fazer algo significativo a respeito da pirataria. Ele formou uma comissão antipirataria e até mesmo divulgou um relatório dos "Primeiros 100 Dias".

Sim, as autoridades de Puntland estão fazendo muito pouco a respeito dos reis piratas sob seus narizes -relutantes, talvez, em provocar uma guerra com senhores do crime apoiados por centenas de homens armados. Ao ser perguntado por que não prendiam o peixe grande, Abdirahman disse: "Rumores são uma coisa, mas precisamos de evidência".

De fato, é difícil ver para onde foram exatamente todos aqueles milhões de dólares, pelo menos aqui em Garoowe. Há algumas casas novas bonitas e alguns poucos hotéis novos onde os piratas passam algum tempo, incluindo um cercado por arame farpado chamado "Os Seios das Damas". Dezenas de Surfs sujos de terra circulam pelas ruas. Mas não muito mais.

Boyah, que vive em uma casinha simples, explica: "Não se surpreenda quando digo que todo o dinheiro desapareceu. Quando alguém que nunca teve dinheiro repentinamente tem, ele simplesmente desaparece".

Ele alega que sua parte, estimada em várias centenas de milhares de dólares, desapareceu em um vórtice de festas, casamentos, joias, carros e qat, a folha estimulante que os somalis mascam como chiclete.

Além disso, devido à rede estendida de parentes e membros do clã, "não é como se três pessoas dividissem um milhão", ele disse. "Está mais próximo de 300."

Boyah também acrescentou que dá 15% para caridade, especialmente para os idosos e enfermos. "Eu adoraria poder dar mais", ele disse.

No geral, ele parecia como um homem em uma busca genuína por redenção -ou um excelente mentiroso. "Nós sabemos que o que fazemos é errado", disse Boyah seriamente. "Eu estou pedindo perdão a Deus, para o mundo todo, para todos."

Então seu celular Nokia prateado tocou de novo. Ele não disse o que precisava fazer, mas era hora de partir.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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