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10/05/2009

Use energia, enriqueça e salve o planeta

The New York Times
John Tierney
Quando o primeiro Dia da Terra aconteceu, em 1970, os ambientalistas norte-americanos tinham uma boa razão para se sentirem culpados. A riqueza do país e a tecnologia avançada pareciam tão ruins para o planeta que chegaram a aparecer numa famosa equação desenvolvida pelo ecologista Paul Ehrlich e pelo físico John P. Holdren, hoje conselheiro científico do presidente americano Barack Obama.

A equação deles era: I = PRT. Isso significa que o impacto ambiental é igual à população multiplicada pela riqueza multiplicada pela tecnologia. Proteger o planeta parecia exigir menos pessoas, menos riqueza e tecnologias mais simples - o mesmo tipo de transformação social e revolução energética defendidos em muitos comícios relacionados ao Dia da Terra da última quarta-feira.

Porém, para cientistas pesquisadores do meio ambiente, muita coisa mudou desde a década de 1970. Com os benefícios de seus esclarecimentos e equações melhoradas, vou fazer algumas previsões:

1. Não haverá nenhuma revolução verde no campo energético ou coisas do tipo. Nenhum líder, lei ou tratado irá mudar radicalmente as fontes energéticas para as pessoas e as indústrias nos Estados Unidos ou em outros países. Nenhuma recessão ou depressão irá causar mudanças duradouras na paixão dos consumidores de consumir energia, ganhar dinheiro e adquirir novas tecnologias - e isso, acredite ou não, é uma boa notícia, pois...

2. Quanto mais ricos todos ficam, mais verde será o planeta no longo prazo.

Entendo que esta segunda previsão parece ser difícil de acreditar se considerarmos a quantidade de carbono despejada na atmosfera hoje pelos americanos e as projeções do aumento dessas emissões na Índia e na China, à medida que esses países enriquecem.

Tais projeções facilitam deduzir que a riqueza e a tecnologia causam mais danos ao meio ambiente. No entanto, apesar da poluição aumentar quando um país se industrializa, à medida que as pessoas enriquecem, elas podem bancar água e ar mais limpos. Elas começam a usar fontes de energia que utilizam menos carbono - não só porque elas se preocupam com o aquecimento global. O processo de "descarbonização" começou muito antes do nascimento de Al Gore.

A velha teoria I = PRT ("a riqueza é ruim") pode ter feito algum sentido intuitivo, mas não casa com os dados analisados desde aquele primeiro Dia da Terra. Na década de 1990, pesquisadores perceberam que os gráficos envolvendo o impacto ambiental não produziam uma linha ascendente simples à medida que o país enriquecia. A linha frequentemente sobe, se estabiliza, e depois reverte de forma descendente, formando uma figura como um arco ou um "U" invertido - chamado curva de Kuznets.

Em dezenas de estudos, pesquisadores identificaram curvas de Kuznets para uma variedade de problemas ambientais. Existem exceções para a tendência, especialmente em países com governos incompetentes e sistemas deficientes de propriedade privada. Porém, em geral, enriquecer significa eventualmente ficar mais verde. À medida que a renda sobe, as pessoas geralmente focam, antes de tudo, em limpar sua água. Depois é a vez dos poluentes do ar, como o dióxido de enxofre.

Com o aumento da riqueza, as pessoas consomem mais energia, entretanto, elas preferem fontes energéticas mais eficientes e limpas - vão de madeira, carvão e petróleo, para gás natural e energia nuclear, progressivamente emitindo menos carbono por unidade de energia. Essa tendência de "descarbonização" global tem ocorrido num ritmo notavelmente estável, desde 1850, segundo Jesse Ausubel, da Rockefeller University, e Paul Waggoner, da Estação Experimental de Agricultura de Connecticut.

"Quando você tem muitos edifícios cheios de computadores operando ao mesmo tempo, a energia entregue tem de ser bastante limpa e compacta", argumentou Ausubel, diretor do Programa para o Ambiente Humano da Rockefeller. "A tendência de longo prazo é em direção ao gás natural e à energia nuclear, ou energia solar, se possível. Se o sistema energético evoluir nessa tendência, a maioria do carbono será eliminada até 2060 ou 2070".

Todavia, o que dizer sobre todo o dióxido de carbono, cuspido hoje pelos americanos, que se desloca para suas McMansões? Bem, é verdade que os moradores de subúrbios americanos emitem mais gases do efeito estufa se comparados a maioria das outras pessoas do mundo (apesar dos nova-iorquinos não serem muito diferentes de outras zonas urbanas ricas).

No entanto, os Estados Unidos, e outros países ocidentais, parecem estar próximos do topo de uma curva de Kuznets em relação às emissões de carbono, prontos para começar a alegre descida curva abaixo. A quantidade de carbono emitida pelo cidadão americano médio tem permanecido estável pelas últimas décadas. Além disso, as emissões de carbono per capita começaram a declinar em alguns países, como a França. Alguns pesquisadores calculam que o ponto de mudança pode chegar quando a renda per capita de um país atinge US$ 30 mil, mas isso pode variar amplamente, dependendo do tipo de combustível disponível.

Nesse meio tempo, mais carbono está sendo eliminado da atmosfera pelas florestas em expansão nos Estados Unidos e outros países ricos. O desmatamento também segue uma curva de Kuznets. Em países pobres, as florestas são desmatadas para fornecer combustível e área de cultivo. Porém, à medida que as pessoas enriquecem e obtêm melhorias tecnológicas em relação à agricultura, os campos tendem a se transformar em áreas florestais.

Obviamente, mesmo se o impacto dos países ricos nas emissões de gases do efeito estufa diminuir, ainda haverá um aumento das emissões de carbono pela China, Índia e outros países, os ascendentes na curva de Kuznets. Apesar desse prospecto ter o lobby de ambientalistas para a restrição dos gases do efeito estufa, alguns economistas temem que um tratado global possa, no fim das contas, prejudicar a atmosfera ao diminuir o ritmo do crescimento econômico e, portanto, prolongar o tempo necessário para os países pobres atingirem o ponto de mudança na curva.

Então, portanto, existem tantas razões para achar que países em diferentes estágios na curva de Kuznets podemssam chegar a concordar na aplicação dessas restrições? O tratado de Kyoto não transformou a indústria nem os consumidores europeus. Apesar de que alguns ambientalistas americanos esperam que a combinação da crise econômica e um novo presidente possa deflagrar uma nova era de austeridade energética e energia verde, o senhor Ausubel afirma que eles esperam o reverso da história.

Nos últimos séculos, disse ele, nada alterou drasticamente as tendências de longo prazo na forma como os americanos produzem ou usam energia - nem a Grande Depressão, nem as guerras mundiais, nem a crise energética dos anos 1970, nem os grandiosos programas para produzir energia alternativa.

"Sistemas energéticos evoluem com uma lógica própria, gradualmente. Eles não se transformam de repente em algo diferente", explicou Ausubel. Esse não é um discurso muito empolgante para ser dito no Dia da Terra. Porém, no longo prazo, a curva de Kuznets é mais confiável que uma revolução.

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