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11/05/2009

Mulheres preferem puxar o tapete de outras mulheres no trabalho

The New York Times
Por Mickey Meece
Gritos, intrigas e sabotagem. São sinais claros de que uma "bully"
está em ação, colocando armadilhas para suas colegas de trabalho a cada passo. ["Bully", em inglês, é aquele que pratica o "bullying", uma atitude de agressividade física ou psicológica continuada com o objetivo de intimidar ou prejudicar alguém dentro de um grupo.]

Com a crise econômica, à medida que cresce o nível de estresse, pesquisadores do ambiente corporativo dizem que as "bullies" podem ficar mais agressivas e aumentar seus ataques.

Talvez não seja surpresa o fato de que a maioria dos bullies sejam homens, como mostra uma pesquisa do grupo Workplace Bullying Institute. Mas cerca de 40% dos bullies são mulheres. E, pelo menos, os homens que praticam o bullying têm uma abordagem mais igualitária, atacando homens e mulheres na mesma medida. Já as mulheres parecem preferir outras mulheres como alvo em mais de 70% das situações.

Em nome das feministas Betty Friedan e Gloria Steinem, o que está acontecendo?

Só a menção de mulheres tratando mal umas às outras no ambiente de trabalho parece estremecer a base do movimento feminista. É o que Peggy Klaus, treinadora de executivos em Berkeley, Califórnia, chama de "elefante cor-de-rosa" na sala. Como as mulheres podem vencer a discriminação se são obrigadas a evitar dos golpes verbais de outras mulheres nos escritórios, corredores e salas de reunião?

As mulheres não gostam de falar sobre o assunto porque é "muito contraditório em relação ao jeito que em tese deveríamos nos comportar com as outras mulheres", diz Klaus. "Esperam que sejamos acolhedoras e solícitas."

Pergunte às mulheres sobre as brigas com outras mulheres no ambiente de trabalho e algumas dirão que ambos os sexos podem se comportar mal.
Outras balançam a cabeça, concordando de imediato, e contam exemplos de como outras mulheres - muito mais do que os homens - as maltrataram.

"Já fui sabotada tantas vezes por outras mulheres no ambiente de trabalho que finalmente saí do mundo corporativo e abri meu próprio negócio", disse Roxy Westphal, que dirige a companhia de produtos promocionais Roxy Ventures Inc. em Scottsdale, Arizona. Ela ainda se lembra das ferroadas que levou numa entrevista há 30 anos com uma mulher que "se transformou em um pelotão de fuzilamento de uma pessoa" e fez com que ela saísse do prédio aos prantos.

Jean Kondek, que se aposentou recentemente depois de 30 anos de carreira em publicidade, lembra-se de como ficou irritada com a gerente de uma pequena agência que pediu uma reunião para criticá-la em frente aos colegas por ela não ter seguido o procedimento da agência numa emergência com um cliente.

Mas Kondek disse que ela teve a palavra final. "Eu disse: 'Será que todos podem nos deixar a sós?' E depois disse a ela: 'Não é assim que se lida com essa situação'", contou.

Muitas mulheres que ainda estão no ambiente corporativo não quiseram ter seus nomes divulgados por medo de tornar as coisas piores ou prejudicarem suas carreiras. Uma contadora da Califórnia disse que entrou recentemente numa empresa e recebeu um "tratamento de gelo" por parte de duas mulheres que trabalhavam lá. Uma delas até a empurrou na copa durante uma discussão, disse a contadora. "Como se estivéssemos no colegial", disse.

Uma executiva sênior disse que tinha "finalmente vencido o preconceito", até que outra mulher chegou para roubar seu emprego, dizendo para a gerência: "não dá para trabalhar com ela; ela não coopera".

A estratégia funcionou: a executiva disse que logo perdeu seu emprego para a mulher que a acusou.

Uma das razões pela qual as mulheres escolhem umas às outras como alvos "talvez seja a ideia de que as mulheres não confrontam tanto e têm menos chances de responder agressão com agressão", diz Gary Namie, diretor de pesquisas para o Workplace Bullying Institute, que coordenou o estudo em 2007.

Mas pode haver outra dinâmica em funcionamento. Depois de cinco décadas de luta por igualdade, as mulheres representam mais de 50% das posições de gerência, vagas profissionais e ocupações relacionadas, diz o grupo de pesquisa sem fins lucrativos Catalyst. Mesmo assim, o censo de 2008 descobriu que as mulheres representavam apenas 15,7% dos 500 altos funcionários corporativos da "Fortune", e apenas 15,2% dos diretores.

Especialistas em liderança se perguntam: será que as mulheres estão sendo "exageradamente agressivas" porque há muito poucas oportunidades para crescer? Ou isso é um estereótipo e é só impressão que as mulheres estão sendo exageradamente agressivas? Existem um peso e duas medidas no ambiente de trabalho?

A pesquisa sobre os estereótipos de gênero da Catalyst sugere que não importa como as mulheres escolham liderar, os outros nunca acham que elas estão certas. Além disso, o grupo descobriu que as mulheres precisam trabalhar duas vezes mais duramente do que os homens para atingir o mesmo nível de reconhecimento e provar que podem liderar.

"Se as líderes corporativas agem de forma consistente com os estereótipos de gênero, são consideradas muito fracas", descobriu o grupo num estudo de 2007. "Se elas vão contra os estereótipos de gênero, são consideradas duras demais."

"As mulheres estão tentando descobrir a chave mágica para o reino", disse Laura Steck, presidente do Growth and Leadership Center em Sunnyvale, Califórnia, e consultora de liderança executiva. Quando as mulheres sentem que precisam ser agressivas para serem promovidas, diz ela, é o que acabam fazendo. Então, de repente, elas veem a necessidade de agir com mais coleguismo e cooperação, em vez de serem competitivas.

Cleo Lepori-Costello, vice-presidente em uma companhia de software no Vale do Silício, veio para o centro para um treinamento. Ela teve um início conturbado ao assumir sua nova posição "como um elefante numa loja de porcelana", disse Steck.

Ao reunir informações sobre Lepori-Costello, Steck ouviu comentários
como: "Cleo é boa em conseguir que as coisas sejam feitas, mas talvez tenha sido muito dura no começo. Ela não observava as várias regras culturais implícitas."

Então, junto com Kent Kaufman, outro treinador do centro, Steck começou um programa de treinamento individual de uma vez por semana, durante um ano. Ele incluía a encenação de situações e discussões com outras executivas que reconheciam que também não sabiam bem como serem mais políticas no trabalho. (O grupo recebeu o apelido de Bully Broads [algo como "As Duronas"]).

Quando chegou ao centro, Lepori-Costello achou que as colegas não estavam abertas para suas ideias. Por meio do trabalho de treinamento e a dramatização de conflitos, ela percebeu que seu comportamento talvez fosse "muito agressivo" e que ela nem sempre atendia às pessoas ao redor dela.

Joel H. Neuman, pesquisador da Universidade do Estado de Nova York em New Paltz, diz que o comportamento mais agressivo no trabalho é influenciado por vários fatores que envolvem os bullies, as vítimas e as situações em que trabalham. "Isso incluiria assuntos relacionados à frustração, características pessoais, percepção de tratamento injusto, e uma variedade de estresses associados à ênfase na eficiência nos ambientes de trabalho", diz ele.

Neuman e sua colega Loraleigh Keashly, da Wayne State University, desenvolveram um questionário para identificar todos os comportamentos que constituem o bullying, o que pode ajudar as companhias a identificar os problemas que na maioria das vezes passam despercebidos.

O bullying envolve diversos tipos de comportamento agressivo verbal ou psicológico, que perdura por um período de no mínimo seis meses. Suas 29 perguntas incluem: "ao longo dos últimos 12 meses, você se sentiu com regularidade: sendo olhada de maneira hostil, recebendo tratamento de silêncio, sendo tratado de maneira rude ou desrespeitosa, ou passou por uma situação em que outras pessoas não negaram fofocas falsas sobre você?".

O Workplace Bullying Institute diz que 37% dos funcionários já sofreram com o bullying. Mesmo assim, os empregadores ignoram o problema, que influencia a rotatividade de funcionários e os custos com assistência médica e produtividade, diz o instituto. Raramente os casos vão para a Justiça, diz o instituto, porque não há nenhuma lei direta que pode ser aplicada, e os custos são altos.

Dois pesquisadores canadenses começaram a examinar recentemente o tipo de bullying que coloca mulher contra mulher. Eles descobriram que algumas mulheres podem sabotar as outras porque sentem que ajudar as colegas de trabalho poderia prejudicar suas próprias carreiras.

Uma das pesquisadoras, Grace Lau, candidata a Ph.D. na Universidade de Waterloo, diz que o objetivo era incentivar as mulheres a ajudarem umas às outras. "Como?", diz ela. "Uma forma que imaginamos seria lembrar às mulheres que elas são integrantes da mesma equipe."

"Acreditamos que um senso de orgulho em relação às conquistas femininas seja importante para fazer com que elas ajudem umas às outras", disse Lau. "Para ter esse tipo de orgulho, as mulheres precisam se conscientizar de que compartilham uma identidade comum."

No ambiente de trabalho, entretanto, é pouco provável que as mulheres pensem sobre si mesmas como membros de um grupo, diz ela. É mais provável que elas vejam a si mesmas como indivíduos, uma vez que são julgadas pelo seu rendimento.

"Como resultado, as mulheres não sentem uma necessidade de ajudar umas às outras", diz. "Elas podem até sentir que, para crescer, precisam sabotar suas colegas de trabalho, escondendo oportunidades de promoção, e também podem achar que as mulheres são alvos mais fáceis do bullying porque são teoricamente mais fracas do que os homens."

Existe lugar mais propício para o bullying do que a prisão? Mesmo assim, foi exatamente aí que a Televerde, companhia de Phoenix especializada em gerar oportunidades de vendas e "insights" de marketing para companhias de alta tecnologia, estabeleceu suas operações. Há cerca de 13 anos, a empresa criou quatro call centers na prisão estadual de Perryville, no Arizona, empregando 250 das 3.000 detentas.

Por meio de treinamento de imersão, aconselhamento e trabalho com clientes reais, essas mulheres podem superar suas circunstâncias difíceis, disse Donna Kent, vice-presidente sênior da Televerde.
"Normalmente, elas superam o bullying, e vemos tudo se transformar.
Isso é o que dá inspiração para nós e nossos clientes."

Hoje, cerca de metade do escritório corporativo da Televerde é composto de "graduadas" em Perryville, incluindo Michelle Cirocco, diretora de operações de vendas. Ela viu como as mulheres tratam umas às outras em outros ambientes, e acredita que a raiz do problema é que as mulheres são ensinadas a brigar por atenção desde muito cedo.

"Competimos com nossas irmãs pela atenção do nosso pai, ou do nosso irmão", diz Cirocco. "Depois vamos para a escola, onde competimos pela atenção dos professores. Competimos para entrar nas equipes de esportes ou de torcida."

A experiência da Televerde, entretanto, não é para todas as presidiárias, e as que participam precisam trabalhar duramente para garantir uma posição altamente cobiçada.

"Quando entramos no mundo corporativo", acrescentou Cirocco, "somos ensinadas ou levadas a acreditar que não crescemos por causa dos homens. Mas, na verdade, nós não crescemos por causa de nós mesmas. Em vez de promover e valorizar umas às outras, estamos sempre tentando nos colocar para baixo".

A Televerde reverteu essa atitude em Perryville, diz Cirocco, encorajando as mulheres a trabalhar por uma causa comum, em um ambiente muito parecido com aquele idealizado pelos pesquisadores canadenses.

"É um ambiente bastante acolhedor", diz Cirocco. "Todas essas mulheres se tornam suas amigas, e você investe pessoalmente no sucesso delas.
Todo mundo quer que todo mundo saia da cadeia, siga em frente e tenha uma vida saudável."

Se o nível de apoio que existe na Televerde fosse encontrado em todos os lugares, diz Klaus, resolveria muitos problemas.

"Chegou o momento", afirma ela, "de lidarmos com essa relação que as mulheres têm umas com as outras, porque isso de fato impede que tenhamos sucesso no ambiente de trabalho como gostaríamos e deveríamos ter".

"Já temos obstáculos suficientes; não precisamos mais nos acotovelar".

(Tradução: Eloise De Vylder)

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