UOL Notícias Internacional
 

13/05/2009

Um ano após terremoto, China retorna à conduta opaca e autoritária

The New York Times
Andrew Jacobs
Em Pequim (China)
O terremoto que matou 87 mil pessoas na província de Sichuan, na China, há exatamente um ano, foi uma tragédia devastadora que, apesar de todos os destroços, proporcionou uns poucos raios de esperança.

Em uma rara onda de ações voluntárias, mais de um milhão de pessoas seguiram para a zona do terremoto. Os líderes do país demonstraram a sua capacidade de aliviar o sofrimento humano ao mobilizarem 146 mil soldados em poucos dias. As maiores corporações da China doaram quase US$ 1 bilhão. Cidadãos e celebridades como Jackie Chan, Jet Li e Yao Ming doaram outras centenas de milhões de dólares.

"A grande tarefa de resgate e recuperação após o terremoto nos lembra novamente que unidade é força, e que a vitória só pode ser obtida por meio da luta", afirmou na terça-feira (12) o presidente Hu Jintao, durante uma sombria comemoração, transmitida ao vivo em rede nacional de televisão, para marcar o aniversário do pior desastre natural da China em mais de três décadas.

Mas se a resposta da China ao terremoto foi altamente elogiada, os críticos dizem que ela não modificou a conduta opaca e autoritária do governo. A liberdade de imprensa que acompanhou as primeiras semanas das medidas de recuperação não durou muito tempo. E, após ter prometido investigar rigorosamente o motivo pelo qual tantas escolas desmoronaram, matando cerca de 5.300 pessoas, segundo as estimativas oficiais, o governo insistiu na semana passada que a tragédia foi provocada pela fúria da natureza, e não pela irresponsabilidade humana.

"Até agora, não encontramos evidências de que alguém tenha sido responsável pelo que aconteceu, ou tenha feito algo para tornar as construções mais vulneráveis", afirmou Tang Kai, diretor do escritório de planejamento do Ministério da Habitação e do Desenvolvimento Urbano e Rural.

Nos últimos 12 meses, enquanto tentavam revelar publicamente as evidências de que as construções escolares tinham qualidade inferior ao padrão recomendado, blogueiros, ativistas e pais de crianças que pereceram sob montanhas de destroços foram assediados ou presos. A maioria dos pais admite ter aceitado pagamentos do governo que exigem que eles não falem sobre o assunto.

Nas últimas semanas, à medida que o aniversário do terremoto se aproximava, diversos jornalistas estrangeiros que tentaram entrevistar pais revoltados foram intimidados ou espancados.

Ai Weiwei, um artista e arquiteto que organizou uma campanha para a contagem do número de crianças mortas, disse que 20 dos seus voluntários foram atacados ou presos, e que as publicações no seu blog eram apagadas com frequência. "Isso que o governo fez é uma irresponsabilidade", acusa Ai, um dos poucos críticos que não foram vítimas de agressões. "O povo chinês merece algo melhor".

Nos dias que se seguiram ao desastre, havia motivos para encorajamento. Horas após o terremoto, o primeiro-ministro Wen Jiabao seguiu para a área do desastre acompanhado de câmeras de televisão. Em um país que tem uma história de ocultamento das más notícias, o papel bastante público de Wen, consolando sobreviventes e gritando palavras encorajadoras para as vítimas presas nas ruínas de uma escola destruída, parecia ser um sinal de que as autoridades lidariam de forma diferente com esse desastre.

"No início, os jornalistas chineses ficaram muito entusiasmados por cobrirem um grande desastre natural nas condições de maior liberdade que já foram vistas neste país", afirma Qian Gang, autor do livro "O Grande Terremoto da China", um relato do terremoto de 1976, que devastou a cidade de Tanshan e matou pelo menos 240 mil pessoas. O fato foi inicialmente mantido em sigilo pelas autoridades. "Mas, gradualmente, o poder do governo voltou a prevalecer".

Em um artigo publicado na semana passada pelo China Media Project, um website mantido pela Universidade de Hong Kong, Qian relatou como muitos jornalistas, aproveitando-se do caos, ignoraram as restrições às reportagens impostas pelo departamento central de propaganda. Até mesmo as matérias da "Xinhua", a agência estatal de notícias, observaram que as escolas desmoronadas estavam muitas vezes cercadas de prédios que ficaram de pé.

Quatro dias após o terremoto, um bate-papo online patrocinado pelo jornal do Partido Comunista, "Diário do Povo", contou com a participação de autoridades que afirmaram: "Certamente problemas quanto à qualidade de material estão relacionados ao colapso dos prédios escolares, e nós conduziremos uma investigação estrita e imparcial sobre isso".

Porém, ao final de junho do ano passado, as rédeas voltaram a ser encurtadas. Os jornalistas que não trabalhavam para a "Xinhua" ou outros veículos de comunicação estatais e rigidamente controlados foram obrigados a deixar a área do terremoto. As publicações cujos artigos questionaram a qualidade dos prédios escolares foram criticadas, ou, em alguns casos, viram-se obrigadas a demitir os jornalistas e editores responsáveis por tais artigos.

Um repórter diz que ele e os seus colegas coletaram provas convincentes de que esforços para baratear as obras e a fiscalização inadequada por parte das autoridades locais contribuíram para o elevado número de mortes de alunos. Mas, segundo ele, foi impossível publicar essas provas. "A esta altura, a estabilidade é considerada mais importante do que qualquer outra coisa", afirma o repórter, que prefere não revelar o seu nome.

As autoridades tiveram menos sucesso em silenciar a multidão de pais que continuam a fazer pressões para que haja uma declaração oficial a respeito do motivo pelo qual tantas escolas desmoronaram naquele dia.

Liu Xiaoying, falando de Mianzhu por telefone, explicou como ela e outros pais não tiveram permissão para participar da cerimônia pública de luto na terça-feira, devido ao temor de que eles pudessem atrapalhar os eventos rigidamente ensaiados que contaram com a presença de inúmeros dignatários estrangeiros.
Uma grande quantidade de soldados armados impediu que os repórteres entrassem na cidade.

"Não houve nenhuma investigação por parte do governo", afirmou Liu, cuja filha morreu em Fuxin, na Escola Primária Número Dois. "Se tivesse havido investigação, talvez a nossa tristeza não fosse tão grande".

Tradução: UOL

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