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15/05/2009

Memórias secretas oferecem uma visão da política interna chinesa

The New York Times
Erik Eckholm*
Em maio de 1989, enquanto discutia com rivais do partido radicais sobre como lidar com os estudantes que ocupavam a praça Tiananmen, o secretário do Partido Comunista da China requisitou uma audiência pessoal com Deng Xiaoping, patriarca que detinha o poder por trás das cenas.

O secretário-geral do partido, Zhao Ziyang, recebeu ordens de ir para a casa de Deng na tarde do dia 17 de maio para o que ele pensava que seria uma conversa privada. Para seu espanto, ao chegar descobriu que Deng tinha reunido vários membros importantes do Politburo, inclusive os piores inimigos de Zhao.

"Compreendi que as coisas já tinham tomado um rumo ruim", lembra-se Zhao em um livro de memórias gravado secretamente que apenas agora está sendo divulgado -um relato raro em primeira pessoa de uma crise política nos mais altos níveis do Partido Comunista chinês.

Pela linguagem corporal impaciente de Deng e pelos duros ataques que recebeu de seus rivais, Zhao diz em suas memórias que agora estão sendo publicadas, que estava óbvio que Deng já tinha decidido negar a proposta de Zhao para dialogar com os estudantes e impor a lei marcial.

"Parece que minha missão na história já tinha terminado", Zhao dissera a um membro mais antigo do partido naquele dia. "Eu me disse que, independentemente do que acontecesse, eu não seria o secretário-geral que mobilizaria o ataque militar sobre os estudantes."

Como Zhao antecipara, ele foi imediatamente posto de lado e logo criticado por "dividir o partido". Ele foi expulso e colocado sob prisão domiciliar até sua morte, em 2005.

Entretanto, em sua longa e forçada aposentadoria, Zhao gravou secretamente seu próprio relato em 30 fitas-cassete que foram enviadas para fora do país por antigos assistentes e defensores. Ele conta sobre sua ascensão ao poder nacional nos anos 80, suas batalhas com a velha guarda e sua aliança e discussões com Deng enquanto tentava relaxar os controles ao estilo soviético e ajudava a colocar a China no caminho para se tornar o poder econômico dinâmico que se tornou hoje.

Zhao também conta como foi superado politicamente durante as longas manifestações pró-democracia lideradas pelos estudantes na primavera de 1989, que levaram a sua derrubada pouco antes do ataque militar no dia 4 de junho daquele ano.

Uma alegação impressionante das memórias, dizem os acadêmicos que a leram, é que Zhao diz que foi pioneiro na abertura da economia da China para o mundo e na introdução das forças de mercado na agricultura e indústria. Segundo ele, esses passos receberam forte oposição dos radicais do partido e nem sempre foram plenamente defendidos por Deng, líder supremo, que muitas vezes recebe o crédito por defender as políticas de mercado.

No final dos anos 70, como diretor do partido da província de Sichuan, Zhao tinha começado a desmantelar as fazendas coletivas ao estilo maoísta. Deng, que tinha acabado de consolidar o poder após a morte de Mao, trouxe Zhao para Pequim em 1980 como primeiro-ministro para que fizesse mudanças. Zhao que, como outros líderes chineses, tinha pouca experiência ou formação em economia de mercado, descreve suas batalhas políticas e erros enquanto tentava dar mais liberdade ao livre empreendimento.

Roderick MacFarquhar, especialista em China em Harvard que escreveu a introdução ao novo livro, disse que o mesmo deu a ele uma nova apreciação do papel central de Zhao na criação das estratégias econômicas. Inclusive, algumas vezes, como na promoção de comércio estrangeiro nas províncias costeiras, foi o secretário que exortou Deng a admitir as mudanças, e não o contrário.

"Deng Xiaoping foi o padrinho, mas, no dia-a-dia, Zhao foi o arquiteto das reformas", disse MacFarquhar em uma entrevista.

Gravando sobre as músicas das crianças e apresentações da Ópera de Pequim em fitas-cassete em sua casa vigiada ao norte da praça Tiananmen, Zhao descreve em termos modestos seu papel como primeiro-ministro e secretário do partido.

Zhao inicialmente fez anotações escritas e depois, em torno do ano 2000, decidiu gravá-las e dividir as fitas entre quatro visitantes que estavam presentes durante as gravações, disse Bao Tong, assessor próximo de Zhao que continua sob forte vigilância em Pequim.

Bao disse em entrevista nesta semana que soube das gravações em 2007 e tinha ajudado a reunir o conjunto completo, chamando as memórias de "material histórico muito raro" que "pertence a todo o povo da China e ao mundo". Ele disse que a voz era sem dúvida a de Zhao e que, dada a presença de outros durante as gravações, a autenticidade não era questionada.

Quase 20 anos após o massacre e a queda de Zhao, as transcrições editadas estão sendo publicadas em um livro "Prisoner of the State: The Secret Journal of Premier Zhao Ziyang" (prisioneiro do Estado: o diário secreto do primeiro-ministro Zhao Siyang, Simon and Schuster), que será lançado formalmente nos EUA no dia 19 de maio. Uma edição em chinês está sendo publicada em Hong Kong.

"Esta é a primeira vez que um alto líder da China esteve em posição de contar a verdade", disse Bao Pu, filho de Bao Tong, que é editor do livro e tradutor da edição em língua inglesa. "Naquela altura, a verdade era tudo o que ele tinha."

Outros editores e tradutores foram Renée Chiang, editor em Hong Kong, e Adi Ignatius, jornalista americano que cobriu a China nos anos 80.

Apesar do tumulto de 1989 estar distante para muitos chineses, continua sendo um assunto proibido, altamente censurado na internet e raramente mencionado na mídia dirigida pelo Estado. As autoridades em Pequim provavelmente ficarão insatisfeitas com a divulgação por Zhao de conflitos internos e por sua conclusão, à qual chegou no isolamento após deixar o poder, que a China deve se voltar para uma democracia parlamentar, se quiser conter a corrupção.

Em um rompimento profundo com a tradição comunista chinesa, até para ex-funcionários, Zhao fornece detalhes pessoais de tensas sessões do partido. Ele ataca várias autoridades, especialmente seu arquirrival, o primeiro-ministro conservador Li Peng, que se opôs ferozmente ao secretário e, em sua opinião, o traiu. Ele descreve como seus rivais tramaram para voltar Deng contra ele.

Em 1989, Zhao teria dito: a maior parte dos estudantes na manifestação "estava apenas nos pedindo para corrigir nossas falhas, não tentando derrubar nosso sistema político."

Esses esforços para aliviar as tensões foram "bloqueados, resistidos e sabotados por Li Peng e seus colegas", disse Zhao.

Perry Link, professor emérito de estudos chineses em Princeton que estava em Pequim em 1989, disse: "Expor essas animosidades pessoais de uma posição tão alta é algo novo aqui. Certamente este elemento vai enfurecer as autoridades em Pequim."

O debate sobre como reagir aos estudantes foi parte de uma luta em torno das mudanças políticas e econômicas. "O que fica claro nessas gravações é que, nas mentes dos líderes chineses, Tiananmen era uma continuação de suas batalhas dos anos 80", disse Bao Pu, que também é advogado de direitos civis e editor em Hong Kong.

Ao forçar a saída de Zhao e restaurar o domínio político que continua até hoje, os conservadores afogaram as esperanças que as reformas econômicas da China seriam acompanhadas de uma mudança política sistemática. Mas eles também se surpreenderam pela revolta popular com o massacre.

Com a sociedade revoltada e especialmente após ver o colapso da União Soviética, Deng começou a fazer ainda mais pressão, em seus últimos anos, por mudanças de mercado ou o que ele batizou de "socialismo com características chinesas".

Apesar dos triunfos econômicos, Zhao talvez seja mais lembrado por seu esforço fútil para evitar a violência em 1989. Nas gravações, ele descreve como soube que o exército tinha começado sua marcha sangrenta para a praça no coração de Pequim.

"Na noite do dia 3 de junho, sentado no quintal com minha família, ouvi um tiroteio intenso", disse Zhao.

* Jonathan Ansfield contribuiu de Pequim.

Tradução: Deborah Weinberg

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