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17/05/2009

Migração de mexicanos para os EUA despenca com a crise

The New York Times
Julia Preston
Em Mexicali (México)
Dados do censo do governo mexicano indicam um declínio extraordinário no número de emigrantes mexicanos aos Estados Unidos.

Os dados recém divulgados mostram que cerca de 226 mil menos pessoas emigraram do México para outros países durante o ano encerrado em agosto de 2008 do que no ano anterior, um declínio de 25%. Toda a emigração mexicana, legal e ilegal, exceto uma fração bem pequena, tem como destino os Estados Unidos.

Devido ao aumento da imigração, a população de nacionalidade mexicana nos Estados Unidos cresceu acentuadamente ano após ano desde o início dos anos 90, caindo brevemente apenas após os ataques de 11 de setembro de 2001, como mostram dados dos censos de ambos os países.

Pesquisadores mexicanos e americanos dizem que o atual declínio, que também se manifesta na diminuição das prisões ao longo da fronteira, se deve em grande parte à decisão dos mexicanos de adiar a travessia ilegal devido à falta de empregos na economia americana em dificuldades.

A tendência despontou claramente no início da recessão e, dizem os demógrafos, fornece nova evidência de que os imigrantes ilegais do México, disparadamente a maior fonte de migração ilegal aos Estados Unidos, são atraídos pelos empregos e respondem à piora do mercado de trabalho simplesmente deixando de migrar.

"Se há empregos, as pessoas vêm", disse Jeffrey S. Passel, demógrafo sênior do Centro Hispânico Pew, um grupo de pesquisa não-partidário em Washington. "Se não há empregos, as pessoas não vêm."

O fluxo líquido de migrantes do México - aqueles que partem menos aqueles que retornam - caiu pela metade durante o mesmo período de 12 meses em 2007 e 2008. Os números são baseados em entrevistas detalhadas feitas nos lares, realizadas trimestralmente pelo órgão de censo do México, o Instituto Nacional de Estatísticas e Geografia.

Ao longo da fronteira, os sinais de queda são sutis mas onipresentes. Apenas duas camas estão ocupadas em um abrigo daqui, que recebe os emigrantes que esperam entrar clandestinamente nos Estados Unidos. No lado americano, perto de Calexico, Califórnia, as vans da Patrulha de Fronteira retornam vazias para a base após as varreduras realizadas pelos agentes à procura de pessoas tentando fazer a travessia ilegal.

Nas últimas semanas, a disseminação da gripe suína no México, e a resposta do governo de fechar escolas e cancelar aglomerações públicas, praticamente suspendeu toda migração aqui e em outros lugares. Mas os demógrafos esperam que o declínio muito forte, relacionado à gripe, será temporário.

Com tantos mexicanos permanecendo em casa em suas aldeias, a população de imigrantes ilegais nos Estados Unidos parou de crescer e pode ter diminuído ligeiramente durante o ano passado, uma mudança abrupta após uma década de afluxos anuais, como mostra a pesquisa dos demógrafos nos Estados Unidos. Os mexicanos representam 32% de todos os imigrantes nos Estados Unidos, e mais da metade deles não tem status legal, informou o centro Pew.

Ainda assim, pelo menos 11 milhões de imigrantes ilegais permanecem nos Estados Unidos, segundo os demógrafos. Apesar do colapso do mercado de trabalho nos setores de construção e outros de baixa remuneração, não ocorreu um grande êxodo entre os mexicanos que já vivem nos Estados Unidos, mostram os números do censo mexicano. Aproximadamente o mesmo número de migrantes - 450 mil - retornou ao México em 2008 que em 2007.

Alguns pesquisadores argumentam que a queda nas travessias de fronteira a partir do México prova que a dura fiscalização na fronteira e nos locais de trabalho americanos pode reduzir de forma eficaz a imigração em tempos de alta do desemprego nos Estados Unidos. O Serviço de Imigração e Alfândega aumentou o número de batidas em fábricas e comunidades no ano passado, enquanto a Patrulha de Fronteira expandiu 17% em um ano, para quase 17.500 agentes.

"A mais recente evidência sugere que é possível reverter o fluxo", disse Steven A. Camarota, um demógrafo do Centro para Estudos de Imigração, um grupo de pesquisa em Washington que pede pela redução da imigração. "Não é algo gravado em pedra, de forma que com uma mistura de fiscalização e fatores econômicos, menos virão e mais voltarão para casa."

Mas Wayne Cornelius, diretor do Centro para Estudos Comparativos de Imigração da Universidade da Califórnia, em San Diego, previu que se o mercado de trabalho americano melhorar, a fiscalização na fronteira perderá força como dissuasor.

O centro documenta as causas para a diminuição da migração mexicana por meio de entrevistas neste ano com mais de 1.000 mexicanos na Califórnia e em uma aldeia de Yucatán, que é fonte de imigrantes. Nas entrevistas, todos os mexicanos que partiram de Yucatán, determinados a chegar aos Estados Unidos, informaram que no final conseguiram fazer a travessia.

Os mexicanos "não estão abandonando a emigração para sempre", disse Cornelius. "Eles estão esperando por uma melhora da economia dos Estados Unidos."

Por ora, entretanto, mexicanos como Jose Luis Z., um jovem de 16 anos do Estado de Michoacán, estão estabelecendo a tendência. Jose Luis chegou ao Albergue del Desierto, um abrigo de migrantes em Mexicali para garotos menores de idade, após sair ousadamente de casa sem dizer aos seus pais. Mas quando o emprego de plantador de árvores no Estado de Washington não deu certo e ele soube por outros emigrantes do maior patrulhamento ao longo da fronteira, ele decidiu voltar para casa.

"Eu achei que seria fácil, mas agora vejo o quanto as pessoas sofrem", disse Jose Luis, que pediu que seu sobrenome não fosse citado por ser menor de idade. Ele disse que voltaria a colher morangos em Michoacán, caso seu pai furioso não o expulse de casa.

"Há trabalho em casa, mas não paga nada", ele disse.

O aumento da fiscalização ao longo da fronteira, que teve início sob o governo Bush, faz muitos mexicanos como Jose Luiz pensarem duas vezes antes de arriscar os custos e perigos da travessia ilegal em um momento em que não há empregos aguardando do outro lado, disseram estudiosos.

"Há uma incerteza em relação aos empregos, de forma que, por ora, é melhor ficar em casa", disse Agustín Escobar Latapi, um sociólogo do Centro para Pesquisa em Antropologia Social em Guadalajara, México.

A maioria dos imigrantes agora precisa de contrabandistas para guiá-los pelos desertos abrasadores e passagens ocultas nas montanhas onde há brechas na vigilância da Patrulha da Fronteira. Em Mexicali, os contrabandistas cobram agora de US$ 3 mil a US$ 5 mil para uma viagem a Los Angeles, disseram imigrantes e assistentes sociais. Eles disseram que os parentes nos Estados Unidos, lutando para manter seus próprios empregos, não dispõem mais de dinheiro de sobra para emprestar a um parente para pagar um contrabandista.

Algumas pessoas aqui em Mexicali disseram não estar surpresas com a falta de mexicanos retornando dos Estados Unidos. "Nosso povo não é estúpido", disse Monika Oropeza Rodriguez, a diretora executiva do Albergue del Desierto, se referindo aos mexicanos que permanecem nos Estados Unidos. "Pode haver uma crise nos Estados Unidos, mas eles sabem que estivemos em crise econômica no México por muitos anos."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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