UOL Notícias Internacional
 

18/05/2009

Documentário retrata o trabalho de jornalista durante protestos de monges em Mianmar

The New York Times
John Anderson
Toronto
Hoje ele mora na Tailândia, em grande parte por achar que não aguentaria passar pela tortura. "Não tenho certeza do quanto eu conseguiria guardar segredo", diz o vídeojornalista birmanês de 27 anos de idade, magro e de cabelos fartos, considerado um inimigo público pela ditadura militar de seu país.

Se essa declaração faz com que ele não pareça muito corajoso, assista ao documentário "Burma VJ: Reporting from a Closed Country" [algo como "Mianmar VJ: Enviando Notícias de um País Fechado"]. Dirigido por Anders Ostergaard, da Dinamarca, e com estreia marcada para quarta-feira em Nova York, o documentário fala sobre o trabalho do jornalista birmanês e sua equipe de câmeras-guerrilheiros durante a "Revolução Açafrão" de 2007, na qual monges budistas se uniram à população para protestar nas ruas contra a ditadura militar de Mianmar.

Conectados por telefones celulares e e-mail, gravando imagens clandestinas com minicâmeras e contrabandeando material gravado para fora do país através de mensageiros, da internet e conexões via satélite, os correspondentes do Democratic Voice of Burma (ou Voz Democrática de Mianmar, um canal de televisão birmanês no exílio em Oslo, Noruega) não apenas expuseram o caráter totalitário das autoridades de Mianmar ao escrutínio mundial, mas também revelaram o futuro da reportagem de guerra. Não é de se estranhar que, durante o festival Hot Docs que aconteceu aqui em Toronto, o jornalista tenha aparecido de chapéu, óculos escuros e cachecol, raramente olhando para cima e evitando posar para fotos.

Ele está seguindo as orientações de seus chefes. "A gerência também sugeriu que ele não volte para Mianmar", disse Khin Maung Win, diretora-executiva do Democratic Voice of Burma. No momento, o jornalista, cuja segurança depende do anonimato, está muito ocupado acompanhando o filme, que já viajou do Festival de Sundance para Nova York, Washington e Toronto, onde ele apareceu com Ostergaard e Khin Maung Win no começo de maio (num debate apoiado pelo festival Hot Docs e pela organização não-governamental canadense Rights & Democracy [Direitos & Democracia]). No dia seguinte, ele partiu para Otawa para pedir apoio político e financeiro para o Democratic Voice of Burma no Parlamento Canadense.

"Burma VJ", distribuído pela Oscilloscope (de Adam Yauch, um dos Beastie Boys), também foi adotado pela campanha de direitos humanos da atual liderança tcheca da União Europeia. "Vaclav Havel apresentou o filme a Hillary Clinton quando Obama esteve em Praga", disse Ostergaard com satisfação. "Estou me acostumando com algo que era totalmente inesperado. Imagine, eu ia fazer apenas um perfil de 30 minutos de Joshua" - pseudônimo do jornalista - "e então todo tipo de coisa aconteceu."

O que aconteceu foi a manifestação praticamente espontânea do verão de 2007, incitada pelo aumento dos preços do gás, a prisão do militante trabalhista Su Su Nway e a insatisfação das pessoas que chegou ao limite. Numa das primeiras sequências do filme, um motorista de táxi diz que se juntaria a qualquer manifestação que acontecesse, e sua franqueza dá a dica do que estava por vir. "Isso nunca acontece", diz o jornalista. A sensação é de que uma panela de pressão está prestes a explodir, e de fato explode.

Para Ostergaard, foi uma total coincidência. Ele havia sido chamado pela produtora Lise Lens-Moller para fazer um filme sobre Mianmar (antiga Birmânia, ou Burma, em inglês), e foi colocado em contato com os jornalistas do Democratic Voice of Burma em Bancoc, que receberam treinamento de câmera e de situação. Os acontecimentos mudaram totalmente seus planos.

Conforme é explicado nos créditos de abertura, "Burma VJ" tem uma certa liberdade poética, um tipo de trama que reconstitui e conecta as sequências gravadas pelos vídeojornalistas, que mostram monges, passeatas, polícia batendo e o assassinato a sangue frio de um jornalista japonês. As cenas de rua são reais; as reconstituições não. Apesar de dramaticamente eficazes, essas técnicas incomodam os documentaristas mais puristas. Mas Ostergaard não se desculpa por nada.

"Estou absolutamente convencido de que não havia como contar essa história sem as reconstituições", disse Ostergaard. "Não só visuais, mas também sonoras. As conversas de celular obviamente não foram gravadas na época. Na verdade, os VJs não conversavam enquanto filmavam. Esta é uma adaptação cinematográfica. Mas o conteúdo é autêntico no sentido de que são as próprias pessoas envolvidas dizendo umas às outras as mesmas coisas que disseram na época".

Filosofias cinematográficas à parte, "Burma VJ" é uma evidência poderosa das novas formas de documentar a opressão e influenciar a opinião pública. "A tecnologia está do nosso lado", diz Micheline Levesque, especialista em Ásia da Rights and Democracy. Ela diz que os relatos de violações aos direitos humanos, quando feitos fora de um país como Mianmar, são normalmente ignorados por aqueles que querem continuar fazendo negócios com o regime opressor. É mais difícil de argumentar com um "Burma VJ" e a tecnologia que ele domina, a isso pode vir a ter uma influência enorme. "O Tibete está muito interessado", diz Levesque, "e outros movimentos de outros países estão observando o que acontece em Mianmar para usar em seus próprios movimentos."

"Burma VJ" será transmitido pela HBO ("O canal é gratuito em Mianmar", diz Khin Maung Win, sorrindo, "porque todos o recebem por antena parabólica"), o que será tanto uma bênção para a causa birmanesa, quanto uma janela para um novo mundo político.

"Esta é tanto uma história sobre tecnologia quanto sobre coragem", diz Sheila Nevins, presidente da unidade de documentários da HBO, para quem os VJs birmaneses lembram Sophie Scholl e os estudantes universitários do movimento Rosa Branca na Munique dos anos 40. "A única forma pela qual eles conseguiam divulgar informações era fazendo panfletos e distribuindo-os por toda a universidade", disse ela. "Mas é claro que foram pegos. E decapitados. Mas hoje, cem anos depois, há uma situação documentada em filme na qual dois celulares falam entre si, e é impossível para uma ditadura militar manter segredos."

"Imagine se alguém tivesse contrabandeado uma câmera para dentro de um campo de concentração?", acrescenta Nevins.

Tradução: Eloise De Vylder

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