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18/05/2009

Rússia estoca diamantes, aguardando pelo retorno da demanda

The New York Times
Andrew E. Kramer
Em Moscou
A recessão global minou a demanda por todos os tipos de commodities - como aço e grãos - mas pequenos sacos de estopa ainda chegam por avião à empresa estatal de diamantes da Rússia.

Todo dia, o conteúdo dos sacos é despejado nos funis de aço inoxidável da sala de recebimento. Os diamantes são lavados e selecionados por tamanho, transparência, forma e qualidade; então, em vez de serem enviados para serem vendidos ao redor do mundo, eles são embrulhados em papel e levados para uma câmara - cerca de 3 milhões de quilates em gemas todo mês.

"Cada um deles é muito incomum", disse Irina V. Tkachuk, uma das poucas centenas de pessoas, a maioria mulheres, empregadas para fazer a triagem dos diamantes, que vê milhares deles todo dia.

"Eu não sou um robô. Eu às vezes penso: 'Uau, que diamante lindo. Eu gostaria de um desses'. Eles são todos muito bonitos."

Poderá levar anos até que outra mulher possa admirar aquela pedra.

A Rússia discretamente ultrapassou uma marca neste ano: superando a De Beers como a maior produtora de diamantes do mundo. Mas o mercado global de diamantes está tão fraco que a empresa de diamantes Alrosa, 90% de propriedade do governo russo, não vende nenhuma pedra no mercado aberto desde dezembro, preferindo estocá-los.

Em grande parte devido ao momento fraco do mercado de jóias, as fortunas da De Beers afundaram. Carente de caixa, a empresa teve que levantar US$ 800 milhões junto aos acionistas apenas nos últimos seis meses.

A recessão também coincidiu com o acordo com as autoridades antitruste da União Europeia, que colocou um fim à política da De Beers de estocar diamantes, em cooperação com a Alrosa, para manter os preços em alta.

Apesar de ser uma grande produtora de commodity, a Rússia tradicionalmente não abraça políticas que mantêm artificialmente o preço alto. No petróleo, por exemplo, a Rússia se beneficia com as reduções de produção do cartel do petróleo, mas não participa delas.

Os diamantes são uma exceção.

"Se você não manter o preço, um diamante se torna um mero pedaço de carbono", disse Andrei V. Polyakov, um porta-voz da Alrosa.

Em uma tentativa de calibrar cuidadosamente sua reentrada no mercado global, sem pressionar preços ainda baixos, a Rússia está se apoiando em duas coisas: o depósito de gemas preciosas da era soviética - criado para guardar as jóias confiscadas da aristocracia após a revolução de 1917- e investidores capitalistas, que a Alrosa espera que comprarão os diamantes como investimento, da mesma forma que o ouro.

A Rússia também está assumindo um papel de liderança de outras formas.

Sergei Vybornov, o presidente-executivo da Alrosa, disse que espera persuadir o banco central de Angola - que, como a Rússia, ainda está relativamente recheado de dinheiro do petróleo - a comprar 30% da produção das minas de diamante de Angola, retirando estas pedras do mercado.

E, no final do ano passado, a Alrosa deu início ao que chamou de Iniciativa de São Petersburgo, juntamente com a De Beers e outras grandes produtoras, para investir coletivamente em uma campanha publicitária genérica de diamantes, semelhante à promoção pela De Beers do slogan "Os diamantes são eternos". A Rússia assumiu a tarefa enquanto a De Beers passou à promoção de suas próprias gemas de marca.

Ainda assim, é um momento precário para a empresa de diamantes russa assumir a liderança do setor.

Até o ano passado, a De Beers produzia cerca de 40% da oferta global de pedras brutas, e a Alrosa cerca de 25%. Mas a De Beers, que está proibida segundo seu acordo antitruste com a União Europeia de estocar pedras, fechou minas em resposta ao excesso de oferta de pedras brutas. A Rússia não deseja fazer isso, com as autoridades em Moscou, altamente preocupadas com a inquietação potencial entre os trabalhadores desempregados decepcionados, tentando manter os trabalhadores na folha de pagamento.

No primeiro trimestre, a De Beers reduziu a produção em 91% em comparação ao ano anterior. As empresas de mineração diversificada Rio Tinto e BHP Billiton também reduziram a produção.

Enquanto isso, o mercado no atacado para diamantes lapidados, no valor de cerca de US$ 21,5 bilhões, deverá cair para cerca de US$ 12 bilhões em 2009, segundo a Polished Prices, um serviço analítico do setor.

Os preços dos diamantes brutos caíram ainda mais, até 75% desde seu pico em julho passado em alguns leilões.

Os dois mercados são distintos. Geralmente, cerca de 60% de um diamante bruto é perdido como pó ou lascas no processo de lapidação.

Vybornov responsabiliza os mercadores de diamantes, que usam os estoques de diamante como garantia de empréstimo, por parte do excesso de oferta mundial. Quando o crédito secou no final do ano passado, bancos e outros credores tomaram essas gemas e as venderam, ele diz, inundando o mercado. Em dezembro, sua empresa decidiu se retirar totalmente do mercado em vez de contribuir para uma erosão ainda maior dos preços.

Historicamente, a Rússia se manteve em grande parte como uma agente nos bastidores, talvez porque as autoridades soviéticas teriam que realizar um certo contorcionismo ideológico para promover um produto consumido principalmente pelos ricos do mundo capitalista.

Em vez disso, os soviéticos fecharam um acordo semissecreto com a De Beers, na época do apartheid, para venda de diamantes siberianos de uma forma que não minaria o mercado.

Após o colapso da União Soviética, a indústria russa de diamantes criou uma aliança formal com a De Beers, vendendo à empresa sul-africana metade de sua produção anual a um preço com desconto, visando subsidiar a publicidade genérica de diamantes da De Beers realizada nos anos 90, principalmente no Estados Unidos.

Agora, os russos estão no assento do motorista.

Charles Wyndham, um ex-avaliador da De Beers e co-fundador da Polished Prices, disse que a Rússia conseguiu administrar bem a transição até o momento: reter as gemas para ganhar mais dinheiro a longo prazo em vez de deprimir ainda mais o mercado.

"Digam o quiserem a respeito dos russos, mas certamente eles não são estúpidos", disse Wyndham.

A Alrosa está buscando estimular a demanda ao vender as gemas por meio de contratos de longo prazo para atacadistas na Bélgica, Israel, Índia e outros lugares. Segundo estes contratos, seis dos quais já foram assinados, os preços são estabelecidos em um meio-termo entre o pico de agosto passado e o começo deste ano, e fixado por um período de vários anos.

"Um anel de diamante não deve custar US$ 100", disse Vybornov. "Não queremos este tipo de cliente."

A Alrosa também está trabalhando com um banco de investimento de Moscou, o Leader, uma subsidiária do monopólio russo de gás natural, a Gazprom, na venda de diamantes aos investidores. Segundo o plano, os investidores comprariam os diamantes, mas as gemas não seriam entregues aos joalheiros por vários anos.

É um programa, basicamente, que visa terceirizar a função de estocagem aos investidores em troca da chance de lucrar com uma possível recuperação do mercado.

Em uma das oficinas de lapidação da Alrosa em um distrito de Moscou, Aleksandr A. Malinin, um conselheiro do presidente da Alrosa, mostrou uma coleção típica que poderia se tornar a base para esse veículo de investimento.

As gemas se encaixam em uma caixa de feltro do tamanho de um computador laptop.

As pedras maiores, com um corte circular impecavelmente branco de 10 quilates e um corte princesa amarelo, foram avaliadas em cerca de US$ 400 mil. As menores variavam e US$ 16 mil a US$ 100 mil. Mas o valor da caixa, apesar de certamente de vários milhões de dólares, é um mistério no momento dado o mercado deprimido.

Como o preço de compra das pedras será estabelecido, assim como a forma como a empresa determinará a alta e baixa do preço, ainda é incerto, disse Malinin.

"Nós temos que dizer às pessoas que os diamantes são valiosos", ele disse. "Nós estamos tentando manter os preços, assim como fez a De Beers, como todos os países produtores de diamantes fazem. Mas o que estamos fazendo é vender uma ilusão", o que significa que o produto não tem utilidade e cujo preço depende da manutenção do senso de escassez quando, na verdade, não há nenhuma.

Na unidade da Alrosa que recebe os diamantes, chamada Organização de Venda Unida, onde cerca de 90% da produção das minas siberianas chega para processamento, Elena V. Kapustkina despeja cerca de 45 mil quilates de diamantes pelo funil de aço inoxidável todo dia para separá-los por tamanho.

"É apenas o meu emprego", ela disse.

Quando perguntada se tinha perdido seu romance pelos diamantes, Kapustkina fez uma pausa, olhou para a pilha de gemas em sua mesa e corou.

Na verdade, ela disse, seu marido, um caminhoneiro, lhe deu um anel de meio quilate há 22 anos. "É claro que adorei", ela disse. "É do meu marido."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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