UOL Notícias Internacional
 

19/05/2009

Nordeste brasileiro é castigado pelas enchentes

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em Trizidela do Vale (Brasil)
O grande volume de águas dos rios que inundaram as casas até o telhado e forçaram mais de 260 mil pessoas a deixaram seus lares no Nordeste do Brasil provavelmente levará mais algumas semanas para baixar, disseram as autoridades brasileiras ao longo do fim de semana.

A enchente intensa paralisou grandes áreas desta quente região tropical, onde escolas e prédios públicos estão fechados há semanas e cidades inteiras estão quase debaixo d'água. Apesar do nível das águas ter baixado um pouco nos últimos dias, as chuvas prosseguiram durante o fim de semana. Isso complica ainda mais o prazo para as áreas alagadas secarem e os moradores poderem voltar para suas casas.

Com assistência apenas marginal chegando do governo federal, as autoridades locais em alguns dos Estados mais pobres do Brasil dizem que estão à beira do colapso.

"O nível das águas não está baixando rápido o bastante", disse Jânio de Sousa Freitas, o prefeito de Trizidela do Vale, uma das cidades mais duramente atingidas. "Nós estamos enfrentando uma situação crítica. Nós não temos recursos para lidar com a demanda pesada de itens básicos, de alimentos e medicamentos até colchões."

As enchentes, que começaram em abril, são a terceira pior dos últimos 49 anos, com base na quantidade de precipitação em um único mês, disse Lincoln Muniz Alves, um climatólogo em São Paulo do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos.

É a segunda vez em seis meses que enchentes intensas se transformam em um desastre regional. Em novembro, chuvas torrenciais em Santa Catarina, no Sul, causaram deslizamentos que mataram 135 pessoas e fizeram mais de 78 mil pessoas deixarem suas casas, afetando cerca de 60 cidades.

"O que estamos observando nos últimos anos no Brasil é um padrão de secas e chuvas mais intensas", disse Carlos Nobre, um climatólogo em São Paulo do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial.

Temperaturas mais frias no Oceano Pacífico, que os climatólogos chamam de efeito La Niña, colidem com as temperaturas mais quentes no sul tropical do Oceano Atlântico, uma possível explicação para os padrões climáticos extremos, ele disse.

As chuvas pesadas continuam forçando mais pessoas a deixarem suas casas. As autoridades da defesa civil disseram no domingo que o número de pessoas desabrigadas e deslocadas no Estado do Maranhão já ultrapassa 16 mil, com 10 mortos e 93 cidades em estado de emergência.

No sábado, o corpo de uma menina de 13 anos foi encontrado na cidade de Coelho Neto. Ela foi arrastada pelas águas enquanto ia para a escola, disse a defesa civil do Maranhão.

Ao todo, pelo menos 45 mortes foram atribuídas às enchentes no Nordeste.

Os esforços de ajuda continuam atrapalhados pela cheia dos rios, que forçam os trabalhadores de ajuda humanitária a entregarem os produtos por canoas e embarcações pequenas. No Maranhão, os donativos estão sendo centralizados na capital, São Luís, a poucas centenas de quilômetros das áreas mais afetadas pela enchente.

Aqui em Trizidela do Vale, uma cidade de 18.400 moradores no Maranhão, faz um mês desde que as chuvas torrenciais forçaram cerca de 11 mil moradores a buscarem abrigo em outro lugar. A água ainda está tão alta que quase toca os telhados de muitas casas.

As águas baixaram alguns poucos centímetros na semana passada, mas não o suficiente para dar às autoridades a esperança de que a cidade secará antes de junho, disse Sousa Freitas, o prefeito. As crianças estão há semanas sem aulas, com as escolas e ginásios públicos, tanto em Trizidela quanto na vizinha Pedreiras, servindo como abrigos improvisados.

Sousa Freitas disse que a cidade já forneceu mais de 5 mil refeições de subsistência para os desabrigados. Ele criticou o governo federal por não fazer mais, dizendo que ele enviou apenas 1.051 refeições para Trizidela.

O prefeito não é o único alegando que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez menos pelas áreas afetadas do Nordeste do que fez por Santa Catarina, mais rica, no ano passado.

Piauí e Maranhão, dois dos Estados mais afetados pelas enchentes, também são dois dos três mais pobres do país em renda per capita, com a maioria dos moradores ganhando menos do que o salário mínimo mensal do Brasil, de R$ 465.

"As pessoas no sul tratam o Nordeste como uma sub-raça de brasileiros", disse Roberto Quiniero, que é dono de um pequeno mercado em Pedreiras.

As autoridades brasileiras negaram qualquer favoritismo regional. "Os cidadãos do Nordeste receberão a mesma ajuda que Santa Catarina recebeu", disse Franklin Martins, o porta-voz da Presidência da República.

Até a semana passada, cerca de US$ 2,5 milhões foram doados para os esforços de ajuda no Nordeste, em comparação a cerca de US$ 16,4 milhões que foram doados a Santa Catarina, segundo números da defesa civil, que incluem doações privadas.

O governo americano, como fez após as enchentes em Santa Catarina, disse na semana passada que estava doando US$ 50 mil para ajudar a comprar água e alimentos para os desabrigados.

Com contribuição de Mery Galanternick, no Rio de Janeiro

Tradução: George El Khouri Andolfato

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