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19/05/2009

Paquistaneses jovens decidem resolver problema do lixo por conta própria

The New York Times
Sabrina Tavernise
Em Lahore (Paquistão)
A ideia era simples, mas, no Paquistão, um país onde muito se fala e pouco se faz, ela soou como uma rebelião.

Um grupo de jovens amigos paquistaneses, cansados de ouvir as suas famílias reclamarem do governo, decidiu irritá-las resolvendo o problema por conta própria. Todos os domingos, eles pegam pás e saem pela cidade coletando lixo.

Foi uma iniciativa estranha, especialmente em se tratando de alunos de escolas particulares de elite, que normalmente passam as tardes de domingo relaxando em casas dotadas de ar condicionado.

Mas os estudantes inspiraram-se no sucesso recente do movimento dos advogados, que usaram um protesto nacional para pressionar o governo a readmitir o procurador-geral do país. Foi impossível reprimir a onda de consciência pública dos jovens.

"Todo mundo responsabiliza sem parar o governo, mas ninguém faz nada de fato", afirma Shoaib Ahmed, 21, um dos organizadores. "Assim, nós decidimos fazer algo".

Eles entraram no Facebook e convidaram todos os seus amigos para um domingo de coleta de lixo. "O lixo é a coisa mais básica. Não é algo polêmico, e é uma tarefa fácil".

O Paquistão é um país repleto de problemas, como o extremismo muçulmano e a pobreza. Mas esses jovens são uma outra face do país. Uma nova geração curiosa que encara com ceticismo o privilégio dos pais e que não concorda também com os mulás e generais.

"A juventude do Paquistão quer mudar as coisas", diz Shahram Azhar, vocalista da banda de rock paquistanesa Laal, refletindo uma postura típica desta geração rebelde mais jovem.

"O Taleban está controlando o Swat porque eles são organizados. Nós também precisamos nos organizar", diz ele, referindo-se a um vale ao norte de Islamabad que neste ano passou a ser controlado por extremistas muçulmanos. "A única solução para os problemas paquistaneses está em um movimento popular com uma base ampla".

O movimento do lixo, que se auto-intitula Cidadãos Responsáveis, ainda não pode ser considerado amplo, mas ainda assim ele atraiu uma multidão respeitável em um domingo recente, levando-se em conta o calor de 32ºC e o horário (aproximadamente de 16h). Ahmed e seus amigos distribuíram sacos de lixo que compraram para a ocasião. Cerca de 40 pessoas participaram da coleta de lixo. Algumas usavam máscaras. Todas portavam pás.

Eles mantinham o olhar voltado para o solo. O local da operação de limpeza, o Mercado Ghalib, é modesto, uma tranquila área circular no centro de Lahore, cercada de lojas, um campo de críquete e uma mesquita. Não se trata de uma das partes mais sujas da cidade, mas o grupo sente-se vinculado a ela, tendo feito operações de limpeza no lugar em outras ocasiões. Eles desejavam verificar se as suas iniciativas anteriores tiveram algum efeito. Na primeira vez que fizeram a limpeza da área, foi como passar um rastelo em um quintal repleto de folhas em um dia de outono.

"Nós recolhemos uns 30 sacos de lixo, mas não havia nenhuma diferença visível", afirmou Ahmed.

Mas eles conversaram com os comerciantes locais, e pediram a eles que colocassem o lixo no contêiner apropriado. Segundo Ahmed, esses contatos eram o verdadeiro objetivo da operação limpeza - estabelecer um exemplo a ser seguido pelos outros.

"O maior problema que as pessoas daqui enfrentam é a falta de lixeiras", diz Murtaza Khwaja, um estudante de medicina de 21 anos.

Na verdade, o problema era mais profundo. Um longo ciclo de governos fracos e corruptos interrompidos por golpes militares provocou a atrofia dos músculos políticos do Paquistão, deixando a sociedade paquistanesa, e especialmente os pobres, sem esperança de um dia receber os serviços - educação, água, eletricidade, saúde - dos quais necessita desesperadamente.

"As pessoas nos dizem: 'Isso é muito bom, mas as coisas jamais mudarão'", conta Khwaja, apontando para um vendedor de hambúrgueres que, segundo ele, é particularmente pessimista. "Existe uma grande desesperança".

É aí que entra a coleta de lixo. Os moradores locais ficam perplexos com a operação, ao mesmo tempo que acham a medida útil. Muhamed Zahid, um entusiasta que conheceu o grupo na primeira coleta, em março, tem participado desde então. Um homem que passava em um riquixá deixou o veículo para ajudar um pouco com uma pá.

Já os homens da mesquita quiseram que os jovens limpassem o prédio, mas não a área em volta.

"Eles dizem, 'Os cristãos já fazem isso para nós de manhã'", conta Khwaja. Os cristãos são uma minoria no Paquistão, e aqueles com baixo nível de escolaridade muitas vezes fazem as atividades menos remuneradas, como coletar lixo, varrer as ruas e consertar os esgotos.

No domingo, Malik Waqas, um jovem de 16 anos que pilotava uma motoneta, parou para observar o grupo de jovens retirando com a pá aquilo que parecia comida velha. "Isso é muito bom", afirmou timidamente Waqas. Quando perguntado por que, ele respondeu: "Porque as pessoas se preocupam".

Mas a atividade também confundiu os transeuntes, muitos dos quais paravam para observar boquiabertos os jovens, que, usando calças jeans, camisetas e óculos escuros, pareciam mais nova-iorquinos do que paquistaneses. Três homens usando túnicas tradicionais inclinaram-se sobre uma cerca para ver os estudantes catando lixo.

A mãe de Khwaja, que também veio catar o lixo, comandava os jovens como se fosse um general do exército, e tentava fazer com que os outros se juntassem à operação de limpeza. "A maioria deles apenas zomba de nós", disse ela. "O que vocês, mulheres, estão fazendo?".

Mas os jovens pareciam entender a postura dos homens de túnica. "Eles devem estar dizendo: 'O que esses caras ricos estão fazendo? Provavelmente é algum projeto de faculdade'", disse um estudante.

Isso fez com que os jovens tivessem a conversa mais séria do dia, sobre aquele que é sem dúvida o maior problema do Paquistão: a lacuna entre ricos e pobres. Uma pobreza que atravessa gerações e um sistema educacional de baixíssimo nível que não possibilita que as pessoas ascendam socialmente criaram um terreno fértil para a militância islâmica, que representa uma ameaça grave à estabilidade do país.

"Aqui, quem é pobre não é sequer considerado um ser humano", afirmou Pavel Qaiser. "Essa é a cultura que temos - um dono de terras e os camponeses trabalhando para ele".

E aqui houve uma revelação: a coleta de lixo, que os estudantes desejavam que fosse um exemplo para os lojistas e moradores, foi na verdade um exercício para eles próprios.

"Os ricos não se importam, os pobres não podem fazer nada. Portanto, cabe à classe média promover a mudança", disse Khwaja, enquanto um grupo de amigos fazia sinais de aprovação. "Temos que liderar com o exemplo. Mudar as coisas de dentro para fora".

Ele continuou, com a voz rápida, como se estivesse fazendo um discurso: "Queremos dizer a todos: 'Você tem direitos. Durante 60 anos todos disseram que você não tem, mas isso não é verdade!'".

A seguir ele lamentou o pequeno número de amigos que o grupo foi capaz de reunir para catar o lixo. Para os que não vieram, ele tinha uma mensagem: "Quer fazer algo? Pegue uma pá".

Tradução: UOL

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