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20/05/2009

Com queda do preço do petróleo, diminuem as esperanças da Venezuela de aumentar sua influência

The New York Times
Simon Romero
Em Caracas (Venezuela)
O esforço do presidente Hugo Chávez para ampliar sua influência na América Latina está perdendo força em meio aos baixos preços do petróleo e à desordem no próprio setor de energia da Venezuela.

Nos últimos anos, Chávez usou a riqueza do petróleo do país para promover sua agenda de inspiração socialista em casa e atrair outros países na região para sua esfera de influência, ajudando a consolidar a inclinação política à esquerda em partes da América Latina.

Entretanto, mais de uma dúzia de grandes projetos que visavam ampliar o alcance de seu país está no limbo - incluindo um gasoduto que cruzaria o continente e pelo menos oito refinarias, da Jamaica ao Uruguai- enquanto a Venezuela lida com a queda da receita e outros problemas em sua companhia estatal de petróleo.

A Venezuela também está reduzindo fortemente outros tipos de ajuda financeira aos seus vizinhos, um pilar de sua influência regional. Um estudo recente do Centro de Investigações Econômicas, uma empresa de consultoria financeira daqui, apontou que a Venezuela anunciou planos de gastar apenas cerca de US$ 6 bilhões no exterior neste ano, em comparação a US$ 79 bilhões em 2008.

Isso inclui gastos propostos em tudo, de compras militares até ajuda, e aponta para um grande enfraquecimento da diplomacia do petróleo de Chávez. Acabaram, por exemplo, os desembolsos multibilionários para compra de títulos da dívida argentina, substituídos por empréstimos modestos, como os US$ 9 milhões para o cultivo de arroz no Haiti.

Agora, países que antes dependiam da ajuda venezuelana estão se voltando para outros lugares. A Argentina fechou um acordo de US$ 10 bilhões com a China para ajudá-la a comprar importados chineses, enquanto o Equador, um aliado estreito da Venezuela, está retomando os laços com o Fundo Monetário Internacional, o tipo de instituição dominada pelo Ocidente que Chávez despreza.

Alguns aliados venezuelanos até mesmo parecem estar se aproximando do governo Obama, às vezes em áreas como treinamento militar. Neste mês, o presidente do Equador, Rafael Correa, enviou seu piloto para estudar no Colégio de Guerra Aérea, em Montgomery, Alabama.

Cuba também está cautelosamente abrindo a porta para melhorar as relações com Washington, e ao mesmo tempo tentando atrair investimento do Brasil, reduzindo potencialmente sua dependência da Venezuela.

"A influência de Chávez está começando a atingir seu limite natural, após anos de promoção de processos de integração regional onde a Venezuela era o eixo e os outros eram os raios", disse Daniel P. Erikson, um analista da Diálogo Interamericano, uma instituição de pesquisa em Washington. "Países de porte médio na América Latina não têm interesse em ser um raio da Venezuela."

Os países maiores, por sua vez, estão promovendo suas próprias agendas, na esperança de redesenhar o mapa das alianças de energia e poder na América Latina longe da Venezuela e da Bolívia, uma grande aliada de Chávez com grandes reservas de gás natural. Brasil, Argentina e Chile deram prosseguimento neste ano aos projetos de importação de gás natural de fontes rivais, como a Rússia e Trinidad e Tobago.

O Brasil também despontou como rival em energia, após a descoberta de grandes quantidades de petróleo e gás natural além da costa no Atlântico. Agora o país está aumentando as exportações para os Estados Unidos, os maiores compradores de Chávez, enquanto a companhia estatal de petróleo venezuelana enfrenta um declínio da produção em seus campos de petróleo.

Apesar das mudanças, a Venezuela ainda mantém uma ampla influência na região, incluindo parte do Caribe e da América Central, onde permite que mais de 15 países adiem o pagamento de parte da conta do petróleo venezuelano. A dívida deles para com a Venezuela cresceu mais de 30% em 2008, para US$ 5,5 bilhões.

Outras das prioridades da Venezuela, a formação do Banco do Sul, um banco de desenvolvimento que visaria reduzir a influência do Banco Mundial, também parece estar fazendo algum progresso, apesar da ainda não estar claro quando começará a funcionar.

A Venezuela também exerce influência na Alba, o grupo de cooperação de cerca de seis dos países mais pobres da região, incluindo a Nicarágua e a Bolívia.

Ainda assim, a forte queda na receita do petróleo acentuou problemas na companhia estatal de petróleo. A tensão é grande nos sindicatos de trabalhadores devido aos salários que não estão acompanhando a inflação venezuelana, a mais alta da América Latina. As perdas estão se acumulando porque a Venezuela possui um dos subsídios domésticos mais generosos do mundo aos combustíveis, o que também provoca o contrabando ilegal de combustível barato para a Colômbia. E há muitos atrasos nos projetos de construção de complexos para exportação, além do aumento das dívidas.

Em meio aos problemas, Chávez nacionalizou ativos de dezenas de empresas nacionais e estrangeiras de serviços de petróleo neste mês, em vez de pagar o que deve a elas, calculado em mais de US$ 10 bilhões.

Sob tamanha pressão, Chávez teve que mudar seu foco dos vastos projetos internacionais que expandem sua influência para o escoramento da companhia estatal de petróleo, a Petróleos de Venezuela, que fornece ao país mais de 90% da sua renda de exportação. Em abril, a empresa reduziu os salários dos executivos em 20% e congelou os salários de seus 75 mil funcionários.

Outros projetos, como o plano há muito adiado de explorar as reservas de gás natural em alto-mar, transportando o combustível em supernavios-tanque, estão avançando em ritmo de lesma.

"A Venezuela tentou impor sua visão própria de integração de energia na região, mas esse modelo estão caindo em pedaços", disse Roger Tissot, uma autoridade no setor de energia da Venezuela para a Gas Energy, uma empresa de consultoria brasileira. "Os mercados potenciais estão aproveitando os baixos preços de energia para diversificar seus fornecedores."

Parte da tensão pode estar até mesmo aparecendo no programa da Venezuela para fornecer petróleo subsidiado aos países na região. Pelo menos um país ávido em participar, a Costa Rica, teve seu pedido ignorado, um sinal potencial de que Caracas está menos disposta a aceitar um novo membro em um momento de receita em queda. Ao mesmo tempo, a Costa Rica está considerando um acordo com a China para construção de uma refinaria de petróleo de US$ 6 bilhões.

Em comparação, a ascensão do Brasil nas questões políticas e de energia regionais esteve em exibição após a eleição, em março, de um esquerdista em El Salvador, Mauricio Funes, que foi saudado com entusiasmo por Chávez como prova da consolidação da "corrente histórica que tem ocorrido na primeira década do século 21 em toda a América Latina e no Caribe". Mas a primeira visita de Funes após sua vitória foi para se encontrar com o presidente esquerdista moderado do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

"Eu me identifico mais com o modelo brasileiro do que com o da Venezuela, mas quero boas relações com todos", disse Funes durante a visita, em março. Ele acrescentou que espera obter a perícia da indústria de etanol de cana-de-açúcar do Brasil, em uma tentativa de exportar o combustível de El Salvador para os Estados Unidos, assim como informações sobre os programas de bem-estar social de Lula.

Publicamente, o Brasil aplaude as iniciativas regionais de Chávez, como o frequentemente adiado Banco do Sul e o gasoduto de US$ 20 bilhões da Venezuela até a Argentina. Mas o Brasil o faz com cautela, para que corresponde aos seus próprios interesses. "Eu acho que o projeto é viável", disse em abril o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, a respeito do gasoduto, "mas durante a crise não há fundos disponíveis. O grande projeto deverá esperar um pouco".

Alexei Barrionuevo, de Brasília, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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