UOL Notícias Internacional
 

20/05/2009

Vitória do Sri Lanka sobre rebeldes é um assunto de família

The New York Times
Somini Sengupta
Em Nova Déli (Índia)
O presidente do Sri Lanka, Mahinda Rajapaksa, saboreou na terça-feira (19/05) uma vitória que escapou de todos os chefes de Estados cingaleses anteriores a ele: Rajapaksa declarou na televisão que, após mais de 25 anos, as suas tropas derrotaram um dos exércitos guerrilheiros mais persistentes no campo de batalha.

Por trás do discurso de vitória havia um triunfo histórico e sangrento de ordem familiar, administrado por dois dos irmãos do presidente: Gotabaya, o influente secretário da Defesa, e Basil, um assessor especial que elaborou a estratégia política em torno da operação de guerra.

Juntos, os irmãos Rajapaksa desafiaram as pressões internacionais pelo fim das baixas civis, esmagaram a dissidência, impediram reportagens independentes da guerra e conseguiram aquilo que muitos consideravam impossível: derrotaram os Tigres Tâmeis, que travaram uma guerra impiedosa de terrorismo e que no passado administraram áreas do território do Sri Lanka como se estas constituíssem um autêntico Estado.

Saiba mais sobre o Sri Lanka

  • UOL Mapas

    População: 21.324.791
    Área: 65.610 km²
    Composição étnica: 82% cingalês; 8,2% tâmil; 7,7% árabe; outras minorias

Tendo Gotabaya Rajapaksa como encarregado da pasta da defesa, o governo aumentou drasticamente os gastos na área militar; comprou novas armas, principalmente da China e do Paquistão; e quase que dobrou o tamanho das forças armadas, que atualmente contam com quase 160 mil integrantes. O presidente Rajapaksa utilizou a sua astúcia política. Ele fez questão de pedir armas primeiro à Índia. Foi só quando aquele país recusou-se a fornecer armamentos devido à simpatia doméstica pela causa tâmil que Rajapaksa recorreu aos rivais da Índia.

A estratégia militar também deu resultados. Começando no verão de 2006, as forças do governo lançaram intensos ataques aéreos, marítimos e terrestres contra os rebeldes no leste e no norte da ilha, mantendo os ataques mesmo quando os dois lados ainda estavam engajados em negociações de cessar fogo. O governo também adotou algumas táticas de guerrilha dos Tigres Tâmeis, usando pequenos grupos de soldados para penetrar profundamente na selva e assassinar líderes rebeldes.

Os irmãos, que vieram de uma classe abastada de proprietários rurais, não fazem parte da elite da capital, que é educada em língua inglesa. E o fato de terem desprezado as pressões do Ocidente não atrapalhou. Na verdade, isso os ajudou a consolidar a sua base nacionalista cingalesa no sul do país.

"Não houve hesitação, como aconteceu com os governos anteriores", afirma Nilan Fernando, diretor no Sri Lanka da organização não governamental norte-americana Asia Foundation, com sede em Colombo, a capital do país. "Os governos anteriores sempre agiram de forma a empatar. Desta vez, porém, eles jogaram para vencer".

E venceram.

A vitória, assim como o esmagamento da rebelião separatista tchetchena por parte da Rússia, teve um custo elevado. A Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que, somente a partir de janeiro deste ano, 7.000 civis foram mortos, e mais de 260 mil indivíduos de etnia tâmil que fugiram da zona de guerra estão agora morando em superlotados campos para refugiados. Alguns civis estão desaparecidos, incluindo três médicos que trabalham para o governo. Eles atuavam na área controlada pelos rebeldes e falavam regularmente a respeito dos bombardeios dos hospitais da região.

Alguns dos mais fieis aliados do Sri Lanka, incluindo aqueles que classificaram os Tigres Tâmeis como organização terrorista, estão pedindo agora a instauração de uma comissão internacional de inquérito para investigar possíveis crimes de guerra. O Sri Lanka necessita desesperadamente de ajuda estrangeira para a reconstrução de pós-guerra.

Ao conduzir a luta, o presidente Rajapaksa, um advogado e membro do parlamento que foi eleito por uma tênue maioria dos votos em 2005, cultivou o apoio tácito da Índia. Embora a Índia não tenha fornecido armamentos ofensivos, ela passou a atuar menos no sentido de interromper a luta. O sucesso das forças armadas do Sri Lanka em interceptar navios de suprimentos no Oceano Índico é frequentemente atribuído à atuação da inteligência indiana.

A presidente do governista Partido do Congresso da Índia é Sonia Gandhi, cujo marido, Rajiv, um ex-primeiro-ministro, foi assassinado por uma militante suicida integrante dos Tigres Tâmeis, uma jovem que explodiu a si própria ao curvar-se em uma saudação diante de Rajiv.

O presidente do Sri Lanka, menos cosmopolita do que os seus irmãos, veste-se com a túnica branca e o sarongue tradicionais dos cingaleses. Na década de oitenta, quando ativistas anti-governamentais de etnia cingalesa foram sequestrados e mortos, ele foi um dos maiores defensores daqueles indivíduos, tendo pedido apoio à ONU.

Porém, após ter sido eleito, ele passou a considerar a tarefa de derrotar a rebelião mais importante do que proteger as liberdades civis. Os Rajapaksa trataram os dissidentes como aliados do inimigo. Alguns jornalistas foram presos segundo uma lei anti-terrorismo; outros foram assassinados misteriosamente, incluindo um editor de jornal, Lasantha Wickrematunge, que em um artigo sinistro e presciente, previu a sua própria morte e responsabilizou Rajapaksa pelo assassinato.

Gotabaya Rajapaksa, o secretário de defesa que já foi administrador de um sistema de computação em Los Angeles, acusou as agências de ajuda internacional que atuavam no território dos Tigres Tâmeis de ajudar os insurgentes. No outono passado, Gotabaya expulsou todos eles da área.

Em junho de 2007, o secretário da Defesa foi uma peça-chave para ordenar a expulsão de quase 400 tâmeis que moraram em hotéis baratos e pensões em Colombo, por considerá-los suspeitos de ajudar rebeldes separatistas a realizar atentados a bomba na cidade. Mais tarde o supremo tribunal do Sri Lanka cancelou a ordem de deportação.

Na terça-feira, em um discurso à nação, o presidente Rajapaksa afirmou que uma nova solução política para os direitos da minoria tâmil não pode ser ditada do exterior. "Não temos tempo para fazer experiências com as soluções sugeridas por outros países", disse ele.

Rajapaksa falou a respeito da criação de um acordo de paz, mas deu poucos detalhes sobre isso além de dizer que tal acordo tem que ser aceitável por todos no Sri Lanka. E este, é claro, é o próximo desafio para Rajapaksa: a reconciliação.

Paikiasothy Saravanamuttu, diretor-executivo do não partidário Centro para Políticas Alternativas, em Colombo, diz: "O presidente agiu de forma correta ao fazer uma distinção entre o povo tâmil e os Tigres Tâmeis. O que ficou faltando foram mais detalhes sobre a fase pós-conflito. Eu gostaria que ele tivesse assumido um compromisso real quanto a um acordo político e aos direitos humanos, abordando algumas das alegações sérias que foram feitas contra as forças armadas".

Os erros cometidos pelos Tigres Tâmeis contribuíram para a derrota do grupo.

Eles ajudaram a eleger Rajapaksa ao instaurarem um boicote às eleições em novembro de 2005 nas áreas de maioria tâmil. Quase que imediatamente após o presidente assumir o cargo, os Tigres Tâmeis provocaram o governo dele com ataques mortíferos contra as suas forças.

E eles cometeram um outro erro tático. Os seus homens-bomba tentaram matar Gotabaya Rajapaksa e o comandante do exército, general Sarath L. Fonseka. Amigos do presidente afirmam que as tentativas de assassinato aumentaram a determinação de Rajapaksa.

Na terça-feira, pouco depois do discurso presidencial, a televisão cingalesa exibiu uma imagem que o governo vinha procurando obter durante três décadas: o corpo de um homem que os militares identificaram como sendo o comandante do movimento separatista étnico, Vellupillai Prabhakaran, vestido com uniforme de combate, com os olhos arregalados e a boca aberta, como se ele também estivesse chocado. Não restou nenhum tâmil na pátria que ele lutou tão ferozmente para criar. Apenas colunas de fumaça e soldados.


Tradução: UOL

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