UOL Notícias Internacional
 

21/05/2009

A vida e o desânimo em cidade do Maranhão afetada pelas chuvas

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em Trizidela do Vale
Sentado em uma cadeira de metal na laje de sua casa de um andar, Genésio Alves de Souza olhava para a rua alagada e se perguntava quando voltaria a sua vida de proprietário de bar.

Vai depender, é claro, de quando o nível da água, que quase alcançou os telhados nos últimos dias na pior enchente aqui em mais de duas décadas, finalmente revelar o chão desta cidade humilde nordestina, disse ele.

Lalo de Almeida/The New York Times 
Crianças brincam em uma das ruas inundadas de Trizidela do Vale, no Maranhão

"Aquele número 71 estava coberto ontem", disse Souza, 58, apontando para a porta de um vizinho. "Hoje dá para ver quase o número todo. A água está descendo, lentamente. Talvez em meados de junho tudo isso termine."

"Temos que acreditar que Deus tem um plano."

Faz mais de um mês desde que as chuvas torrenciais fizeram transbordar os lagos que cercam 40% da cidade e o rio que corre em torno dela, forçando 11.000 dos 18.400 moradores a deixarem suas casas. Com a chegada dos gêneros de emergência, só resta aos moradores como Souza esperar pacientemente que as águas baixem.

A enchente transformou esta cidade de telhados vermelhos em uma urbe aquática onde o transporte só é possível por barco -ou a nado.

Dias se tornaram semanas, testando o ânimo interminavelmente solar do povo de Trizidela, localidade humilde no interior de um dos Estados mais pobres do Brasil, o Maranhão. Os moradores estão tentando superar a monotonia da falta de trabalho e de escola pescando nas ruas e saltando de uma ponte para o rio alagado.

Eles já passaram por grandes enchentes antes, mas muitos dizem que a água nunca ficou tão alta ou demorou tanto para secar.

"A situação se tornou precária e a auto-estima das pessoas está bem baixa", disse Francilene Silva, 232, olhando da varanda de um amigo para a cidade alagada. "Isso está se arrastando há muito tempo. Muitas pessoas estão com medo."

As casas estão com água acima das janelas. As lápides dos túmulos mal aparecem sobre a água. O único sinal de onde havia um parque público é um grande cartaz na entrada.

A principal rua da cidade, Santo Antonio, ainda zumbe, mas agora com o som de barcos de motor e remos na água. Botes do tamanho de canoas levam as pessoas e suas posses -mulheres com bebês, motocicletas, pássaros engaiolados- de maneira ordenada, sem um guarda de trânsito à vista.

Passeando pelas ruas alagadas em um minúsculo bote a motor, seria possível ficar em pé e tocar nas linhas de telefone. Dezenas de gatos olhavam dos tetos quase ao nível dos olhos, enquanto o barco passava na frente da casa de Souza e por um grupo de crianças de calção de banho flutuando em câmaras de pneu e brincando alegremente apesar de não saberem nadar.

Um homem deitado em uma rede ao lado da porta de uma loja de autopeças tentava tirar o sono dos olhos. Ele tinha sido contratado para vigiar a loja contra os ladrões que passam pelas ruas à noite em canoas. Respirando pesadamente, Rondiney da Silva nadou para dizer que ladrões tinham entrado em sua casa e que sua família, como muitas, está sobrevivendo com a cesta básica distribuída pelo governo a cada duas semanas.
  • Lalo de Almeida/The New York Times

    Moradores usam barco para atravessar rua inundada em Trizidela do Vale, no Maranhão

  • Lalo de Almeida/The New York Times

    Crianças pescam em água que invadiu as ruas
    da cidade maranhense afetada pelas chuvas



"Quando a água finalmente descer, as pessoas vão sofrer mais ainda", disse Silva, 19. "Elas não vão mais receber as cestas básicas, nada. Vamos ter que reconstruir o bairro."

Silva, que trabalha como DJ, usou seu tempo livre para fazer um documentário da enchente -até que seu equipamento de vídeo foi arruinado pelas águas. Ele foi ao teto de sua casa para pegar um DVD de seu filme. "Queria mostrar para as pessoas daqui os bons tempos, os momentos engraçados", disse ele.

Mudar-se não é uma opção para a maior parte dos habitantes. As casas aqui custam menos de R$ 5.000 e são mais caras em outras partes. A renda média familiar é de cerca de R$ 250 por mês, quase metade do salário mínimo do Brasil de quase R$ 500.

Ainda assim, talvez seja aconselhável mudar. Os climatologistas dizem que o Brasil vem vivenciando climas mais extremos nos últimos anos, inclusive com enchentes e secas intensas, e essa tendência deve continuar nas próximas décadas. Abril foi o terceiro mês mais úmido dos últimos 50 anos no nordeste brasileiro.

Janio de Souza Freitas, prefeito de Trizidela, quer diminuir os riscos remanejando 1.000 famílias para terrenos mais altos em um novo bairro. No ano passado, a enchente também causou caos e houve enchentes sérias em 1974 e 1985. Na época, a população era menos da metade do que é hoje e poucos previam que os desastres continuariam, disse ele.

Até agora, as autoridades da cidade estão frustradas com a lentidão da entrega dos mantimentos de emergência e com a redução dos recursos da prefeitura. As principais indústrias da cidade são duas fábricas de cerâmica e uma de sabão. A enchente deixou a cidade sem água potável por um mês. Os moradores que continuam a caminhar pelas águas da enchente saturadas de gasolina, óleo diesel e produtos de limpeza estão colocando em risco sua saúde, disse o prefeito.

Enquanto isso, todo mundo parece estar frustrado com os lucros dos proprietários de canoas e barcos, que estão cobrando cerca de R$ 2 para uma viagem de quase 3 km de Pedreiras para a outra ponta de Trizidela, que dura cerca de 20 minutos.

"Estão lucrando muito com isso, e não está certo", disse Coutinho Neto, porta-voz do prefeito. "Isso se tornou um abuso", disse Raimunda Santos Nery, fazendo uma travessia com sua bisneta Camila, 7.

A casa de Santos fica em um local mais alto e não foi alagada. Mas ela disse que costumava fazer a viagem de barco duas vezes por dia, e que agora não conseguia mais pagar a tarifa.

Ainda assim, apesar de todos os desafios, os moradores de Trizidela não estão derrotados. Todo mundo parece ter uma vara para pescar uma refeição. "Sete por cinco!", gritava um homem pegando peixes do lado da ponte com uma pequena rede.

Na noite de sexta-feira (15), as crianças se balançavam com uma corda longa amarrada a uma árvore para dentro da água barrenta do rio. Outras, algumas com menos de 1m20, subiam em uma ponte de 6 m e davam cambalhotas mergulhando no rio.

"As pessoas aqui gostam de se divertir", disse Rafael Leonardo, 26, enquanto observava as crianças se balançando da árvore. "Lidamos com enchentes como essa há mais de 20 anos. Esta é uma das piores, mas provavelmente não será a última."

Tradução: Deborah Weinberg

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