UOL Notícias Internacional
 

21/05/2009

Armas enviadas pelos EUA podem estar nas mãos do Taleban

The New York Times
C. J. Chivers
Cabul (Afeganistão)
Os rebeldes do Afeganistão, que lutam por uma das regiões mais pobres e remotas do mundo, conseguiram ao longo dos anos manter uma guerrilha intensiva contra as forças afegãs e norte-americanas, que têm mais recursos materiais.

As armas e munição coletadas de guerrilheiros mortos sugerem uma das possíveis razões para isso: entre os 30 pentes de fuzil encontrados recentemente com os corpos de guerrilheiros, pelo menos 17 continham cartuchos idênticos à munição que os Estados Unidos forneceram para as forças do governo do Afeganistão, de acordo com exames das marcas de munição feitos pelo New York Times e entrevistas com oficiais americanos e negociantes de armas.

A presença dessa munição entre os mortos afegãos no vale de Qurangal, uma região de batalhas violentas próxima à fronteira do Afeganistão com o Paquistão, sugere fortemente que as armas fornecidas pelo Pentágono vazaram das forças afegãs e foram usadas contra as tropas norte-americanas.

Ainda não se sabe quanta munição foi desviada, e os 30 pentes representam só uma amostra, com menos de mil cartuchos. Mas alguns militares, analistas e negociantes de armas dizem que isso aponta para uma possibilidade preocupante: o controle irregular dos EUA e do Afeganistão sobre o vasto inventário de armas e munição enviadas ao país durante os oito anos de conflito, a falta de disciplina e a corrupção generalizada das forças afegãs podem ter ajudado os insurgentes a permanecerem armados.

Os Estados Unidos foram criticados em fevereiro pelo Government Accountability Office [órgão de controle do governo federal americano], por não conseguirem prestar contas de milhares de fuzis distribuídos para as forças de segurança afegãs. Algumas dessas armas foram documentadas em mãos de insurgentes, incluindo algumas usadas numa batalha em que nove americanos morreram no ano passado.

Em resposta, o Comando Multinacional de Transição para a Segurança no Afeganistão, unidade liderada pelos EUA que fornece treinamento e suprimentos para as forças afegãs, disse que a responsabilidade sobre todas as propriedades da polícia e dos militares afegãos é agora uma prioridade máxima, e tomou medidas para localizar e registrar os fuzis fornecidos mesmo há alguns anos. O Pentágono criou uma base de dados de pequenas armas cedidas às unidades afegãs.

Mas não existe nenhum sistema de inventário similar para a munição, que é mais difícil de rastrear e mais volátil do que as armas de fogo, mudando de mãos rapidamente por conta da corrupção, vendas ilegais, roubo, perdas nas batalhas e outras formas de desvio.

As forças norte-americanas não examinam todas as armas e munições capturadas para descobrir como os insurgentes as obtiveram, ou para determinar se o governo afegão, direta ou indiretamente, é um fornecedor importante do Taleban, dizem oficiais. Os motivos para isso incluem a falta de recursos e de uma memória institucional das armas concedidas, além da falta de colaboração entre as unidades de campo que coletam equipamentos e os investigadores e supervisores em Cabul que poderiam rastreá-los.

Nesse caso, os pentes de fuzil foram confiscados em abril por um pelotão da Companhia B, 1º Batalhão, 26ª Infantaria, que matou pelo menos 13 guerrilheiros talebans numa emboscada à noite no leste do Afeganistão. Os soldados fizeram uma busca nos corpos dos guerrilheiros e coletaram 10 fuzis, um lançador de granadas com propulsão de foguete, 30 pentes e outros equipamentos.

É raro ter acesso ao equipamento do Taleban. Mas depois da emboscada, a companhia permitiu que os itens fossem examinados pela reportagem.

Foram tiradas fotos dos números de série das armas e das marcações de munição, na parte de baixo dos cartuchos, que podem revelar onde e quando a munição foi fabricada. As marcas foram então comparadas com munições do governo, e com um registro que tenho de munição recolhida de pentes e depósitos afegãos nos últimos anos, em várias províncias.

O tipo de munição em questão, 7,62 x 39 mm, coloquialmente conhecida como "7,62 curta", é um dos cartuchos pequenos mais abundantes entre os militares, e pode vir de dezenas de fornecedores diferentes.

Ela é usada em fuzis Kalashnikov verdadeiros e falsificados, e é fabricada em vários países, incluindo a Rússia, China, Ucrânia, Coreia do Norte, Cuba, Índia, Paquistão, Estados Unidos, nos países do antigo Pacto de Varsóvia e em vários outros da África. Alguns países têm várias fábricas, cada uma associada a uma marcação diferente no cartucho.

O exame dos cartuchos do Taleban encontrou sinais de desvio, 17 dos pentes continham munição com uma dessas duas marcas: a palavra "WOLF", em letras maiúsculas, ou a sigla "bxn", em minúsculas.

A marca "WOLF" designa a munição da Wolf Performance Ammunition, uma companhia da Califórnia que vende cartuchos feitos na Rússia para proprietários de armas americanos. A companhia também fornece cartuchos para soldados afegãos e policiais, normalmente através de intermediários. Suas munições podem ser encontradas nos depósitos de armas do governo afegão.

A marca "bxn" era usada por uma fábrica tcheca durante a Guerra Fria.
Desde 2004, o governo tcheco doou seu estoque de munição e equipamentos para o Afeganistão. A AEY Inc., antiga fornecedora do Pentágono, também enviou munição tcheca excedente para o Afeganistão, de acordo com o Exército dos EUA, incluindo cartuchos com marcas "bxn".

A maior parte da munição Wolf e tcheca encontrada nos pentes talebans estava em boas condições e mostrava poucos sinais de exposição ao tempo, marcas, corrosão ou sujeira, sugerindo que haviam sido tiradas da embalagem recentemente.

Não há provas de que a Wolf, o governo tcheco ou a AEY tenham voluntariamente enviado munição para os rebeldes afegãos. No ano passado, A AEY foi proibida de negociar com o Pentágono, mas os seus problemas legais vêm de alegações de fraude.

Dado o número de fontes possíveis, a probabilidade de que o Taleban e o Pentágono estejam compartilhando os mesmos fornecedores é pequena.

Em vez disso, a quantidade de munição Taleban idêntica em marcas e condições à usada pelas unidades afegãs indica que é mais provável que essa munição tenha saído da custódia do Estado na surdina, disse James Bevan, pesquisador especializado em munição para o Small Arms Survey, um grupo de pesquisa independente em Genebra.

Bevan, que documentou o desvio de armas no Quênia, em Uganda e no Sudão, disse que uma explicação possível é que os intérpretes, soldados ou policiais tenham vendido sua munição para ganhar dinheiro, ou que a passaram para frente por outras razões, incluindo o apoio aos guerrilheiros. "A mesma história de sempre, só muda o lugar", disse ele.

A maioria dos cartuchos nos 13 pentes talebans restantes traziam marcas indicando sua fabricação na Rússia durante o período soviético.
Vários deles tinham marcas chinesas e datas que indicavam a fabricação nos anos 60 e 70. Um número menor vinha da Hungria. Grande parte dessa munição estava em péssimas condições.

A munição húngara e chinesa também havia sido fornecida pela AEY ao governo afegão, o que significa que é possível que vários dos pentes restantes incluíssem cartuchos fornecidos pelo governo americano.

O Exército dos EUA não contesta a possibilidade de que o roubo ou a corrupção possam ter desviado a munição Wolf e tcheca para os rebeldes.

O capitão James C. Howell, que comanda a companhia que capturou a munição, disse que o desvio ilícito é uma hipótese compatível com a notória reputação de corrupção das unidades afegãs, especialmente na polícia. "Não é nenhuma surpresa", disse ele.

Mas disse que, na sua experiência, essa corrupção não é a norma. Em vez do desvio deliberado, diz ele, a causa mais provável é falta de disciplina e fiscalização das forças de segurança afegãs, ou ANSF.
"Acho que a maior parte da ANSF não quer que sua própria munição seja usada contra eles mesmos", disse.

Os fuzis capturados do Taleban também indicam o desvio de armas.

Depois da batalha no vilarejo de Wanat no leste do Afeganistão no ano passado, na qual nove americanos morreram e mais de 20 ficaram feridos, os investigadores encontraram um grande depósito com fuzis de assalto AMD-65 no posto de polícia local, que estava envolvido no ataque, de acordo com oficiais norte-americanos. Ao todo, o posto de policia tinha mais de 70 fuzis de assalto, mas apenas 20 oficiais em sua folha de pagamento. Três AMD-65 foram recuperados próximo ao local da batalha.

O AMD-65, um peculiar fuzil húngaro, raramente era visto no Afeganistão, até que os Estados Unidos os fornecessem aos milhares para a polícia afegã. Eles agora podem ser encontrados nos mercados de armas do Paquistão.

Na emboscada dos EUA em abril, todos os 10 fuzis capturados tinham marcas de fabricação da China ou de Izhevsk, na Rússia. Os que tinham marcas de datas haviam sido fabricados nos anos 60 e 70.

As fotografias das armas e de seus números de série foram fornecidas pelo brigadeiro general Anthony R. Ierardi, comandante do Comando de Transição. Depois de checá-los na base de dados do Pentágono, o general disse que um dos fuzis chineses havia sido fornecido a um oficial da polícia auxiliar afegã em 2007. Não está claro como os guerrilheiros talebans conseguiram o fuzil.

A polícia auxiliar, que fazia parte do Ministério de Interior afegão, estava corrompida pela corrupção e incompetência. Ela foi suspensa no ano passado.

Sobre a munição capturada do Taleban, Ierardi alertou que a diversidade das marcas poderia indicar que o uso de munição fornecida pelos EUA por parte dos guerrilheiros talebans não é comum. Ele observou que a amostra de munição capturada era pequena e que as munições podem ter vazado por meios menos perversos.

"A variedade da munição pode sugerir perdas em batalhas; pode sugerir munição capturada", disse. E acrescentou, entretanto, que não queria parecer defensivo e que a responsabilidade pelas armas e munições afegãs é "da maior prioridade".

"A ênfase, no nosso ponto de vista, é em relação à responsabilidade sobre toda a propriedade de logística", disse. O vazamento de armamentos do Pentágono para os rebeldes é certamente "a pior das hipóteses", disse ele, acrescentando: "Queremos evitar exatamente esse cenário que você descreveu."

Tradução: Eloise De Vylder

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