UOL Notícias Internacional
 

21/05/2009

Novas preocupações enquanto o Irã testa míssil de longo alcance

The New York Times
David E. Sanger e Nazila Fathi
Em Washington
O Irã testou um míssil sofisticado na quarta-feira (20), capaz de atingir Israel e partes da Europa Ocidental, aumentando a preocupação de que o ritmo do programa de desenvolvimento de armas do Irã está superando em muito o da diplomacia liderada pelos norte-americanos, que o presidente Barack Obama disse que deixará desenrolar até o final do ano.

O míssil Sejil-2 de combustível sólido usou uma tecnologia que o Irã parece ter testado pelo menos uma vez antes, mas o governo Obama ainda assim descreveu o evento como "significativo", em grande parte porque mísseis deste tipo podem ser movidos ou escondidos com relativa facilidade.

O Pentágono confirmou que o teste do míssil foi um sucesso, e Mahmoud Ahmadinejad, o presidente do Irã, disse que o míssil "atingiu exatamente o alvo", segundo a agência de notícias oficial do Irã.

Ahmadinejad está disputando a reeleição no próximo mês, o que levanta a questão sobre se o momento do lançamento faz parte de seu esforço para se retratar como sendo o líder que está reafirmando o papel do Irã como potência no Oriente Médio.

O presidente iraniano tem feito campanha na província onde ocorreu o lançamento e prometeu que "no futuro próximo, nós lançaremos foguetes ainda maiores com alcance ainda maior". Ele disse a uma multidão que com seu programa nuclear, o Irã está enviando ao Ocidente a mensagem de que "a República Islâmica do Irã está comandando o show", segundo traduções de sua aparição na televisão iraniana.

Apesar de Ahmadinejad ser propenso ao exagero, especialistas de fora disseram que o Irã está claramente a caminho de produzir mísseis de alcance mais longo mais confiáveis. Em novembro, o ministro da Defesa do Irã, Mostafa Mohammad Najar, foi citado pela televisão estatal como tendo dito que o míssil Sejil era "muito rápido", podia ser produzido e armazenado "em massa" e era fácil de preparar para lançamento. Seu lançador pode ser removido imediatamente do local de disparo, ele disse.

Seu alcance é comparável ao do Shahab III de combustível líquido, que o Irã obteve da Coreia do Norte. Mas um foguete de combustível sólido, disseram os especialistas, pode ser armazenado nas montanhas, deslocado e remontado, e disparado rapidamente, sendo, portanto, mais difícil de se transformar em alvo de Israel e de outros países.

Najar disse na quarta-feira que o Sejil-2, a versão envolvida no mais recente lançamento, difere da versão anterior do Sejil por ser "equipado com um novo sistema de navegação, assim como sensores mais precisos e sofisticados", segundo a agência de notícias oficial do Irã.

Charles P. Vick, um especialista em foguetes iranianos da GlobalSecurity.org, um grupo privado de pesquisa em Alexandria, Virgínia, disse que o lançamento faz parte de um esforço iraniano mais amplo para desenvolver mísseis de combustível sólido. A versão anterior do Sejil foi disparada no final do ano passado. Vick disse que os iranianos agora começaram a posicionar os mísseis como armas militares.

Vick acrescentou que o teste de Teerã disparou um míssil de alcance ainda mais longo que usava combustível sólido, o Ashura, no final de 2007 e várias vezes depois.

"Eles estão projetando toda uma família de sólidos para substituir seus líquidos", ele disse em uma entrevista.

É esta transição que chamou a atenção da Casa Branca. "Eu acho que é um desenvolvimento técnico significativo", disse Gary Samore, o alto funcionário para controle de armas e segurança nuclear de Obama, em uma apresentação na Associação de Controle de Armas, em Washington. "Do ponto de vista da mobilidade, é muito mais fácil de deslocar."

Samore disse que espera que o governo Obama "consiga explorar este lançamento para fortalecer nosso argumento" a respeito dos riscos do programa nuclear do Irã.

A secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, disse a um painel do Senado que está preocupada com uma série de desenvolvimentos no Irã, que podem provocar uma corrida armamentista no Oriente Médio. Ela disse que se o Irã obtiver capacidade nuclear nos próximos anos, ele passaria a constituir uma "ameaça extraordinária", dizendo: "Nossa meta é persuadir o regime iraniano de que na verdade estará menos seguro" caso prossiga com seu programa nuclear.

Apesar de ter evitado detalhes, Clinton deu voz a uma crescente preocupação entre as autoridades do governo, que agora tiveram tempo para analisar a inteligência, de que o Irã parece ter feito um progresso significativo em pelo menos duas das três tecnologias necessárias para criação de uma arma nuclear eficaz. A primeira é o enriquecimento de urânio para o grau de arma, atualmente em andamento no grande complexo nuclear em Natanz. A segunda é o desenvolvimento de um míssil capaz de chegar a Israel e partes da Europa Ocidental, e agora o país tem vários candidatos prováveis. A terceira é o desenvolvimento de uma ogiva adequada ao míssil.

O maior mistério gira em torno do programa da ogiva, que as agências de inteligência disseram em 2007 ter sido suspenso no final de 2003. Ao ser perguntado na quarta-feira se tinha visto evidência adicional indicando que o programa de armas foi retomado, Samore se recusou a comentar.

O anúncio feito pelo Irã provavelmente reforçará as preocupações israelenses, manifestadas fortemente pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu antes de sua visita a Washington nesta semana, sobre o andamento dos programas nuclear e de desenvolvimento de mísseis do Irã. Mas Netanyahu, diante de pouca opção, apoiou a contragosto o esforço de Obama de tentar negociações diplomáticas diretas com o Irã sobre seu programa nuclear. Obama, em uma concessão à impaciência israelense, disse que espera decidir até o final do ano se o Irã está fazendo "um esforço de boa fé para solucionar as diferenças" a respeito do programa nuclear.

O presidente se recusou a definir o que constituiria um progresso. Mas após a reunião, um alto funcionário israelense, que falou com os repórteres, disse que a medida mais importante seria a suspensão do programa de enriquecimento de urânio do Irã.

É difícil saber quão estreitamente ligado ao lançamento estão os esforços de Ahmadinejad de melhorar sua sorte na eleição de junho. Ele foi exibido após o lançamento na televisão estatal, acenando de um carro aberto, cercado por homens jogando confete.

Segundo o Ministério do Interior, as autoridades eleitorais confirmaram na quarta-feira a elegibilidade de quatro candidatos - Ahmadinejad; Mir Hussein Moussavi, um político moderado e ex-primeiro-ministro; Mehdi Karroubi, outro político moderado e ex-presidente do Parlamento; e Mohsen Rezai, um ex-chefe da Guarda Revolucionária.

Reportagem de David E. Sanger, em Washington, e Nazila Fathi, em Teerã. William J. Broad contribuiu com reportagem adicional.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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