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21/05/2009

Um em cada sete ex-prisioneiros de Guantánamo teria retornado ao terrorismo, aponta relatório do Pentágono

The New York Times
Elisabeth Bumiller
Em Washington (EUA)
Um relatório do Pentágono que ainda não foi divulgado publicamente fornece novos detalhes e conclui que cerca de um em cada sete dos 534 prisioneiros que já foram transferidos do centro de detenção na Baía de Guantánamo, em Cuba, para o exterior, teria retornado ao terrorismo ou à militância extremista, segundo autoridades do governo dos Estados Unidos.

A conclusão poderá reforçar os argumentos dos críticos que advertiram contra a libertação de mais prisioneiros como parte do plano do presidente Barack Obama no sentido de fechar a prisão em Guantánamo até janeiro de 2010. Relatórios anteriores do Pentágono sobre a reincidência dos detentos libertados de Guantánamo foram recebidos com ceticismo pelos grupos de liberdades civis e criticados pela falta de detalhes.

Em janeiro o Pentágono prometeu que este relatório mais recente seria divulgado em breve, mas Bryan Whitman, um porta-voz do Pentágono, afirmou nesta semana que as conclusões contidas no relatório ainda estão "sob revisão".

Duas autoridades do governo que falaram sob condição de anonimato disseram que o relatório foi mantido arquivado nos últimos meses por funcionários do Departamento de Defesa que temiam irritar a Casa Branca, em um momento em que até mesmo parlamentares democratas começavam a manifestar dúvidas quanto ao plano de Obama para fechar Guantánamo.

A Casa Branca anunciou que Obama fornecerá mais detalhes sobre esses planos em um discurso na manhã desta quinta-feira no prédio do Arquivo Nacional, em Washington.

Autoridades do Pentágono disseram que não houve nenhuma pressão da Casa Branca no sentido de suprimir o relatório, e afirmaram acreditar que os funcionários do Departamento de Defesa, alguns deles oriundos do governo Bush, agiram de forma preventiva no sentido de protegerem os seus empregos.

O relatório é alvo de numerosas solicitações de divulgação por parte de organizações de imprensa, com base na Lei de Liberdade de Informação, e Whitman diz acreditar que ele será divulgado em breve. O relatório, uma cópia do qual foi entregue ao "New York Times", afirma que o Pentágono acredita que 74 prisioneiros libertados de Guantánamo teriam retornado ao terrorismo, fazendo com que a taxa de reincidência desses detentos chegasse a quase 14%.

O relatório foi fornecido ao jornal por uma autoridade do governo que simpatiza com as conclusões contidas no documento, e que disse que o adiamento da sua divulgação cria "teorias conspiratórias" desnecessárias a respeito da demora.

Uma autoridade do Departamento da Defesa afirmou que houve pouca vontade por parte do Pentágono de divulgar o relatório porque este tornou-se politicamente radioativo no governo Obama.

"Se nós não o divulgamos, todos alegam que ele tem cunho político e que estamos protegendo o governo Obama", afirma a autoridade, que solicitou que o seu nome não fosse revelado devido à natureza sensível do fato. "E, se o divulgamos, todo mundo diz que estamos sabotando o presidente".

Declarações anteriores do Pentágono de que um grande número de ex-prisioneiros de Guantánamo retornaram ao terrorismo foram duramente criticadas por grupos de liberdades civis e de direitos humanos que afirmaram que as informações eram muito vagas para que tivessem crédito, e que consistiam em propaganda para manter a prisão funcionando. O Pentágono começou a dar tais declarações em 2007, mas deixou de fazer tal coisa no início deste ano, pouco antes da posse de Obama.

Nos últimos dias, o Pentágono deparou-se com crescentes objeções no Congresso ao fechamento da prisão, especialmente por parte do senador Harry Reid, democrata pelo Estado de Nevada e líder da maioria, que afirmou recentemente que os detentos de Guantánamo não deveriam "jamais" ser libertados nos Estados Unidos.

Na quarta-feira (20/05), Michele A. Flournoy, a subsecretária do departamento na área de políticas de defesa, lembrou as repórteres que muitos daqueles que agora manifestam reservas quanto à transferência dos prisioneiros de Guantánamo também pediram o fechamento da prisão. "Creio que alguns terão que acabar vindo para os Estados Unidos", disse ela.

Entre os 74 ex-detentos que, segundo o relatório, teriam retornado ao terrorismo, 29 foram identificados pelo nome pelo Pentágono, incluindo 16 que foram mencionados pela primeira vez no relatório. O Pentágono declarou que os outros 45 não podem ser identificados pelo nome devido a questões de segurança nacional e à possibilidade de que tal revelação prejudicasse as operações de coleta de inteligência.

No relatório, o Pentágono confirmou que dois ex-prisioneiros de Guantánamo cujas atividades terroristas haviam sido anteriormente anunciadas retornaram de fato à luta. Eles são Said Ali al-Shihri, um líder do ramo iemenita da Al Qaeda que é suspeito de participar do mortífero atentado a bomba contra a Embaixada dos Estados Unidos em Sana, a capital do Iêmen, no ano passado, e Abdullah Ghulam Rasoul, um comandante taleban afegão, que também é conhecido como Mullah Abdullah Zakir.

Até o momento o Pentágono não proporcionou nenhuma maneira de autenticar as alegações contra os 45 supostos reincidentes cujos nomes não foram revelados, e somente no caso de alguns dos 29 que foram identificados pelo nome é possível verificar independentemente as alegações de que teriam voltado a se envolver com o terrorismo. Muitos dos 29 são simplesmente descritos como "associados a terroristas" ou "treinando com terroristas", sem que seja fornecido praticamente nenhum outro detalhe.

"Isso faz parte de uma campanha para conquistar corações e mentes em favor de Guantánamo", afirma Mark P. Denbeaux, professor da Escola de Direito da Universidade Seton Hall, que representou detentos e foi co-autor de três estudos que criticaram duramente relatórios anteriores do Pentágono sobre a suposta reincidência terrorista dos ex-detentos. "Eles querem ser capazes de alegar que havia de fato gente ruim lá dentro".

Denbeaux admite que alguns dos detentos cujos nomes foram divulgados engajaram-se em atos terroristas comprováveis após a libertação, mas ele afirma que a pesquisa mostrou que o número desses indivíduos é pequeno. "Nós jamais dissemos que não havia pessoas que voltariam a lutar", explica Denbeaux. "Isso parece ser inevitável. Nada é perfeito".

Os especialistas em terrorismo dizem que uma reincidência de 14% é bem inferior ao índice relativo aos detentos comuns nos Estados Unidos. Segundo eles, este índice chega a 68% três anos após os detentos terem sido libertados. Os especialistas dizem também que, embora os norte-americanos tenham um menor nível de tolerância para com a reincidência em se tratando dos detentos de Guantánamo, não existe qualquer evidência que sugira que eles se engajaram em quaisquer operações elaboradas como os ataques de 11 de setembro de 2001.

"O terrorismo é perpetrado por organizações, e não por indivíduos", afirma Bruce Hoffman, um especialista em terrorismo da Universidade de Georgetown.

Além de Shihri e Rasoul, pelo menos três dos 29 ex-prisioneiros identificados engajaram-se em atividade terrorista verificáveis ou ameaçaram participar de atos terroristas.

Abu Hareth Muhammad al-Awfi, um saudita que foi libertado de Guantánamo e enviado para a Arábia Saudita em novembro de 2007, e que faz parte da mais recente lista dos 16 indivíduos mais procurados pelas autoridades policiais, apareceu em um vídeo divulgado em janeiro último pelo braço iemenita da Al Qaeda, e que foi divulgado à época por empresas de comunicação. Assim como Shihri, Awfi passou por um programa saudita de reabilitação para jihadistas após sair da prisão. O programa vem sendo considerado um modelo, e o governo saudita disse anteriormente que nenhum dos indivíduos que passou por ele retornou ao terrorismo.

No vídeo, Awfi ameaça perpetrar ataques contra a Arábia Saudita, e fala raivosamente dos ataques israelenses contra o Hamas na faixa de Gaza.

Outro nome na lista dos 29 cujo caso tem sido bastante noticiado é o de Abdallah Salih al-Ajmi, um kuaitiano de 29 anos que ficou em Guantánamo de 2002 a 2005, e que perpetrou um ataque suicida a bomba em Mosul, no Iraque, em 2008, matando vários soldados iraquianos.

Margot William, em Nova York, contribuiu para esta matéria.

Tradução: UOL

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