UOL Notícias Internacional
 

22/05/2009

As armadilhas de uma 'abordagem cirúrgica' à política de segurança de Obama

The New York Times
Peter Baker
Enquanto o presidente Barack Obama defende sua estratégia de segurança nacional, ele enfrenta um desafio intimidante. Ele deve convencer o país de que está seguro apesar dos alertas do contrário da direita, e ao mesmo tempo persuadir a esquerda cética de que basta consertar a abordagem de seu antecessor em vez de abandoná-la.

Supostamente na defensiva em torno da política de segurança nacional pela primeira vez desde que assumiu o governo, Obama está apostando que sua capacidade de oratória poderá tranquilizar a população de que trazer suspeitos de terror para solo americano não os colocará em risco. Ao mesmo tempo, ele deve explicar e obter apoio para as posições que ficam em um meio-termo entre as de George W. Bush e as da União Americana das Liberdades Civis.

Em vez de um programa facilmente rotulável, Obama está aparentemente pegando elementos díspares de todo o contínuo de políticas - a proibição da tortura e de outras técnicas radicais de interrogatório, mas adotando a detenção ilimitada de certos suspeitos de terror sem um julgamento, fechando a prisão de Guantánamo, mas mantendo as comissões militares realizadas lá.

"Uma abordagem cirúrgica", foi como o presidente a chamou em seu discurso no Arquivo Nacional, na quinta-feira (21).

Mas abordagens cirúrgicas raramente são satisfatórias para aqueles em qualquer uma das pontas do espectro político, que tendem a dominar o diálogo político em Washington, particularmente quando se trata de um assunto repleto de peso emocional e implicações morais, como a luta contra os terroristas. No debate reducionista em Washington, ou qualquer sacrifício deve ser feito para vencer uma guerra cruel contra os radicais, ou o terrorismo não justifica nenhuma concessão dos prezados valores americanos.

"Ambos os lados podem ser sinceros em seus pontos de vista, mas nenhum está certo", disse Obama. "O povo americano não é absolutista e não nos elegeu para impor uma ideologia rígida aos nossos problemas. Ele sabe que não precisamos sacrificar nossa segurança por nossos valores, nem sacrificar nossos valores pela nossa segurança, desde que abordemos as questões difíceis com honestidade, cuidado e uma dose de bom senso."

Em seu discurso de resposta do outro lado da cidade, o ex-vice-presidente Dick Cheney argumentou, na prática, que o absolutismo na defesa da liberdade não é um mal.

"Na luta contra o terrorismo, não há meio-termo e meias medidas deixam você meio exposto", ele disse logo após o discurso de Obama. "Não é possível manter apenas alguns terroristas armados com armas nucleares fora dos Estados Unidos. Triangulação é uma estratégia política, não uma estratégia de segurança nacional."

Os debates em torno das recentes decisões de Obama - estabelecer uma base legal para deter os presos por tempo indeterminado sem uma acusação e não permitir a divulgação de fotos de abusos cometidos no passado, autorizando ao mesmo tempo os tribunais militares com o devido processo- passaram a representar a disputa maior que poderá moldar sua presidência. Com a economia em situação grave, Obama preferiria se concentrar nas questões domésticas e deixar para trás a discussão polarizante dos anos Bush, da segurança contra liberdade, mas ela persiste teimosamente.

Com Cheney acusando o presidente de colocar em risco o país, e seus aliados liberais expressando ultraje diante do que consideram sua traição dos princípios progressistas, a Casa Branca concluiu que não tinha escolha a não ser encarar o assunto de frente. Nunca faltou a Obama confiança em sua capacidade de educar e conquistar as pessoas quando se trata de questões complexas e inflamáveis, como fez na questão da raça durante a campanha no ano passado ou na questão do aborto, durante o discurso de domingo na Universidade de Notre Dame.

"O assunto pendeu para várias direções diferentes nas duas últimas semanas", disse David Axelrod, o conselheiro sênior do presidente. Em uma entrevista, Axelrod expressou confiança de que o público entenderia a nova abordagem multifacetada articulada no discurso. "Foi um discurso pensado, que tratou o povo americano como adultos."

Mas apesar da Casa Branca argumentar que Obama sempre reconheceu a complexidade das questões diante dele, o vice-presidente Joe Biden reconheceu na quinta-feira certa surpresa com as dificuldades envolvidas. Falando aos repórteres no Campo Bondsteel, em Kosovo, ele descreveu ter analisado os arquivos de "cada detido" no centro de detenção em Guantánamo.

"Nós sabíamos que estávamos herdando um sistema que não estava funcionando; nós sabíamos que estávamos herdando um sistema que estava nos causando grande dificuldade ao redor do mundo", disse Biden. Mas ele sugeriu que a abordagem do governo foi moldada pelo que souberam após assumirem o governo.

"É como abrir uma caixa de Pandora aqui", disse Biden. "Nós não sabemos o que há dentro da caixa. Agora sabemos muito mais do que sabíamos em janeiro."

Tanto Obama quanto Cheney usaram o termo "para um fim específico" para zombar das políticas do outro para o terrorismo. Mas a abordagem caso a caso do atual governo - seus funcionários a descrevem como pragmática- gerou confusão e decepção por todo o espectro político. Apesar de Obama ter rejeitado a preocupação dos democratas a respeito dos "comerciais de 30 segundos" os atacando como fracos em terrorismo -"eu entendo", ele disse- a realidade é que o debate poderá se repetir de forma mais dura nas eleições do próximo ano.

James Jay Carafano, um especialista em segurança interna da Fundação Heritage, disse que Obama corre o risco de ficar sem apoio para seu programa em ambos os lados.

"As pessoas na esquerda sabem que há mais em comum entre a política de Obama e de Bush do que o contrário", ele disse. "E as pessoas na direita sabem que há um problema de credibilidade, porque há uma diferença entre o que ele diz para a esquerda e o que está fazendo."

Sarah Mendelson, uma acadêmica do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais que liderou uma comissão que estudou por 18 meses o fechamento de Guantánamo, disse que a fusão das políticas Bush e anti-Bush é inviável. "Eles estão literalmente tentando combinar estes paradigmas", ela disse. "O que significa que não agradarão ninguém."

Nicholas Kulish, no Campo Bondsteel, Kosovo, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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