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22/05/2009

Vinte anos após massacre da Praça da Paz Celestial, estudantes chineses conhecem seus limites

The New York Times
Sharon LaFraniere
Em Pequim (China)
Em 30 de abril, os telefones celulares dos 32.630 estudantes da Universidade de Pequim, uma elegante instituição tida como uma das melhores universidades da China, tocaram, anunciando uma mensagem de texto da administração. A nota advertia os alunos a "prestar atenção no que falam e em como se comportam" durante o Dia da Juventude, devido a uma situação "particularmente complexa".

Poucos estudantes deixaram de entender o significado da mensagem. O Dia da Juventude, 4 de maio, comemora um protesto estudantil de 1919 contra o imperialismo estrangeiro e a debilidade da China em resistir. Em 1989, 70 anos depois, estudantes da Universidade de Pequim concentravam-se no centro da capital chinesa exigindo democracia. O movimento estudantil abalou o cerne do Partido Comunista e acabou em uma repressão militar e centenas de mortes.

E se, hoje em dia, um aluno propusesse um protesto pró-democracia?

"As pessoas achariam que ele é louco", afirmou um aluno de história da Universidade de Pequim em uma entrevista recente. "Sabemos onde a linha está traçada. É possível refletir, e talvez falar, sobre os acontecimentos de 1989. Só não se pode fazer algo que tenha alguma influência pública. Todo mundo sabe disso".

A maioria dos estudantes também parece aceitar esse fato. Durante 20 anos, o governo chinês deixou bem claro que os estudantes e professores devem se restringir aos livros e ficar longe das ruas. Os estudantes de hoje descrevem 1989 como se fosse quase uma anomalia histórica, um momento demasiado radical e traumático para ser repetido.

Guang Niu/Reuters 
Estudantes universitários se tornaram segmento que mais cresce em filiações ao PC


Mas determinar se a democracia ainda os inspira é uma questão mais complexa.

Entrevistas com alunos e professores da Universidade de Pequim, assim como especialistas na sociedade chinesa aqui e no exterior, traçam um perfil multifacetado do estudante de hoje: sem inclinação para protestos, mas destituído da indignação de ordem econômica que ajudou a desencadear os protestos em 1989; orgulhoso das façanhas da China e dispostos a filiar-se ao Partido Comunista, mas dificilmente motivado pela ideologia.

Eles sentem-se incomodados pela corrupção e a censura governamentais, e têm uma vontade enorme de estudar no Ocidente, especialmente nos Estados Unidos. E, apesar das tentativas do governo de varrer da história chinesa os acontecimentos de 1989, alguns descobriram por conta própria o que aconteceu. Por exemplo, sete dos oito alunos da Universidade de Pequim entrevistados para este artigo disseram ter conseguido baixar pela Internet o aclamado - e banido - documentário sobre os protestos da Praça da Paz Celestial, e afirmaram que o assistiram nos dormitórios da universidade.

"Existe uma visão estereotipada segundo a qual os estudantes não se interessam por democracia. Não acredito nisso", afirmou em uma entrevista Cheng Li, diretor de pesquisa do China Center, da Brookings Institution. "No mínimo, eles têm uma opinião mista a respeito do Partido Comunista".

Xia Yeliang, professor de economia da Universidade de Pequim, diz que muitos alunos apoiam a democracia em tese, mas não querem arriscar o seu futuro lutando por ela. Os estudantes brincam, afirmando que vão se envolver assim que as forças pró-democracia adquirirem força. "Uma grande porcentagem dos alunos não se interessa por política", afirma Yeliang. "Eles dizem: 'Sabemos que é uma coisa boa, que relação isso tem conosco?'. Eles pensam nas suas questões pessoais, em arranjar um emprego, em ir para o exterior".

Até mesmo o "Diário Popular", o jornal do Partido Comunista, lamenta a falta geral de idealismo no campus. "Muitos estudantes universitários apresentam um pensamento nitidamente utilitário", reclamou neste mês a revista "Fórum Popular", que é publicada pelo "Diário Popular", após a realização de uma pesquisa com os estudantes. "Tudo se baseia em determinar se determinada coisa tem ou não utilidade para o indivíduo", criticou a revista.

Na verdade, os alunos de hoje têm mais a perder do que aqueles que protestaram 20 anos atrás. Naquela época, os estudantes universitários acreditavam que o seu futuro estava ameaçado pelo índice de inflação de 28%, pela corrupção governamental generalizada e pela redução de perspectivas de emprego, segundo um livro publicado em 2001 sobre o movimento da Praça da Paz Celestial por Dingxin Zhao, professor de sociologia da Universidade de Chicago. Muitos perderam a esperança nas reformas econômicas do governo.

Atualmente, até mesmo os estudantes que criticam o governo comunista estão satisfeitos com as grandes realizações da China.

"Às vezes não apreciamos as políticas do nosso governo", afirma Wang Yongli, um aluno do quarto ano de física. "Mas, por outro lado, atualmente estamos orgulhosos do país e do governo porque eles proporcionaram uma vida melhor a tanta gente".

O Partido Comunista empenha-se em cultivar essa imagem, enquanto procura neutralizar a sede de democracia prometendo governar "democraticamente".

As autoridades dizem que se opõem à democracia multipartidária de estilo ocidental porque esse não é o caminho certo para a China, mas aprovam as ideias de consultas, avaliações públicas e plebiscitos sob o controle do partido. As autoridades do partido afirmam que a China continuará abrindo o seu sistema político passo a passo, à medida que o país se tornar mais rico e estável.

Alguns analistas da China sugerem que o descontentamento estudantil poderia emergir caso a atual crise econômica ameaçasse o futuro dos estudantes. Atualmente a China envia para instituições de ensino superior um número de alunos nove vezes maior do que em 1989, e a disputa por bons empregos é acirrada. Quase um em cada quatro pessoas que se formaram no ano passado não conseguiu encontrar emprego, segundo a agência estatal de notícias Xinhua.

Mas, depois de 1989, os líderes do Partido Comunista perceberam que corriam risco ao ignorarem a juventude. Atualmente o governo está tentando reduzir as ansiedades quanto ao desemprego através de programas de treinamento e incentivos para que os profissionais recém-formados trabalhem nas áreas rurais. "Se você está preocupado, eu estou mais preocupado do que você", disse em dezembro do ano passado a um grupo de estudantes o primeiro-ministro Wen Jiabao.

O Partido Comunista também aumentou o seu trabalho de recrutamento e educação política, fazendo com que os estudantes universitários se tornassem o seu segmento que mais cresce, segundo Susan L. Shirk, professora de ciência política da Universidade da Califórnia em San Diego. Mais de 8% dos estudantes eram membros do partido em 2007. Em 1989 essa proporção era inferior a 1%. Em instituições de elite como a Universidade de Pequim, essa percentagem é bem maior.

Alguns dos estudantes ecoam a ideia do partido de que a democracia de estilo ocidental não é apropriada para a China. "A China tem uma grande população, e a educação precisa melhorar muito", afirma Song Chao, estudante de ecologia da Universidade de Pequim. "Levando isso em conta, nós precisamos estabelecer certas regulamentações para o comportamento das pessoas. Atualmente a maior meta da China é o desenvolvimento".

Outros esperam estimular o partido a implementar reformas. "É claro que gostaríamos de nos tornar uma sociedade democrática", disse um outro estudante de história e aspirante a membro do partido. "Mas isso não é algo que conseguiremos usando meios radicais". E se houver um caos?".

Mas a maioria dos estudantes busca a filiação partidária não como posicionamento ideológico, mas sim como um meio de conseguir um emprego melhor, segundo a pesquisa publicada pela revista "Fórum Popular". Na Universidade de Pequim, muitos alunos dizem que cochilam durante as aulas de política da instituição, que são obrigatórias, e que constituem-se em alvo de zombarias.

"Até mesmo os professores sabem que estão ensinando lixo", afirma um estudante.

Muitos alunos só dão declarações desse tipo anonimamente, já que o controle do governo sobre o que se fala no campo continua forte. Os professores dizem que certos alunos recebem a incumbência de alertar a administração da universidade se perceberem que algum professor adotou posições contrárias ao governo ou ao partido. A maioria dos estudantes entrevistados para este artigo não quis se identificar, afirmando que os seus comentários poderiam ter um impacto negativo nos seus arquivos pessoais.

Há cinco anos, a universidade desativou um grupo de discussões por computador - um vibrante centro de informações para 300 mil usuários - depois que o ministro da Educação reclamou de que o grupo nem sempre refletia "a visão correta". Os estudantes dizem que tomam cuidado com aquilo que escrevem no novo grupo, que é restrito e monitorado, já que as suas identidades podem ser descobertas.

Pesquisas demonstram que quatro entre cada cinco estudantes universitários ainda informam-se por meio da altamente censurada mídia chinesa. Mas, em uma era digital, quando quase 70 mil chineses estão estudando nos Estados Unidos e cerca de 163 mil estudantes estrangeiros frequentam as universidades chinesas, os muros para conter a informação são porosos.

Uma aluna recorda-se de uma penosa discussão em mesa redonda com jornalistas estrangeiros que visitaram a Universidade de Pequim em 2007, e perguntaram sobre a ação repressiva do governo contra manifestantes estudantis em 1989. "Eles sempre perguntam a respeito daquele incidente de 4 de junho, e nós simplesmente nos mantemos em silêncio", diz ela. "Não é porque não desejamos falar, e sim porque não fazemos ideia do que ocorreu exatamente!".

"Sinto-me um pouco humilhada por não conhecermos a nossa própria história", afirma a estudante. "Assim, fui a biblioteca e li sobre o 4 de junho. Basicamente, tudo foi escrito por jornalistas estrangeiros".

As restrições ao debate público são capazes de reduzir a rumores até mesmo as polêmicas políticas no próprio campus da Universidade de Pequim. Dois professores da Universidade de Pequim foram uns dos primeiros a assinar a Carta 08, um manifesto online pró-democracia divulgado em dezembro do ano passado e apoiado por vários intelectuais.

Após a assinatura, o economista conta que foi obrigado a renunciar aos seus cargos em dois institutos de pesquisa. O outro professor, He Weifang, um famoso professor de direito, foi transferido para uma faculdade obscura nas fronteiras ocidentais da China. O seu exílio foi notícia no exterior. Mas, assim como o aniversário próximo da ação repressiva na Praça da Paz Celestial, o fato gerou pouca atenção por parte dos estudantes.

Um aluno saiu em defesa do professor através de uma mensagem anônima publicada no grupo de discussão por computador do campus. "Chegará o dia em que o professor He poderá ter aquilo que deseja", escreveu o estudante anônimo.

Tradução: UOL

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