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23/05/2009

Grande e lenta, a máquina Zamboni escapa da crise das montadoras nos EUA

The New York Times
John Branch
Em Paramount, Califórnia
Pelo menos uma fabricante americana conhecida de veículos está funcionando normalmente. Mas antes que um Zamboni chegue ao gelo, ele roda no pavimento na Colorado Avenue.

Os vizinhos já estão acostumados a ver as enormes máquinas de alisamento de superfícies de gelo deixarem a fábrica da Zamboni e percorrerem lentamente o quarteirão -velocidade máxima: 14 km/h- até o KFC da esquina. Ela faz a volta e retorna, é checada a existência de vazamentos e então recebem pneus com cravos.

J. Emilio Flores/The New York Times 
Zamboni, uma máquina de raspagem e nivelamento de gelo, em rua da Califórnia

Então o Zamboni é enviado para algum lugar como Dubai, Praga ou Milwaukee. Uma etiqueta escrita à mão, pendurada perto da ignição, diz para onde. A Zamboni pode ser a marca mais famosa no gelo, um ícone da cultura pop mais conhecido do que qualquer um dos quatro times semifinalistas da Liga Nacional de Hóquei (NHL), com um nome mais familiar do que Crosby ou Ovechkin, provavelmente até mesmo de Gretzky ou Lord Stanley, cujo troféu vai para o campeão da NHL.

E, hoje em dia, pode ser reconfortante saber que a Frank J. Zamboni & Co., que ainda é de propriedade da família e dirigida por ela, não está pedindo ajuda do governo.

"Ainda não", disse Richard F. Zamboni, 76 anos, o presidente da empresa e filho do fundador, sorrindo. "Nós passamos por ciclos que não têm nada a ver com a economia."

Em quase todos os aspectos, o Zamboni é um modelo reverenciado de consistência. Sua forma, função e vendas -de 200 a 250 de suas máquinas são produzidas a cada ano, disse a empresa- mudaram muito pouco em décadas. Diferente, digamos, dos automóveis americanos, as máquinas Zamboni parecem nunca sair da moda.

"É meio estranho -até mesmo pessoas que não sabem nada a respeito do esporte conhecem a Zamboni", disse Dave Schneider, membro fundador de uma banda com tema de hóquei chamada The Zambonis. Quando a empresa soube da banda anos atrás, os músicos imploraram: "Por favor, não nos faça mudar de nome para Máquinas de Raspagem e Nivelamento de Gelo", disse Schneider. O nome permaneceu e um acordo de licenciamento foi acertado.

Após inventar sua máquina, Frank J. Zamboni, um filho de imigrantes italianos, quis batizar sua empresa como Paramount Engineering, para lhe dar mais credibilidade. Mas o nome já existia.

Os canadenses, em especial, se surpreendem ao saber que a Frank J. Zamboni não apenas é americana, como fica longe de qualquer lugar onde a água congela naturalmente. A fábrica fica em uma travessa no sul de Los Angeles, entre a Compton e Bellflower, em meio a outros prédios industriais, mas a uma quadra de casas, postos de gasolina e centros comerciais.

Quando os engenheiros da Zamboni querem realizar alguns testes no gelo, uma máquina é levada por várias quadras da cidade, em meio a palmeiras e placas de restaurantes fast-food, até o rinque de patinação Iceland, onde a Zamboni se tornou a Zamboni há 60 anos.

A máquina original está estacionada em um canto distante do rinque. Algumas poucas vezes por dia, uma porta próxima abre e uma Zamboni de nova geração aparece no gelo.

"A máquina de 60 anos ainda é capaz de fazer uma superfície de gelo razoavelmente decente", disse Zamboni. "Apenas não tão boa quanto as novas."

Movendo-se em ovais lentos, a máquina raspa a superfície sulcada. Ela reúne as raspas de gelo e as despeja em um compartimento a bordo usando pás escondidas. Ela espalha água com um rodo para deixar uma superfície suave no gelo.

Charlie Brown já disse que há três coisas na vida que as pessoas gostam de olhar: a correnteza de um rio, uma fogueira crepitando e um Zamboni raspando o gelo.

Os fãs de jogos de hóquei -crianças e pessoas com mentalidade infantil- freqüentemente vibram quando a Zamboni entra na quadra. Elas aplaudem a precisão e vaiam os locais ignorados. Elas acenam e cantam uma canção sobre querer dirigir uma Zamboni.

Na série de televisão "Cheers", o marido jogador de hóquei de Carla, Eddie LeBee, morreu atropelado por uma Zamboni. Sarah Palin disse no ano passado que sempre quis batizar um filho de Zamboni. A "Car and Driver" recentemente fez um test drive em uma, considerando sua "direção vaga totalmente Cadillac anos 70".

Zamboni permaneceu em sua pequena fábrica, a poucas quadras de onde nasceu (em uma casa que não existe mais). Seu pai, juntamente com o irmão de Frank e um primo, abriram o rinque de patinação próximo em 1940. Frank Zamboni passou grande parte da década seguinte construindo um dispositivo que alisasse o gelo, eliminando o tempo que levava para as equipes rasparem, removerem as raspas e borrifarem a superfície de gelo.

O Modelo A estreou em 1949. O restante da frota foi numerado em ordem. Sonja Henie pegou os Nos. 2 e 3 para seu espetáculo no gelo. A No. 9.056, quase completa, irá para um rinque de patinação em Monterrey, México.

"É uma pequena empresa familiar", disse Zamboni. "Ela tem um nome, mas certamente conta com um nicho em uma área pequena."

Esta é a chave para o sucesso, segundo Ron Pinelli, presidente da motorintelligence.com. "Ela desfruta de um nicho único no mercado", ele disse. "As grandes montadoras não. O modelo de negócios delas se baseia em um alto volume de produtos de consumo."

As Zambonis são feitas sob encomenda, só fabricadas quando chega o pedido. O prazo é de no mínimo seis meses.

Richard e Alice Zamboni estão casados há 56 anos e quatro de seus cinco filhos trabalham na empresa. Uma quarta geração também ajuda e a família ainda é dona do rinque Iceland.

A fábrica conta com cerca de 30 funcionários e produz cerca de 100 máquinas por ano. Uma segunda fábrica, dirigida por Frank, o filho de Richard Zamboni, em Brantford, Ontário -a cidade natal de Wayne Gretzky- tem produção semelhante. A maioria faz parte da série 500, encontrada na maioria das arenas da NHL. As máquinas custam no mínimo US$ 75 mil e às vezes chegam aos seis dígitos.

A empresa é de capital fechado e se recusou a revelar informações financeiras. Mas 200 máquinas a US$ 75 mil cada representariam vendas anuais de US$ 15 milhões.

"Há 30 anos meu pai disse: 'Nossa, o mercado está saturado. Nós vamos ficar sem clientes'", disse Richard Zamboni. "Eu não sei onde está aquele ponto de saturação do qual meu pai falava. Nós ainda não chegamos nele."

A maioria dos concorrentes surgiu e desapareceu. Mas um, a Resurfice Corp., de Elmira, Ontário, disse produzir aproximadamente o mesmo número de máquinas que a Zamboni. As empresas são, na prática, a Boeing e Airbus do alisamento de superfícies de gelo.

A Resurfice é de propriedade da família Schlupp, que também a dirige, mas nem de longe tem o reconhecimento de marca de seu concorrente. Don Schlupp, o diretor de vendas e marketing da empresa, diz estar acostumado a ouvir as pessoas chamarem suas máquinas de Zambonis.

"Nós chamamos isso de síndrome do Kleenex", ele disse.

Tamanha familiaridade deixa a Zamboni um pouco nervosa. Ela fez o registro de marca de seu nome (e do formato quadrado de suas máquinas), mas teme que o nome se transforme em um zamboni com letra minúscula, sofrendo o mesmo destino da Aspirina, Zipper e outros nomes de marca que perderam suas proteções de marca registrada.

A empresa também pede para que Zamboni não seja usada com substantivo (como durante todo este artigo) ou como verbo. O gelo não é zambonizado e o veículo é uma máquina de raspagem e nivelamento de gelo da marca Zamboni. Boa sorte com isso.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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