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23/05/2009

Na fronteira com a Turquia, armênios temem abertura

The New York Times
Clifford J. Levy
Em Lusarat (Armênia)
Vazgen Shmavonyan mantém um bando de pombos em um local de peregrinação de ortodoxos armênios aqui. As aves rapidamente cruzam a fronteira para a Turquia, a menos de 2 km de distância. Shmavonyan, contudo, não pode segui-las, como se fosse ele o engaiolado. Elas vão, símbolo de algo que esta região não teve muito.

A fronteira entre a Armênia e a Turquia está fechada desde 1993, uma mini-Cortina de Ferro que faz parte do legado de um dos conflitos mais rancorosos do mundo, com quase um século de idade. As últimas semanas trouxeram notícias de uma possível abertura, com os dois países desenhando um plano para estabelecer laços diplomáticos e levantar as barreiras.

Ainda assim, por mais que Shmavonyan e outros no local de peregrinação quisessem passear do outro lado, eles reagiram temerosamente aos contatos oficiais com a Turquia. É claro que abrir a fronteira vai ajudar a economia e melhorar as perspectivas para o futuro. Mas primeiro, insistiram, a Turquia deve lidar com seu passado.

Eles disseram que antes de prosseguir com as negociações, o governo turco deve admitir que 1,5 milhão de armênios étnicos foram sistematicamente mortos sob o governo otomano na Turquia durante a Primeira Guerra Mundial.

"Queremos que a Turquia admita que houve um genocídio", disse Shmavonyan, 38. "Certamente é ruim que a fronteira esteja bloqueada. Se estivesse aberta, seria bom para todos. Para as pessoas que fazem comércio, tudo seria mais barato. Que eles admitam, depois podemos conversar".

Shmavonyan ganha a vida cobrando aos visitantes alguns dólares para tocarem nos pombos e os soltarem do topo do ponto de peregrinação, que é um antigo monastério considerado local de nascimento do cristianismo armênio e reduto contra o crescimento do islã.

A tensão na fronteira aqui é refletida nas tropas que vigiam o lado armênio: são russas, enviadas após um pedido armênio para ajudar a se proteger do vizinho muito maior. (A Armênia tem três milhões de habitantes, e a Turquia, 72 milhões.)

A Armênia, ex-república soviética, mantém laços fortes com a Rússia. De fato, este talvez seja um dos últimos locais no planeta onde, em um eco da Guerra Fria, soldados da Otan -neste caso, da Turquia- enfrentam russos em uma fronteira selada.

Do ponto de peregrinação ortodoxo, chamado Khor Virap, é possível ver as terras turcas que antes eram ocupadas por armênios, inclusive a área em torno do Monte Ararat, onde a Bíblia sugere que Noé atracou sua arca após o dilúvio.

Entre os armênios estavam os avós paternos de Shmavonyan, que foram mortos pelas tropas turcas, segundo ele. Seu pai sobreviveu e fugiu para cá.

Muitos trabalhadores e visitantes no local recontam histórias similares. E alguns expressaram ansiedade com a possibilidade de novos confrontos se as negociações tiverem sucesso.

"A Turquia virá para cá imediatamente; quem sabe o que vai acontecer?", disse Hayk Avetisyan, 38, motorista de táxi que trouxe alguns turistas de Yerevan, capital armênia. "Se você conhece nossa história -imediatamente, a Turquia vai tentar assumir metade da Armênia."

Nem todo mundo é tão pessimista. O reverendo Narek Avakyan, 29, principal padre da Igreja Ortodoxa Armênia em Khor Virap, disse que o país não deveria impor condições às conversas.

"Se eles quiserem admitir o genocídio hoje ou amanhã ou em algum momento em breve, eles o farão", disse ele do governo turco. "É um fato, e eles sabem disso. Passaram-se tantos anos. Não foram eles que cometeram os atos, foram seus avós e pais."

O governo turco há muito nega que ocorreu um genocídio, afirmando que a Armênia vende uma história falsa.

Autoridades turcas dizem que a Primeira Guerra Mundial foi uma época negra, quando muitos armênios étnicos morreram tragicamente no caos causado pela guerra. Mas eles disseram que não houve uma campanha metódica para matá-los e enfatizam que muitos turcos também morreram no período.

Historiadores, em geral, dizem que as alegações turcas não são plausíveis.

A Armênia buscou persuadir outros países a reconhecerem o genocídio, e os EUA foram algumas vezes atraídos para o conflito.

Como candidato, o presidente Barack Obama disse que ia admiti-lo. Contudo, no mês passado, aparentemente preocupada em ofender a Turquia, importante aliado americano, a Casa Branca divulgou uma declaração no Dia da Memória Armênia que homenageava os mortos, mas não usou explicitamente a palavra genocídio.

Os sentimentos intensos das pessoas em Khor Virap mostram como será difícil curar as divisões nesta região estratégica, porém volátil.

Além de seu relacionamento complicado com a Turquia, a Armênia tem uma fronteira fechada com outro vizinho muçulmano, o Azerbaijão, também uma antiga república soviética. Pouco após os dois países se tornarem independentes, com o fim da União Soviética em 1991, eles entraram em guerra pelo enclave de Nagorno-Karabakh.

A Turquia, que tem fortes laços étnicos e políticos com o Azerbaijão, fechou suas fronteiras com a Armênia em 1993 em solidariedade ao Azerbaijão.

A discórdia entre a Turquia e a Armênia piorou ainda mais quando a Armênia e grupos imigrantes armênios influentes em torno do mundo pressionaram pela questão das mortes da Primeira Guerra.

As únicas fronteiras abertas da Armênia são com a Geórgia, no norte, e com o Irã, no sul.

A hostilidade aqui contra o governo turco não necessariamente se estende ao seu povo. De fato, Shmavonyan, que mantém os pombos no mosteiro, disse que trabalhou uma década em Istambul, capital da Turquia, como comerciante têxtil.

"Eles nos tratavam muito bem", disse ele. "Eles sabem que os armênios são pessoas muito boas e trabalhadoras."

Ainda assim, ele e outros não acreditam que a cisão terminará logo. E admitiram que sua insistência para que a Turquia admita genocídio antes da fronteira ser aberta é doce e amarga.

"Nossa terra é lá. Queremos visitar, caminhar e ver como nossos avós viviam. Quero ir até lá e ver seus túmulos", disse David Arakelyan, 50, que administra uma área de piquenique pra visitantes ao monastério.

Tradução: Deborah Weinberg

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