UOL Notícias Internacional
 

23/05/2009

Raízes de rede de espionagem israelense penetram no Líbano

The New York Times
Robert F. Worth*
Em Beirute (Líbano)
Quando as autoridades libanesas anunciaram a prisão de integrantes de uma rede de espionagem israelense no final do ano passado, a notícia gerou pouca surpresa. Não é segredo nenhum o fato de que Israel há muito tempo mantém agentes de inteligência aqui.

Mas, nas últimas semanas, um número cada vez maior de suspeitos foi capturado, inclusive um general da reserva, várias autoridades de segurança e um vice-prefeito. Ao todo, pelo menos 21 pessoas foram presas, e três outras escaparam pela fronteira israelense com ajuda das forças armadas de Israel, segundo autoridades libanesas.

A extensão da rede de espionagem impressionou os libaneses e gerou manchetes na imprensa daqui. O fato também enfureceu as autoridades libanesas, que nesta semana enviaram um protesto oficial à Organização das Nações Unidas (ONU). Na sexta-feira (22), o presidente Michel Suleiman reclamou do problema em uma reunião realizada aqui com o vice-presidente norte-americano Joe Biden.

As prisões parecem refletir uma iniciativa recém-energizada e coordenada das agências de segurança libanesas, que atualmente cooperam bem mais efetivamente entre si e com o Hizbollah, o grupo militante xiita que tem sua base aqui, do que faziam no passado.

"Novas tecnologias nos ajudaram a capturá-los", afirma o general Ashraf Rifi, diretor das Forças de Segurança Interna. "Mas também tivemos mais cooperação do que antes por parte do exército".

Os acusados de espionagem teriam usado equipamentos sofisticados de vigilância eletrônica, bem como telefones por satélite, algumas vezes engenhosamente escondidos em muletas e mochilas. Um deles, um vendedor de automóveis do sul do Líbano, instalou aparelhos rastreadores israelenses nos carros que vendeu a membros do Hizbollah, segundo informaram as autoridades de segurança. A maioria parece ter sido motivada por dinheiro. Alguns foram pegos pelo Hizbollah antes de terem sido entregues às autoridades libanesas.

As detenções tornaram-se um assunto de discussão até mesmo no que se refere às próximas eleições parlamentares libanesas, e alguns analistas afirmam que, intencionalmente ou não, elas poderão beneficiar a aliança política liderada pelo Hizbollah, o principal inimigo de Israel aqui. Hassan Nasrallah, o líder do Hizbollah, fez um discurso furioso na sexta-feira (22), no qual pediu que todos os espiões capturados sejam executados, e rogou que o governo libanês ajude a capturar os agentes que ainda estão operando no país.

"Quem se mostrar leniente em relação a esse problema será considerado parceiro de Israel", avisou Nasrallah, observando que alguns dos espiões foram capturados com explosivos e armas, e não apenas dispositivos de interceptação e escuta.

Centenas de libaneses espionaram para Israel durante os 18 anos de ocupação israelense do sul do Líbano, a maioria em operações de curto prazo. Muitos eram moradores do sul do país, que sentiram que não tinham escolha, e que foram perdoados ou receberam penas curtas de prisão após a retirada israelense em 2000. Mas, desde então, os sentimentos tornaram-se mais hostis para com aqueles que espionam para Israel, que lançou uma devastadora operação de bombardeio aqui durante a sua guerra com o Hizbollah em 2006. Segundo a lei libanesa, os indivíduos acusados por espionagem podem ser condenados à pena de morte.

Rifi afirmou que, dos 21 acusados de espionagem que foram presos nos últimos 12 meses, 13 desempenharam um papel importante, e os outros foram relativamente insignificantes.

Segundo o general, um dos espiões importantes é Ziyad Homsi.

Homsi, 61, era vice-prefeito de Saadnayel, uma cidade no Vale Bekaa. Segundo uma matéria publicada no jornal libanês "Al Safir", que tem vínculos com o Hizbollah, Homsi confessou aos interrogadores que foi incumbido de encontrar-se com Nasrallah, algo que ele aparentemente não conseguiu fazer. Os seus monitores israelenses pretendiam rastrear os seus movimentos enquanto ele estivesse com o líder do Hizbollah.

Segundo o jornal, Homsi, que foi preso em 16 de maio, disse que passou a trabalhar para Israel porque precisava de dinheiro, e que recebeu US$ 100 mil dos israelenses.

Muitos amigos e parentes dos acusados de serem espiões dizem que são incapazes de acreditar nas acusações. "Ele é amigo meu há mais de 18 anos", disse Issam Rouhaymi, o prefeito de Saadnayel, referindo-se a Homsi. "Ninguém acreditaria em algo como isso"

Homsi participou ativamente do Movimento Futuro, o partido político pró-americano que se opõe ao Hizbollah. O irmão de Homsi diz que as acusações foram fabricadas para prejudicar as chances do partido nas eleições.

Investigadores dizem que Homsi, assim como vários outros acusados de espionagem, viajou para o exterior para encontrar-se com agentes israelenses que lhe forneceram instruções e equipamentos.

Alguns bolaram esquemas complexos para evitarem ser detectados. Ali al-Jarrah, que foi preso no ano passado e acusado de espionar para Israel durante 25 anos, tinha duas casas e duas mulheres que não sabiam da existência uma da outra. Adib al-Alam, um general da reserva preso em abril, criou uma empresa de faxina por sugestão dos seus encarregados de caso israelenses. Ele usava a firma para ocultar os seus telefonemas e viagens ao exterior para encontrar-se com agentes israelenses.

Para os investigadores libaneses, talvez o mais revoltante tenha sido o que ocorreu nesta semana: no último domingo e segunda-feira, duas pessoas acusadas de espionagem escaparam para Israel pela fronteira sul, uma delas levando a família consigo, segundo uma carta de reclamação que o governo libanês submeteu à ONU. De acordo com o documento, as forças armadas israelenses ajudaram os espiões a escapar.

Um outro homem fugiu de forma similar neste mês.

A fuga deve ter sido ousada e arriscada, exigindo a passagem pelo terreno ocupado pelo Hizbollah e por uma fronteira cercada e vigiada por soldados. Mas não é uma façanha impossível.

"Existem pontos de passagem", afirma Timur Goksel, ex-assessor das forças de paz da ONU no Líbano. "Mas eu não acredito que os israelenses ajudariam alguém a cruzar a fronteira. Teria que ser alguém que eles considerassem importante".

* Hwaida Saad contribuiu para esta matéria.

Tradução: UOL

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