UOL Notícias Internacional
 

24/05/2009

Análise: traficantes de ópio do Afeganistão deveriam ser julgados nos EUA

The New York Times
Gretchen Peters
Um homem magro abriu o portão da vasta propriedade em Quetta, no oeste do Paquistão. Quando perguntei se aquela era a casa do maior traficante do Afeganistão, ele sorriu e fez que sim com a cabeça. "Haji Juma Khan tem 200 casas", disse. "E esta é uma delas".

Eu vinha tentando localizar Khan há anos, quando descobri esta casa numa viela poeirenta e coberta de lixo. O lugar mal parece um endereço digno de um homem que, segundo as autoridades americanas, movimenta cerca de US$ 1 bilhão em ópio a cada ano, contratando o Taleban para proteger seus carregamentos colossais de drogas e subornando autoridades corruptas do Afeganistão, Paquistão e Irã para fazerem vista grossa.

Eu disse que era jornalista e queria entrevistar o chefe. "Ele está foragido e nós não o vimos", disse outro homem, que se apresentou como funcionário de Khan. "Mas, por favor, entre e tome um chá".

Mesmo com o chefe foragido, a rede de Khan comandava uma cadeia de laboratórios de heroína na região montanhosa onde as fronteiras do Afeganistão, Paquistão e Irã se encontram. Ele construiu armazéns subterrâneos gigantescos para seu produto em lugares remotos do deserto. Chamou a atenção das autoridades ocidentais por enviar comboios com dezenas de veículos cheios de drogas, que era então descarregada em navios no litoral sul do Paquistão.

Em outubro passado, cerca de três meses depois de eu ter tomado chá com seus colegas em Quetta, Khan foi capturado e extraditado para os Estados Unidos. Agora ele está preso no Centro Correcional Metropolitano da Cidade de Nova York, esperando julgamento pela acusação de conspiração para distribuição de drogas com a intenção de apoiar uma organização terrorista. Sua captura foi uma importante vitória, apesar de pouco noticiada, na guerra contra as drogas no Afeganistão, apesar de meus contatos em Quetta dizerem que os parentes de Khan continuam administrando a rede de tráfico.

Estudar as operações de Khan me permitiu entender os desafios de lutar contra o comércio de ópio do Afeganistão, que em uma só tacada beneficia o Taleban, a al-Qaida e as autoridades corruptas do Afeganistão, Paquistão e Irã. Isso também me deu algumas ideias sobre como reformular nossa estratégia antidrogas.

Até agora, os esforços ocidentais para combater o comércio de ópio no Afeganistão se concentraram principalmente nas plantações de papoula, uma política que fez pouca coisa para impedir a atuação dos chefes do tráfico e simplesmente vitimizou os fazendeiros de papoulas e arrendatários pobres que trabalham na terra. À medida que o governo Obama está reformulando a estratégia no Afeganistão, nomeando o tenente general Stanley McChrystal como comandante-chefe, as iniciativas antidrogas deveriam se concentrar nos traficantes e nos processadores da droga.

Primeiro, deve-se aumentar os esforços para derrubar traficantes poderosos como Khan e cortar os lucros do Taleban com o ópio, que a ONU calcula em cerca de US$ 400 milhões por ano. Os maiores lucros não vêm das fazendas, mas da proteção aos carregamentos que saem das fazendas e da cobrança de taxas às refinarias de drogas.

Um bom começo seria usar ataques aéreos para destruir comboios que carregam ópio nas rotas de tráfico em direção à fronteira com o Paquistão, usando a mesma tecnologia infravermelha empregada ao longo da fronteira mexicana para evitar atingir veículos civis. Trabalhando com a polícia local, as forças da Otan também deve estabelecer pontos de vistoria ao longo das principais vias e cruzamentos de fronteira, e inspecionar os veículos - mesmo aqueles que pertencem a autoridades do governo afegão e a seus parentes. Os guerrilheiros do Taleban podem até escapar pelas fronteiras nas montanhas em segredo, mas os grandes carregamentos normalmente seguem pelas estradas.

Em outubro, a Otan ordenou que seus comandantes destruíssem as refinarias de drogas, mas muitos relutaram em fazer isso. Eles não apenas deveriam assumir essa ofensiva, mas também deveriam se concentrar em prender os químicos e outros especialistas que operam os laboratórios, que são dificilmente substituídos. Algumas nações da Otan que participam da coalizão afegã proibiram que suas tropas participem de operações antidrogas norte-americanas. Esta é uma decisão míope, uma vez que a heroína afegã tende a acabar nas ruas europeias. Até que essas proibições sejam retiradas, as tropas desses países deveriam ser usadas para fornecer segurança, permitindo que os soldados americanos e afegãos combatam o tráfico de ópio.

Além disso, até que a polícia e o poder judiciário notoriamente enfraquecidos do Afeganistão passem por uma reforma, deveríamos trazer todos os principais traficantes para serem julgados nos Estados Unidos, assim como foi feito com Khan.

O problema do Afeganistão com as drogas se estende para além de suas fronteiras. Embora o Paquistão pareça finalmente ter assumido o combate aos guerrilheiros do Taleban nas áreas de fronteira no noroeste do país, isso não é suficiente. Ele também deve investir contra os lideres dos cartéis que operam na província do Baluquistão, no sudoeste. Esses homens fornecem dinheiro, veículos, equipamento de comunicação e armas para os insurgentes. Alguns até administram pensões e hospitais que tratam soldados feridos do Taleban. Um desses supostos chefes, Sakhi Dost Muhammad Notezai, é procurado pelas autoridades americanas desde o final dos anos 80. Mesmo assim, apesar das provas de que seu clã ainda está ligado ao tráfico de ópio, seu filho é o ministro dos transportes na província do Baluquistão.

Impedir a circulação das drogas é apenas metade da batalha: o dinheiro circula em rotas diferentes das do ópio, e impedir seu fluxo pode ser mais difícil. Para isso, Washington deveria subsidiar esforços para regular as transferências bancárias do Afeganistão e a rede informal hawala, a versão regional e desregulada do Western Union. A maioria das transferências pela hawala são legítimas - grupos de ajuda internacional ocidentais no Afeganistão, por exemplo, a usam para enviar fundos para seus escritórios nas regiões rurais. Mas o sistema também movimenta dinheiro das drogas. O Departamento de Tesouro elaborou uma proposta sólida, que não acrescentaria custos ao uso do sistema halawa, mas permitiria que as autoridades verificassem as quantias enviadas, assim como seus remetentes e destinatários.

Por fim, nenhum programa antidrogas fará diferença se a guerra no Afeganistão e Paquistão for incapaz de melhorar os governos locais. O Taleban está ganhando espaço não porque seja benquisto (ele não é, em nenhum dos dois países), mas porque os governos de ambos são vistos como incompetentes e corruptos. Muitos especialistas acreditam que as autoridades corruptas de ambos os lados da fronteira ganham até mais dinheiro com o tráfico de drogas do que o próprio Taleban.

À medida que o Taleban e a Al Qaeda estreitam suas relações com traficantes como Haji Juma Khan, aumentam seu poder econômico e militar. E então um problema de drogas que começa como uma dor-de-cabeça regional se transforma num pesadelo de segurança: um monstro de duas cabeças, formado por traficantes criminosos e grupos terroristas ricos com ambições globais letais.

* Gretchen Peters é autora de "Seeds of Terror: How Heroin is Bankrolling the Taliban and al-Qaida" [algo como "Sementes do Terror: Como a Heroína financia o Taleban e a Al Qaeda".]

Tradução: Eloise De Vylder

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