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25/05/2009

Luta contra as drogas vira tema central de novo trabalho de Eminem

The New York Times
Jon Pareles
No final de dezembro de 2007, deprimido, sem inspiração, dependente de remédios e viciado em opiáceos, Marshall Mathers, mais conhecido como o rapper campeão de vendas Eminem, teve uma overdose com alguns comprimidos azuis que alguém lhe dera - de metadona - e caiu inconsciente no chão de seu banheiro. As declarações públicas encobriram os motivos de sua hospitalização de emergência e a desintoxicação, alegando que o problema era uma pneumonia. Um mês depois, Mathers havia retomado o vício.

Mas a overdose o assustou. No começo do ano passado ele se internou por conta própria, passou por uma reabilitação e começou um programa de doze passos para recuperação de dependentes, completo, com reuniões, um padrinho e um terapeuta. Mathers, 36, disse que está sóbrio desde 20 de abril de 2008.

Longe de esconder sua batalha contra o vício, ele a transformou no tema central de sua volta. A capa do CD "Relapse" (Shady/Aftermath/Interscope), primeiro álbum de Eminem desde 2004, traz uma imagem de seu rosto construída com comprimidos, e em algumas músicas ele canta, tão diretamente quanto as rimas permitem, sobre as drogas que quase o destruíram. No resto do álbum, Eminen retoma - num relapso - seu principal alter ego, Slim Shady: o sarcástico, palhaço, paranoico e homofóbico serial killer estuprador compulsivo e perseguidor de celebridades, que usa suas peripécias para conseguir risos nauseados e popularidade.

Os quatro CDs anteriores de Eminem lançados por selos importantes e com material novo - "The Slim Shady LP" de 1999, "The Marshall Mathers LP" de 2000, "The Eminem Show" de 2002 e "Encore" de 2004 - venderam cerca de 30 milhões de cópias nos Estados Unidos, de acordo com a pesquisa Nielsen SoundScan. "Relapse" se atém à fórmula de seus antecessores: é parte verdade e parte ficção, com revelações pessoais e farsa sociopata lado a lado.

"É hard core, é humor negro, é o que Eminem sempre foi", disse Dr. Dre, seu produtor de longa data, por telefone, de seu estúdio em San Fernando Valley no sul da Califórnia. Eminem estava fazendo falta; o primeiro single do álbum, "Crack a Bottle" - com participação do rapper 50 Cent e Dr. Dre - ficou em primeiro lugar na Billboard Hot 100 quando foi lançado em fevereiro, vendendo mais de 418 mil downloads na primeira semana.

"Relapse" é o episódio mais recente de uma carreira novelística que sempre misturou confissão, melodrama, comédia, horror, sedução da mídia, habilidade e exagero típico dos tabloides em todas as frentes.

"Eu não sei se estou me expondo", disse Mathers por telefone, de seu estúdio em Detroit. "Acho que estou só me limpando das drogas e respirando".

Ele fala com gentileza e coerência, sem defensivas, conversando sobre seus antigos excessos e sua nova clareza e produtividade com o zelo de um viciado em recuperação, parecendo alguém que se livrou de um fardo. "Eu era o pior tipo de viciado, um viciado funcional", disse. "Eu estava tão enterrado no vício que cheguei a pensar que não conseguiria fazer nada sem usar algum tipo de droga."

Ele tem assistido a vídeos de si mesmo no palco e dando entrevistas durante seus dias de viciado, incluindo uma para a Black Entertainment Television que ele diz que não se lembra de ter dado, quando Ambien fez com que ele ficasse tão confuso que ele não conseguia nem responder a perguntas simples. "Quero ver como eu era quando estava usando drogas, para que eu não volte mais a usar", disse.

Nos cinco anos de intervalo entre seus discos, ele trabalhou como produtor, compondo batidas para outros rappers, e fazendo aparições ocasionais como rapper convidado; hoje ele acha "horrível" o verso que fez para "Touch Down" do rapper T.I. de Atlanta.

No ano passado, apenas dois meses depois de sair da reabilitação, Eminem encontrou Dr. Dre em Orlando, Flórida, para tentar gravar. Eminem estava fazendo o que ele chama de "exercícios mentais" para voltar a escrever. "Eu enfileiro um monte de palavras e vou olhando para elas e tentando completar os espaços em branco até que faça sentido", disse. "Durante três ou quatro anos eu não conseguia mais fazer isso".

Quando ele ficou sóbrio, "as rodas voltaram a girar de novo", disse. Trabalhando em Orlando e em Detroit, Eminem e Dr. Dre gravaram centenas de faixas e fizeram músicas suficientes para três discos. Eles as reuniram em dois CDs; Eminem planeja lançar "Relapse 2" antes do final deste ano. "Quanto mais eu afundava no vício, mais a tampa se fechava sobre a minha criatividade", disse ele. "Quando fiquei sóbrio, a tampa abriu. Em sete meses eu fiz mais do que eu conseguiria fazer em três ou quatro anos de drogas".

Desde o começo, Mathers não estabeleceu uma fronteira clara entre Eminem e Slim Shady. Na faixa "97 Bonnie & Clide" do disco "Slim Shady LP" de 1999, o rapper leva consigo sua filha ainda bebê - chamada Hailie, assim como a filha de Mathers na vida real (que mora com ele em Detroit) - enquanto enterra o corpo da mãe dela, assassinada. O novo álbum rastreia as tendências de Eminem para o vício até um de seus alvos mais antigos e freqüentes: sua mãe. A faixa "My Mom" diz que ela costumava misturar Valium em sua comida para torná-lo mais controlável.

Mas a música dessas canções é leve, e chega a ser animada. Dr. Dre costuma compor faixas limpas e vivas que estão bem longe do trágico. Normalmente elas têm uma batida viva e refrões repetitivos de música infantil. Essa agressividade com um sorriso no rosto foi suficiente para tornar Eminem um alvo da crítica, que por outro deu a Eminem uma nova lista de antagonistas para provocar. "Isso acabou me irritando", diz ele. "Vocês só vão me tornar pior assim".

Agora, com uma década de carreira em sua gravadora principal, ele diz:"cansei de explicar isso". "Essa é a minha música. É assim que ela é. Entenda o que quiser. Eu não entrei nessa história para ser um modelo de comportamento."

Eminem sempre foi uma anomalia no hip-hop, não só porque é branco, mas também porque se apresenta com múltiplas personas - raramente tentando agradar, e normalmente com um ar beligerante ou psicótico - em vez de uma única face heroica. Mesmo assim, ele foi aceito no mundo do hip-hop de Detroit, onde fez sua reputação em disputas de rap que foram mostradas no filme quase autobiográfico "8 Mile", de 2002. (O rapper Proff - seu mentor, melhor amigo e seu "passe para o gueto", como Eminem o chamou em seu livro de memórias "The Way I Am" de 2008 - foi assassinado em 2006, e o luto foi um dos fatores que levaram Eminem ao vício.) Ele também foi encorajado pelo importante produtor de hip-hop dos anos 90, Dr. Dre, que também ajudou a estabelecer Snoop Dogg.

Desde o começo, Eminem esteve perfeitamente sintonizado com a MTV: fazendo vídeos cheios de paródias da cultura pop e ganchos pop contagiantes, bem como virando notícia com seus problemas legais e conjugais. (Mathers se divorciou, casou-se novamente e se divorciou uma segunda vez de Kim Scott. A mãe dele, Debbie Mathers-Briggs, o processou por difamação em 1999, exigindo US$ 10 milhões, mas depois disse que tudo havia sido ideia do advogado e fez um acordo no tribunal por US$ 25 mil, principalmente para pagar os honorários legais.)

Como Slim Shady, com uma camiseta branca apertada e o cabelo descolorido, Eminem logo se tornou um agressor ofensivo para aqueles que levavam as fantasias de Shady à sério, ou que temiam que outras pessoas as levassem; isso com certeza o transformou num anti-herói para seus fãs. Ao mesmo tempo, era um símbolo pop que fazia as garotas suspirarem. Mas Eminem continuou em sua terra natal, Detroit, e nunca entrou para a cultura das celebridades. Apesar de ele ter um exército de seguidores no hip-hop local, D12, a quem permaneceu leal (e produziu) mesmo quando ficou famoso, ele raramente faz rap sobre amigos ou a comunidade; Eminem e Slim Shady são figuras solitárias, isolados de praticamente todo mundo. "Relapse" parece o trabalho de alguém que ficou muito tempo sozinho, vendo apenas sua família, suas pílulas e televisão; não é tão engraçado quanto os álbuns anteriores.

Tanto Eminem quando Dr. Dre pensaram bastante sobre como Eminem deveria reaparecer para o público. E ambos concluíram que o mundo queria mais Slim Shady. "Falei com meu filho sobre isso", disse Dr. Dre, "e ele disse: 'as crianças querem ouvir ele agindo como tolo. Queremos ouvir ele como louco, queremos ouvir ele encarnando Slim Shady e nada mais'".

"Relapse" se propõe a reconquistar a audiência de seus CDs de estúdio anteriores ao apresentar o Eminem de sempre, ou seja, uma confusão de múltiplas personalidades. "O álbum anda sobre uma linha fina", disse Mathers. "Meus fãs, e as pessoas que ouvem hip-hop normalmente e adoram esse tipo de arte, sabem quando é Eminem, quando é Marshall e quando é Shady."

No disco, Eminem é embaraçosamente autobiográfico quando faz rimas sobre si mesmo - às vezes é dolorosamente franco, outras usa um humor autodepreciativo. "A honestidade não é a única responsável por grande parte da recuperação", disse Mathers. "Sou muito abençoado por ter um meio de expressão".

A música "Deja Vu" fala sobre aquela noite de dezembro de 2007 e sobre o uso cada vez mais frequente de drogas que culminou na overdose, com Eminem oferecendo e demolindo suas velhas desculpas; ele rima "pneumonia" com "bologna". Em "Beautiful", uma música de ressentimento e auto-afirmação construída sobre uma balada poderosa, ele se pergunta em voz alta se voltará a fazer rap; ele começou a escrevê-la no primeiro dia de uma de suas tentativas de reabilitação, sozinho com uma caneta no quarto do hospital.

O CD revisita as obsessões usuais de Slim Shady tão exaustivamente que às vezes ameaça se tornar uma reprise. Não é a primeira vez que ele fez rap sobre seqüestrar mulheres, ou usa o efeito sonoro de fita adesiva sendo tirada do rolo. Novamente Eminem faz piada sobre Christopher Reeve, que morreu em 2004; e há linhas sobre alvos já desgastados como Britney Spears, Lindsay Lohan, Kim Kardashian e Sarah Palin. "Uma vez que ele cria um quadro, uma vez que ele faz uma letra, é impossível fazer com que ele mude", disse Dr. Dre. "Se há algumas coisas que ele fala num disco já não são mais relevantes hoje, ele diz: 'Não, isso foi aquele quadro. Isso foi para aquele momento'".

Depois de cinco anos de ausência, Eminem ainda ocupa um grande espaço no hip-hop; o rapper Asher Roth dedicou uma música, "As I Em", para reclamar do fato de ser comparado a Eminem porque é branco. Mas "We Made You", segundo single de "Relapse", teve um sucesso razoável nas 40 mais do rádio; algumas referências estão ultrapassadas. Dom Theodore, vice-presidente da programação do Top 40 da CBS Radio, tem expectativas ambíguas em relação a "Relapse" porque os sucessos de Eminem sempre foram suas músicas mais humorísticas. "Esse álbum tende a ser um pouco mais sombrio", disse. "Ainda é inovador, mas não de um jeito engraçado. Mas eu nunca o eliminaria. Seria embaraçoso ter que encontrar alguém com mais talento."

Apesar de seus nove Grammy Awards, muitas aparições na MTV e dezenas de milhares de discos vendidos, Eminem se posicionou fora do circuito das celebridades. "Se tudo isso pudesse ser só fazer música, eu só faria a música", disse ele. "Não que eu odeie os holofotes, só não gosto deles."

Nas músicas, Slim Shady ainda reage a celebridades não como um astro, mas como um consumidor que acumula paixões e fantasias pelas imagens via satélite. A única coisa é que ele é mais extremo.

Confissões e quebra de tabus não são as únicas preocupações de Eminem; ele também é um virtuose da fonética. Ele rima os sons das vogais internas com as sílabas que terminam as palavras, e deixa uma fileira de sons o levar onde quer que a livre-associação mande. "Pego nomes de celebridades do nada, ou os coloco num chapéu, misturo e sorteio um", diz ele. "Se o seu nome acabar rimando com alguma coisa boa, então você também pode acabar lá."

Os sons das palavras são a gênese de "Insane", uma música de "Relapse" que acusa um padrasto de estuprá-lo quando criança. "É basicamente tudo ficção", disse ele. "É um exemplo perfeito de uma rima que acabou mal."

Há tantas referências a medicamentos de prescrição em "Relapse" que Eminem poderia ter conseguido patrocínio de companhias farmacêuticas. Um dos motivos para isso, diz ele, é que os nomes das marcas são palavras memorizáveis. "Na minha experiência durante a reabilitação, no hospital e na overdose com metadona, aprendi muitos nomes de medicamentos", diz ele.

"No fim das contas, são só palavras", acrescentou. "Para mim isso é tudo."

Mas ele também admite que é inseparável das fantasias mais obscuras de Slim Shady. Se não, "obviamente, eu não seria capaz de pensar essas coisas". Em uma música, "Must be the Ganja" - que rima "dilema", "Dalai Lama" e "Jeffrey Dahmer" - ele se vangloria de ser capaz de dizer o nome de "todos os serial killers que já existiram" em ordem cronológica, junto com os detalhes de seus assassinatos. Mathers diz que ele era assim: assistia aos documentários e anotava informações, "datas, horários e lugares". Ele era fascinado por "serial killers, sua psique e seus estados mentais."

E continuou: 'Você ouve essas pessoas falarem, ou as vê, e elas parecem tão normais. Com o que se parece um serial killer? Ele não se parece com nada. Ele se parece com você. Você pode morar ao lado de um. Se eu fosse seu vizinho, você poderia ser um."

Esse foi quem, Slim, Eminem ou Marshall? "Esse foi Marshall", disse ele. "O-ou, quer dizer, foi Shady."

Tradução: Eloise De Vylder

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