UOL Notícias Internacional
 

26/05/2009

Abate de porcos gera acúmulo de lixo no Egito

The New York Times
Michael Slackman*
No Cairo (Egito)
Os catadores de lixo do Cairo moram em bairros que estão transbordando de lixo. As crianças brincam com o lixo e no lixo, quando não estão ajudando a selecionar ou coletar os detritos. As mulheres sentam-se no lixo. Elas pegam comida estragada com as mãos e a jogam para os porcos, que vivem no bairro em meio aos moradores.

Este é um mundo de odores chocantes e imagens repugnantes. Mas é o mundo deles, o mundo dos "zabaleen", centenas de milhares de pessoas que ganham a vida e formam uma comunidade coletando o lixo do Cairo e transformando-o em uma mercadoria.

Essa é a identidade dessas pessoas. E elas temem que o governo acabe com essa identidade.

IMAGENS DE ABATE DE PORCOS GERAM POLÊMICA NO EGITO



"Não é um emprego, são vidas", diz Isat Nain Gindy, neto de um dos primeiros zabaleen do Cairo, que atualmente dirige uma organização sem fins lucrativos para educar os filhos dos catadores de lixo.

O começo daquilo que eles temem que seja o fim teve início com a reação do governo à noticia de que uma onda de gripe suína espalhava-se pelo mundo. O Egito decidiu matar todos os seus porcos, cerca de 300 mil, embora não houvesse nenhum caso de gripe suína no país. As agências internacionais logo criticaram as autoridades egípcias, afirmando que os porcos não estavam propagando a doença.

Mas o Egito não interrompeu a enorme matança de porcos. O governo prometeu que seria um processo "humano", que os porcos seriam abatidos segundo a lei islâmica e que a carne seria congelada. Mas repórteres do jornal egípcio "Al Masri Al Youm" seguiram caminhões que levavam os porcos para um depósito de lixo. Enquanto eles filmavam, funcionários do governo usavam uma pá carregadeira para jogar pilhas de animais vivos em grandes caminhões de lixo. Eles documentaram leitões sendo esfaqueados e jogados em pilhas, porcos grandes golpeados com barras de metal e as suas carcaças sendo atiradas na areia.

A selvageria da matança gerou protestos no Egito e em todo o mundo.

Mas o abate não parou.

O governo disse que não está mais agindo apenas para prevenir a gripe suína, mas que a operação faz parte de um projeto para "limpar" os zabaleens, e finalmente fazer com que estes vivam em condições higiênicas. O Egito já tentou isso antes. Vários anos atrás, o governo procurou acabar com o negócio dos zabaleen contratando companhias privadas para coletar o lixo. Mas as companhias não deram conta da quantidade de lixo do Cairo, e pouca coisa mudou para os zabaleens.

"Queremos que eles tenham uma vida melhor, que sejam tratados humanamente; essa é uma vida muito difícil", afirma Sabir Abdel Aziz Galal, diretor do departamento de doenças infecciosas do Ministério da Agricultura do Egito.

A seguir o governo apresentou uma nova estratégia: acabar com os porcos.

Os zabaleens são cristãos. O Egito é um país de maioria muçulmana. Os zabaleens estão convencidos de que o governo quer usar o pânico com a gripe suína para exterminar os porcos do Egito e não para melhorar a vida deles. O islamismo proíbe o consumo de carne de porco.

"O fato é que os porcos não são vistos com bons olhos no Egito", afirma o reverendo Samaan Ibrahim, um padre de um dos maiores bairros zabaleen no Cairo.

Mas o que os zabaleens deverão fazer com todo o lixo orgânico em decomposição que era usado para alimentar os porcos? Eles têm cabras, mas o número destas está longe de ser suficiente.

"Eles querem que eu pague uma carroça para levar o lixo", diz Faris Samir, 22, cuja família, composta de 33 homens, mulheres e crianças, perdeu a sua fonte de renda quando a polícia chegou e obrigou-os a entregar os seus 125 porcos. "Esqueçam. Jogarei o lixo em qualquer lugar".

Conforme ocorre com frequência no Egito, essa crise começou com uma decisão inesperada, sem nenhuma consulta, e sem que se levasse em conta como tal decisão afetaria drasticamente os cerca de 400 mil integrantes das famílias zabaleens.

Os zabaleens e as pessoas que os apoiam argumentam que se fosse possível ensinar a população do Cairo a separar os resíduos orgânicos dos inorgânicos antes de colocar o lixo doméstico na rua, o problema poderia ser resolvido. Os porcos poderiam ser criados em fazendas fora da cidade, e o lixo orgânico seria levado para esses locais diariamente.

Mas tal opção não parece esta sendo cogitada.

"Eles não sabem o que isso significa para a vida dos catadores de lixo", afirma Syada Greiss, integrante do parlamento e diretora da Associação de Proteção Ambiental, uma organização não governamental. "O governo não entende plenamente as consequências econômicas e sociais dessa medida".

O Cairo é uma cidade grande de cerca de 18 milhões de habitantes. As associações que representam os zabaleens afirmam coletar 6.000 toneladas de lixo diariamente, das quais 60% consiste de restos de alimentos. Segundo as associações, as empresas privadas coletam 2.000 toneladas diárias adicionais.

O sistema remonta ao final da década de 40, quando camponeses do Alto Egito mudaram-se para o Cairo à procura de trabalho. Eles passaram a coletar lixo e tornaram-se zabaleens.

Trata-se de um negócio de família. Em cada família, o filho mais velho tem que frequentar a escola. Os outros garotos precisam trabalhar, coletando lixo, enquanto as mulheres e as meninas ficam encarregadas da seleção.

Basem Masri trabalha. Ele é um menino pequeno de 11 anos de idade, com cabelos negros penteados para trás e olhos muito sérios. O seu dia de trabalho começa às 19h, quando ele se junta ao pai na coleta do lixo. Ele trabalha até às 3h ou 4h, e depois vai dormir. Às 10h, a mãe dele o manda para uma escola especial para os filhos dos catadores de lixo. Na verdade é mais um programa de orientação educacional.

"Um dia quero ser médico", diz Basem, enquanto estuda matemática com um professor na escola.

Mas este parece um sonho difícil de ser realizado para Basem e para muitos garotos como ele. Muitos aqui reconhecem que este é um sistema fácil de ser criticado. As críticas estendem-se desde os porcos e as condições de vida anti-higiênicas até o quadro de crianças sujas carregando enormes sacos de lixo pela cidade, com as faces sujas e as roupas rasgadas.

Mas é assim que eles comem e sobrevivem. E é como permaneceram independentes de um governo no qual não confiam. Eles não teriam objeções ao aperfeiçoamento do sistema. O que não querem é que o sistema seja simplesmente extinto.

"Talvez o governo tenha em mente objetivos nobres", afirma Gindy, cujo grupo sem fins lucrativos administra a escola frequentada por Basem. "Mas a forma como ele aborda o problema não é boa. O governo sempre diz que a decisão é essa e que nós temos que obedecer".

Para Abraham Fahmi, o sacerdote cóptico local, tudo se resume a uma questão simples.

"Se o governo retirar o lixo daqui, ele acabará com um bairro inteiro", afirma Fahmi. "Esta é a vida deles".

* Samer al-Atrush contribuiu para esta matéria.

Tradução: UOL

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