UOL Notícias Internacional
 

26/05/2009

Antes desprezado, jogador coreano pode entrar para a história do futebol europeu

The New York Times
Jere Longman
Em Roma
Park Ji-sung, o incansável meio-campista sul-coreano do Manchester United, é apelidado de "Três Pulmões" por sua notável resistência. É uma referência ao seu correr incessante, mas também um testamento de perseverança em meio à fragilidade na juventude, insegurança cultural, ceticismo europeu, decepção pessoal e uma dieta composta mais de olho de salamandra do que algo do programa do chef Emeril.

Na noite desta quarta-feira, Park deverá se tornar o primeiro jogador asiático a participar da final da Liga dos Campeões europeia, quando o Manchester United enfrentar o Barcelona aqui. Há um ano, em um jogo de semifinal entre as duas equipes, Park viveu uma odisseia de Forrest Gump, transformando a partida em sua própria corrida pessoal de 10 mil metros. Posteriormente, entretanto, ele se viu excluído da equipe do United na vitória na final contra o Chelsea, chamando aquela esnobada em Moscou como sendo "a maior decepção da minha carreira".

Após a segunda partida da semifinal neste mês, quando Park marcou um gol e deu um passe contra o Arsenal, para ajudar a colocar o Manchester United de novo na final da Liga dos Campeões, o técnico Alex Ferguson disse: "Eu não acho que ele ficará decepcionado desta vez". Ele chamou Park, 28 anos, de "um dos jogadores mais subestimados do futebol", um grande elogio para um jogador que antes parecia apenas um dos mais desnutridos.

Sua história, amplamente contada, é de um colegial, determinado, mas franzino, cujo pai pegou um emprego em um açougue para obter cortes selecionados de carne e rãs para uma sopa pouco apetitosa, para tentar estimular seu crescimento por meio de uma receita popular.

"Às vezes eu vomitava por causa do sabor, mas eu persistia porque a vontade de querer ser um melhor jogador de futebol era maior do que ter uma refeição saborosa todo dia", disse Park, 1,75 metro, em um recente documentário sobre sua vida. "Eu estava disposto a fazer qualquer coisa para me tornar melhor."

Todos os exercícios por conta própria, todo o tempo extra aperfeiçoando seu passe, toda aquela correria, todo aquele extrato de rã no final o ajudaram superar a dúvida dos outros de que Park era pequeno demais para jogar futebol além do colégio. Após muitas rejeições, ele frequentou a faculdade, obteve um contrato profissional no Japão e teve sua festa de debutante internacional na Copa do Mundo de 2002, no Japão e na Coréia do Sul.

Até então a Coreia do Sul nunca tinha vencido uma partida de Copa, o maior evento esportivo do mundo. Mas inspirados pelo técnico holandês Guus Hiddink, os Diabos Vermelhos chegaram às semifinais e arrebataram o país, inchando seu peito coletivo. Milhões de torcedores tomaram as praças para assistir aos jogos em telões. As palavras de Hiddink eram transmitidas para os funcionários das empresas sul-coreanas. Sua recompensa pelo sucesso, segundo o noticiário, incluiu cidadania honorária, voos gratuitos em companhias aéreas e uma propriedade em uma ilha privada.

Park marcou em um amistoso pré-torneio contra a França, a campeã da Copa do Mundo de 1998, e então declarou: "Este jogo nos deu a confiança de que podemos enfrentar as potências do futebol mundial".

Encorajado, ele marcou o gol da vitória contra Portugal na fase de grupos, colocando a Coreia do Sul na fase de mata-mata. Ele e seus companheiros continuaram correndo e correndo, vencendo e vencendo, e o país começou a reavaliar a si mesmo, como se toda aquela correria pudesse -ao menos temporariamente- deixar as tensas histórias com o Japão, Estados Unidos e Coreia do Norte para trás.

Finalmente, a Coreia do Sul perdeu o fôlego contra a Alemanha nas semifinais, mas Park já tinha impressionado Hiddink o suficiente para levá-lo para a Holanda para uma passagem pelo PSV Eindhoven. Hiddink disse recentemente ao "The Observer" de Londres que Park "faz o trabalho sujo para os astros maiores", mas o ajuste cultural ao futebol europeu em 2002 foi enervante. Logo após chegar à Holanda, Park lesionou o joelho. Os torcedores o vaiavam. Alguns, como disse seu pai ao "The Observer", até mesmo atiravam bebidas nele.

No final, tanto o joelho de Park quanto a avaliação negativa dos torcedores foram superados. O PSV chegou à semifinal da Liga dos Campeões em 2005. Antes alvo das vaias, Park agora tinha uma canção dedicada a ele. Naquele ano, ele se transferiu para o Manchester United, onde Ferguson ficou impressionado pela forma física de coelho da pilha Energizer de Park. Mesmo que fosse para ficar no banco, o pai de Park o encorajou a ir para aquele que talvez seja o clube de maior prestígio do mundo.

"Pela primeira vez em um século, um coreano entrou na equipe", disse Park Seong-jong no documentário sobre seu filho, intitulado "Do You Know Park Ji-sung?" (você conhece Park Ji-sung?). "E as pessoas dizem que pode levar outra centena de anos para que entre outro. É assim tão difícil entrar naquela equipe. Eu lhe disse: 'Não perca a chance. Mesmo que você só jogue uma partida por ano, não perca a chance'."

Inicialmente, o ceticismo persistia como o cheiro da sopa de rã. Alguns se perguntavam se era alguma jogada de marketing do Manchester United para vender mais camisas na Ásia. E Park às vezes era criticado por correr sem objetividade. Até mesmo Ferguson reconheceu no documentário: "Às vezes dizemos para ele: 'Ji-sung, tira essa bateria! Você está correndo demais!'"

Segundo todos os relatos, Park é um membro popular, mas quieto da equipe do United. Seu status de ícone na Ásia lhe rende abundantes contratos publicitários, uma autobiografia e um fã clube com 87 mil membros pagantes. Na Coreia do Sul, ele é perseguido da mesma forma que os Beatles eram por Liverpool e Londres no filme "Os Reis do Iê-Iê-Iê".

"Ele também deixou um país extraordinariamente orgulhoso ao ajudar a afastar velhos preconceitos, até mesmo na Coréia, de que os jogadores asiáticos são pesos-leves demais para chegar ao topo do esporte", escreveu o "The Telegraph" de Londres na semana passada.

Ainda assim, Park prefere a solidão dos videogames e anseia em ser uma espécie de fantasma fora dos campos. Mesmo quando marca, seu cabelo se abre em uma espécie de pára-quedas, como se para conter qualquer excesso na comemoração. Ele não quer ser famoso ou popular, ele disse aos repórteres outro dia. Ele apenas quer ser um bom jogador. Um capaz de transformar a frustração em incentivo após ser sacado da final da Liga dos Campeões no ano passado.

"Eu continuo trabalhando duro e finalmente vou ter mais uma chance", ele disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host