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27/05/2009

Autópsias em mortos de guerra revelam formas de salvar outras pessoas

The New York Times
Denise Grady
Cerca de uma hora após os corpos chegarem nos seus caixões envoltos em bandeiras na Base Aérea de Dover, eles passam por um processo que jamais foi utilizado em mortos de outras guerras.

Desde 2004, todo homem e mulher das forças armadas que foi morto no Iraque ou no Afeganistão passa por uma tomografia computadorizada e, desde 2001, quando a guerra começou no Afeganistão, todos os corpos passam por autópsias, realizadas por patologistas do Sistema de Exame Médico das Forças Armadas. Em guerras anteriores, as autópsias de pessoas mortas em combate eram incomuns, e os corpos nunca eram submetidos a tomografias.

Essa combinação de procedimentos proporcionou uma grande quantidade de detalhes a respeito de ferimentos causados por balas, explosões e estilhaços, bem como de queimaduras - uma informação que revelou deficiências nas roupas de proteção e na blindagem de veículos, e gerou aperfeiçoamentos dos capacetes e equipamentos médicos usados no campo de batalha.

A princípio o mundo militar duvidou da utilidade de submeter os corpos a tomografias, mas agora ele busca com avidez os dados obtidos a partir dessa técnica, dizem os médicos responsáveis pelos exames, observando que em um único dia no mês de abril eles receberam seis pedidos de informações do Departamento de Defesa e de empresas por ele contratadas.

"Nós criamos um enorme banco de dados que jamais existiu antes", afirma o capitão Craig T. Mallak, 48, patologista da marinha, advogado e chefe do Sistema de Exames Médicos das Forças Armadas, uma divisão do Instituto de Patologia das Forças Armadas.

Os examinadores médicos realizaram tomografias em cerca de 3.000 corpos, mais do que qualquer outra instituição no mundo, criando um registro tridimensional ultra-detalhado e permanente dos ferimentos de combate.

Embora essas tomografias sejam às vezes chamadas de "autópsias virtuais", elas não substituem as autópsias tradicionais. Em vez disso, elas acrescentam informações, ajudam a guiar as autópsias e as aceleram ao mostrarem aos patologistas onde procurar balas ou estilhaços, e ao revelarem fraturas e tecidos danificados de forma tão nítida que às vezes é desnecessário realizar longas dissecações. Os examinadores procuram remover a maior quantidade possível de fragmentos metálicos, porque estes podem proporcionar informações sobre as armas do inimigo.

Uma descoberta provocou uma importante mudança no equipamento médico usado para estabilizar soldados feridos no campo de batalha.

O coronel Howard T. Harcke, um radiologista de 71 anos do corpo de fuzileiros navais que adiou a aposentadoria para analisar as tomografias realizadas em Dover, percebeu algo de peculiar no final de 2005. O tratamento de emergência para um pulmão colapsado (pneumotórax) envolve a inserção de uma agulha e de um tubo na cavidade torácica para aliviar a pressão e permitir que o pulmão volte a inflar. Mas, em um dos casos examinados, Harcke pôde observar a partir de uma tomografia que o tubo era demasiadamente curto para atingir a cavidade torácica. Depois ele viu mais oito casos semelhantes.

Em uma entrevista, Harcke afirmou ser impossível determinar se um indivíduo morreu porque os tubos eram muito curtos, já que todos os corpos apresentavam outros ferimentos graves. Mas um pulmão colapsado pode representar risco de morte, de forma que é essencial que haja tratamento apropriado.

Harcke pegou cem imagens tomográficas nos arquivos e as utilizou para calcular a espessura média da parede torácica dos soldados norte-americanos. Ele descobriu que o tubo padrão, com cinco centímetros de comprimento, era muito curto para 50% dos soldados. Se o comprimento fosse aumentado para oito centímetros, isso seria suficiente para 99% dos militares.

"Hoje em dia os soldados são maiores e mais fortes", afirma Harcke.

As conclusões foram apresentadas ao Surgeon General (o departamento de saúde do exército norte-americano), que, em agosto de 2006, ordenou que os kits fornecidos aos médicos de combate fossem modificados no sentido de incluírem apenas o tubo mais longo.

"Fiquei muito satisfeito", afirmou Harcke.

Os médicos examinadores descobriram também que os soldados estavam morrendo devido a ferimentos na parte superior do corpo que poderiam ser prevenidos por uma veste de proteção que cobrisse uma área maior do torso e dos ombros. A informação, que foi divulgada em 2006, fez com que as forças armadas se empenhassem em enviar mais vestes de proteção para o Iraque.

Foi Mallak que decidiu que todos os soldados mortos no Afeganistão ou no Iraque deveriam ser submetidos a autópsias. A lei federal confere a ele tal autoridade.

"As famílias desejam uma explicação completa", afirma ele. Mallak explica que durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã dizia-se às famílias simplesmente que os seus entes queridos haviam morrido a serviço do país.

"Pessoalmente, sinto que as famílias não aceitariam mais isso", afirma Mallak.

O departamento de exames não divulgou publicamente a política de autópsias e não discute isso com frequência.

As famílias são informadas que as autópsias estão sendo realizadas e que elas podem solicitar uma cópia do relatório. De vez em quando as famílias se opõem, mas a autópsia é realizada assim mesmo. Cerca de 85% ou 90% das famílias solicitam os relatórios, e 10% pedem também fotografias da autópsia, afirma Paul Stone, porta-voz do sistema de exames médicos. Os parentes são informados também que podem telefonar ou enviar e-mails com perguntas aos médicos examinadores.

"Todos os dias as famílias voltam para obter mais informações", diz Mallak. "O que eles mais perguntam é se o soldado morto sofreu. Quando podemos dizer que a morte foi instantânea, que ele ou ela jamais soube o que aconteceu, os parentes ficam altamente aliviados. Mas nós não mentimos".

Os relatórios são enviados com cartas pedindo aos familiares que não os leiam sozinhos.

A possibilidade de que um parente tenha sido queimado até a morte é uma fonte especial de angústia para as famílias, e esta é uma área na qual a tomografia pode ser mais eficiente do que a autópsia. Em um corpo danificado pelas chamas, a tomografia pode ajudar os patologistas a descobrir se as chamas ocorreram antes ou depois da morte. As tomografias podem também revelar se uma pessoa encontrada na água morreu afogada. As famílias que pedem os relatórios de autópsia muitas vezes decidem não lê-los, afirma Ami Neiberger-Miller, porta-voz do Programa de Assistência de Tragédias para Sobreviventes, um grupo sem fins lucrativos para indivíduos que perderam parentes na guerra.

"Acho que as pessoas sentem que devem pedir o relatório. Elas podem não desejar ler hoje, mas talvez daqui a dez anos", diz Neiberger-Miller. O irmão dela foi morto em Bagdá em 2007,e a família jamais abriu o relatório da autópsia.

Liz Sweet, cujo filho de 23 anos, T.J., suicidou-se no Iraque em 2003, pediu o relatório de autópsia e leu o documento.

"A nossa família precisava disso", afirma ela. "Eu me senti melhor sabendo que tinha o relatório". O caixão de T.J. Sweet estava lacrado, de forma que ela pediu a Mallak uma foto tirada antes da autópsia, para provar para si própria que foi realmente o filho dela que morreu.

"Ele foi uma das pessoas mais compassivas durante todo o processo com o qual precisei lidar no Departamento de Defesa", diz Sweet, referindo-se a Mallak. As tomografias e autópsias são feitas em uma instalação de 6.500 metros quadrados na Base de Dover que funciona ao mesmo tempo como laboratório de patologia e necrotério.

Os jornalistas não têm acesso ao local. As tomografias tiveram início em 2004, quando foram sugeridas e passaram a ser custeadas pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa, ou Darpa, na sigla em inglês, que faz parte do Departamento de Defesa. A Darpa obteve a ideia de usar tomografias para a realização de autópsias virtuais da Suíça, onde a prática teve início dez anos atrás.

Agora a ideia das autópsias virtuais passou a ser aceita pelos médicos examinadores dos EUA, que desejam usar a técnica em casos de assassinato, mas também para descobrir a causa da morte de membros de grupos religiosos que proíbem a realização de autópsias tradicionais. As tomografias podem ainda ajudar os patologistas a planejar autópsias limitadas caso a família considere uma autópsia completa muito invasiva.

John Getz, gerente de programa dos médicos examinadores das Forças Armadas, afirma que máquinas móveis de tomografia computadorizada poderiam ser utilizadas para analisar casos de mortes maciças como aquele ocorrido durante a passagem do furacão Katrina, a fim de auxiliar na identificação dos corpos, e também para determinar se os mortos foram vítimas de crimes ou de acidentes.

O equipamento de tomografia computadorizada das forças armadas, especialmente projetado para escanear vários corpos inteiros em série, é cobiçado por médicos examinadores e laboratórios de criminalística de todo o país, e vários Estados consultaram Mallak e seus colegas pedindo conselhos para o ajuste dessas máquinas.

Harcke afirma esperar que a tecnologia ajude a aumentar o índice da autópsias nos hospitais civis, que atualmente só realizam tal procedimento em 5% ou 10% das ocasiões.

"Esperamos retornar a um nível que tínhamos 50 anos atrás, quando as autópsias eram uma parte importante do modelo médico, e nós continuávamos a aprender após a morte do indivíduo", afirma Harcke.

Tradução: UOL

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