UOL Notícias Internacional
 

27/05/2009

Família de dissidentes faz fuga dramática da China

The New York Times
David W. Chen
Em Nova York
Gao Zhisheng, um dos mais irrepreensíveis dissidentes da China, começou o dia de 9 de janeiro igual à maioria dos dias, desde que oficiais de segurança começaram a vigiá-lo 24 horas por dia. Ele e sua mulher, Geng He, tomaram café com leite de soja, ovos fritos e amendoim. Gao deixou o apartamento para resolver alguns compromissos.

Quando ele voltou, sua esposa e seus dois filhos não estavam mais ali. Apenas com a roupa do corpo, quase 60 dólares em dinheiro e, por hábito, levando as chaves, os três embarcaram numa angustiante odisseia orquestrada por ativistas a favor dos direitos humanos, iniciada na região gelada ao norte de Pequim e finalizada sete dias e 3.200 quilômetros depois, na umidade segura da Tailândia.

"Não tive tempo para pensar", disse Geng, cujos filhos têm 16 e cinco anos. "Não tinha relógio. Não tinha noção do tempo. Tudo que eu sabia era que tínhamos de ir adiante. Não podíamos voltar atrás". Ela falou durante uma entrevista, no mês passado, em Nova York, onde ela e seus filhos se estabeleceram, após chegarem aos Estados Unidos, em março.

A história de Geng chama atenção, não só porque envolve uma fuga cinematográfica, recheada de elementos como motos enguiçadas e uma viagem ininterrupta, com pouca comida e sono. É impressionante, dizem os ativistas pelos direitos humanos, pois revela como a China usa membros da família dos dissidentes como catapulta contra eles. Isso mostra as medidas extremas que um número pequeno de oponentes políticos pode sofrer por negar às autoridades. No entanto, Geng insiste que seu marido não sabia de nada sobre seus planos.

Gao disse, em entrevistas anteriores, que oficiais de segurança ameaçaram seus filhos para extrair dele uma humilhante confissão pública, em 2006. Então, a partida de sua família lhe deu mais margem de manobra para desafiar a liderança, apesar do alto preço: ele não foi visto nem se teve notícias dele desde o dia 4 de fevereiro, quando as forças de segurança o levaram.

A fuga de sua família acabou com a forma como os oficiais de segurança administravam o provocador Gao, advogado de direitos humanos que abraçou causas como o grupo espiritual clandestino Falun Gong, residentes urbanos deslocados, e a igreja cristã underground. Ele publicou manifestos enfurecidos exigindo o fim do comando do partido comunista.

Desde sua libertação da prisão, em 2006, Gao foi autorizado a viver uma vida superficialmente normal em Pequim. Porém, ele era seguido por guardas à paisana e dizia se sentir coagido pela ameaça de retaliação contra sua família, caso ele violasse as condições de sua liberdade condicional.

Apesar de não ter sido acusado de um novo crime, ele desapareceu completamente há três meses.

O desaparecimento de Gao se tornou um assunto diplomático delicado diante do 20º aniversário do movimento democrático da Praça da Paz Celestial, em 4 de junho. Laura Tischler, porta-voz do Departamento de Estado, disse que diplomatas americanos ainda não se encontraram com Geng. No entanto, ela afirmou que um experiente oficial americano discutiu o caso no dia 31 de março com altos oficiais chineses em Pequim, e que membros do Departamento de Estado levantaram o caso, mais recentemente no dia 15 de abril, junto à embaixada chinesa em Washington.

"Os Estados Unidos estão profundamente preocupados com a segurança e o bem-estar do conhecido advogado de direitos humanos, Gao Zhisheng", disse Tischler. "Levamos nossa preocupação sobre o paradeiro e o bem-estar do Sr. Gao várias vezes, tanto em Washington quanto em Pequim."

Oficiais chineses, no entanto, afirmam que nada desagradável aconteceu com Gao.

Qin Gang, porta-voz do Ministro das Relações Exteriores, afirmou em Pequim, em março: "Lidamos com o caso em absoluta obediência à lei". Em resposta às perguntas sobre o paradeiro de Gao, as autoridades chinesas não apresentaram maiores informações, nem admitiram sua prisão.

Gao, 45 anos, era um litigante populista que combatia a corrupção e apropriação de terras. Ele foi reconhecido pelo Ministério da Justiça, em 2001, como um dos dez melhores advogados da China. Porém, ele se tornou mais ativo lidando com casos que envolviam abuso policial e liberdade religiosa para igrejas cristãs e o Falun Gong. Em 2006, ele reuniu organizadores do povo por toda a China para iniciar uma greve de fome, a fim de protestar contra a forma como as forças de segurança tratavam outros ativistas. Depois, ele foi preso e culpado de sublevação. Em dezembro de 2006, Gao obteve liberdade condicional, pois, segundo autoridades, ele confessou seus crimes e forneceu informações sobre outros dissidentes.

No ano seguinte, Gao afirmou que sua confissão havia sido forçada. Interrogadores ameaçaram punir seus filhos e negar-lhes o acesso à educação, caso ele não cooperasse, contou o advogado em abril de 2007. "No fim, decidi que não podia negociar o futuro dos meus filhos", disse. Ele foi torturado, disseram sua esposa Geng e autoridades protetoras dos direitos humanos, com estímulos elétricos, varas de bambus lancetando seus genitais, e queimaduras de cigarro nas pálpebras.

Gao continua sofrendo com dores que Geng atribui a seu "zhemo", ou tormento, uma palavra usada por ela várias vezes durante a entrevista, conduzida em mandarim no escritório dos Direitos Humanos na China, um grupo de proteção. "Meu marido pode ter seus 40 e poucos anos, mas ele tem o corpo de um senhor na casa dos 60", disse ela.

Para Geng, o momento decisivo veio no último mês de setembro, quando sua filha, Geng Gege, hoje com 16 anos, parou de ir à escola. A adolescente se sentia excluída pelos colegas. Eles achavam que o status do pai era o motivo pelo qual os celulares de todos haviam sido confiscados e a razão pela qual a polícia a seguia no caminho de ida e volta do colégio.

"Seus colegas de classe a intimidavam, dizendo: 'Seu pai está envolvido no crime organizado'", relembra Geng, sua voz trêmula. "Ela não suportava mais e tentou se matar".

Por sua filha e seu filho de cinco anos, Gao Tianyu, Geng decidiu fugir. No dia 9 de janeiro, quando recebeu o sinal dos ativistas de que era chegada a hora, ela rabiscou rapidamente um curto bilhete para o marido e o deixou na mesa de jantar. Dizia: "Estou levando Gege para a escola", ela disse.

"Não contei ao meu marido, pois achei que ele não suportaria", disse Geng.

A jornada foi carregada de perigos e momentos paranóicos. A família estava sempre em movimento, geralmente à noite, em trens noturnos, ônibus de turismo noturnos e motos, ou mesmo a pé. Somente uma vez eles pararam para dormir na casa de alguém.

O momento mais difícil, contou Geng, foi quando, por razões de segurança, os guias separaram a mulher de seu filho, por várias horas. As motos não conseguiam subir uma encosta escorregadia, relatou Geng, e ela começou a brigar com a filha.

"Ela disse: 'Eu vou presa, não me importo! Não consigo mais fazer isso'", relembrou Geng. E continuou: "Eu lhe implorei para não desistir, porque eu tinha de reencontrar Tianyu. Tinha medo de ficar separada do meu filho para sempre".

Finalmente, os três chegaram à Tailândia, onde receberam a classificação de refugiados, facilitada pelos grupos de direitos internacionais, incluindo o China Aid, uma organização cristã baseada em Midland, Texas, que busca promover o cristianismo e proteger líderes da igreja na China.

Geng conta que ainda está se adaptando a sua nova vida, estabelecendo-se num apartamento na cidade de Nova York, com a ajuda do governo americano. Seus filhos frequentam aulas de inglês, mas se preocupam em quando verão o pai novamente.

Uma noite, no mês passado, Geng acordou às 3h da manhã; a luz ainda estava acesa. Sua filha olhava um computador, doado por um amigo. A imagem da proteção de tela era Gao.

"Ela disse: 'Eu só queria dizer umas coisas para o meu pai'", relembrou Geng, chorando incontroladamente. "'Volte a dormir, mamãe'".

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