UOL Notícias Internacional
 

28/05/2009

China quer reconstruir antiga cidade da Rota da Seda

The New York Times
Michael Wines
Em Kashgar (China)
Há mil anos, os lados norte e sul da Rota da Seda convergiam para esta cidade oásis na borda ocidental do deserto de Taklamakan. Mercadores de Déli e Samarkand, esgotados das jornadas frígidas pelas cadeias de montanhas mais intimidantes do mundo, descarregavam seus cavalos de carga aqui e vendiam açafrão e alaúdes pelas ruas lotadas da cidade. Mercadores chineses, com seus camelos carregados de seda e porcelana, faziam o mesmo.

Aos mercadores agora se juntam turistas que exploram os becos com carroças puxadas por burros e prédios de pau-a-pique que serviam como lojas e já foram saqueados por Tamerlão e Genghis Khan.

  • Shiho Fukada/The New York Times

    Muitas das 13 mil famílias muçulmanas de Kashgar serão mudadas, segundo os planos do governo

Agora, Kashgar está prestes a ser saqueada de novo.

Novecentas famílias já foram mudadas da Cidade Velha de Kashgar, "o exemplo mais bem preservado de uma cidade islâmica tradicional encontrado em qualquer lugar na Ásia Central", como escreve o arquiteto e historiador George Michell no livro de 2008, "Kashgar: Oasis City on China's Old Silk Road".

Nos próximos anos, dizem as autoridades municipais, elas demolirão pelo menos 85% desse bairro de casas e lojas pitorescas, mesmo que mal conservadas. Muitas de suas 13 mil famílias, muçulmanos do grupo étnico túrcico chamado uigur, serão mudadas.

Em seu lugar será erguida uma nova Cidade Velha, uma mistura de prédios de apartamento, praças, becos alargados em avenidas e reproduções da antiga arquitetura islâmica "para preservar a cultura uigur", disse o vice-prefeito de Kashgar, Xu Jianrong, em uma entrevista por telefone.

A demolição é considerada uma necessidade urgente, porque um terremoto poderá ocorrer em breve, derrubando prédios com séculos de idade e matando milhares de pessoas. "Toda a área de Kashgar fica em uma área sob risco especial de terremotos", disse Xu. "Eu pergunto: que governo não protegeria seus cidadãos dos riscos de um desastre natural?"

Os críticos se queixam de um desastre diferente.

"Do ponto de vista cultural e histórico, este plano deles é estúpido", disse Wu Lili, a diretora do Centro de Proteção Cultural de Pequim, um grupo não-governamental dedicado à preservação histórica. "Do ponto de vista dos moradores locais, é cruel."

A reconstrução urbana durante o longo boom da China demoliu muitos centros de cidade, incluindo muitos dos antigos becos e casas com pátios da capital, Pequim.

Kashgar, entretanto, não é uma típica cidade chinesa. As autoridades de segurança chinesas a consideram um berço do pequeno mas resistente movimento separatista uigur, que Pequim alega ter laços com os jihadistas internacionais. Logo, o redesenvolvimento deste antigo centro da cultura islâmica vem manchado de conformidade forçada.

As autoridades chinesas ofereceram explicações um tanto surpreendentes para seus planos. Xu chama Kashgar de "um grande exemplo da rica histórica cultural e ao mesmo tempo uma grande cidade turística na China". Mas o plano de demolição reduziria a escombros a principal atração turística de Kashgar, um ímã para muitas das mais de um milhão de pessoas que a visitam a cada ano.

A China apoia um plano internacional para transformar importantes marcos da Rota da Seda em Patrimônios da Humanidade da Unesco -um poderoso atrativo para turistas e um poderoso incentivo para os governos preservarem as áreas históricas.

Mas Kashgar está ausente da lista da China de locais propostos. Uma autoridade estrangeira, que se recusou a ser identificada por temer prejudicar as relações com Pequim, disse que o projeto da Cidade Velha contou com um apoio incomumente forte do governo.

O projeto, que custaria US$ 440 milhões, teve início abruptamente neste ano, logo após o governo central da China ter dito que gastaria US$ 584 bilhões em obras públicas para combater a crise financeira global.

Ele concluiria a eliminação gradual da velha Kashgar que teve início décadas atrás. O muro da cidade, com 7,5 metros de espessura e quase 10 metros de altura, foi em grande parte demolido. Nos anos 80, a cidade pavimentou o fosso ao redor para criar um rodoanel. Então abriu uma rua principal atravessando o centro da cidade velha.

Ainda assim, grande parte da Cidade Velha continua sendo como era e sempre foi. Do topo de 40 pequenas mesquitas, muezins ainda fazem o chamado à oração pelas ruas estreitas: não há altofalantes aqui. Centenas de artesãos ainda martelam potes de cobre, entalham madeira, afiam cimitarras e mascateiam de tudo, de pão recém assado até rãs secas e chapéus de oração islâmicos.

E dezenas de milhares de uigures ainda vivem aqui, atrás de portas de álamo entalhadas à mão, muitos em casas alugadas caindo aos pedaços, outros em sobrados que se abrem sobre as ruas e dão para pátios repletos de rosas e bandeiras de tecido.

A prefeitura diz que os moradores uigures foram consultados em todos os passos do planejamento. A maioria dos moradores diz que foi convocada a reuniões nas quais os prazos de despejo e valores de indenização foram anunciados.

Apesar de a cidade oferecer aos moradores deslocados novos lares nos terrenos dos velhos, alguns se queixam de que a indenização proposta não paga o custo da reconstrução.

"Minha família construiu esta casa há 500 anos", disse Hajji, um forte senhor de 56 anos de cabelo curto grisalho, enquanto sua esposa servia chá dentro de seu sobrado na Cidade Velha. "Ela foi feita de barro. Ela foi reformada ao longo dos anos, mas não houve mudança nos cômodos."

Ao estilo uigur, o lar tem poucos móveis. Tapeçarias estão penduradas nas paredes, tapetes cobrem os pisos e as áreas elevadas usadas para dormir e entretenimento. O quarto de inverno tem um aquecedor a carvão; a garagem foi convertida em loja, onde a família vende doces e bugigangas. Com nove cômodos em baixo e sete em cima, a casa cresceu ao longo dos séculos em uma mansão segundo os padrões uigures.

Mas Hajji e sua esposa perderam as economias de suas vidas cuidando de um filho doente, e o pagamento da cidade para demolir sua casa não cobrirá a reconstrução. A opção deles é se mudarem para um apartamento distante, que os forçará a fechar sua loja, a única fonte de renda deles.

"A casa nos pertence", disse a esposa de Hajji, que não quis dizer seu nome. "Neste tipo de casa, muitas, muitas gerações podem viver, uma a uma. Mas se nos mudarmos para um apartamento, a cada 50 ou 70 anos, o apartamento será demolido de novo."

"Este é o maior problema em nossa vida. Como nossos filhos poderão herdar um apartamento?"

Inspetores consideraram a maioria das casas mais antigas inseguras, incluindo as estruturas de pau-a-pique, uma das formas mais antigas de construção. Elas serão demolidas e, em muitos casos, reconstruídas em um estilo uigur resistente a terremotos, promete a prefeitura.

Mas três dos sete setores da Cidade Velha são considerados impróprios para a arquitetura uigur e serão reconstruídos com prédios genéricos de apartamentos. Dois mil outros lares serão demolidos para construção de praças públicas e escolas. Os moradores pobres, que vivem nas casas menores, já estão sendo mudados permanentemente para moradias públicas quadradas de concreto na periferia de Kashgar.

Não se sabe o que restará da velha Kashgar. Xu disse que "prédios e áreas importantes da Cidade Velha já estão incluídos na lista especial de preservação do país" e não podem ser perturbados.

Nenhum arqueólogo monitora as demolições, ele disse, porque o governo já conhece tudo a respeito da velha Kashgar.

As autoridades de Kashgar têm bons motivos para temerem terremotos. Em outubro passado, um tremor de 6,8 de magnitude ocorreu a 160 quilômetros de distância. Em 1902, um terremoto de magnitude 8,0, um dos maiores do século 20, matou 667 moradores.

Alguns moradores disseram que também preferem um ambiente mais moderno. O desenho milenar que dá à Cidade Velha seu charme frequentemente impede coisas básicas como coleta de lixo, esgotos e hidrantes.

Na visão de Xu, a demolição dará aos uigures uma qualidade de vida melhor e os poupará de um desastre em um só golpe.

Dito isso, há uma certa aura de despejo forçado na demolição, uma urgência que o temor de terremotos não explica completamente. A cidade está oferecendo bônus em dinheiro para os moradores que se mudarem mais cedo -cerca de US$ 30 para aqueles que deixarem seus imóveis em 20 dias; US$ 15 se saírem em um mês. As casas são demolidas tão logo ficam vazias, dando a algumas ruas o aspecto de um dente faltando.

Na televisão de Kashgar, um infomercial noturno de 15 minutos vende o projeto como se fosse facas ginsu, misturando estatísticas preocupantes sobre atividade sísmica com cenas de uigures felizes dançando diante de seus novos apartamentos de concreto.

"Nunca aconteceu um evento tão grande em Kashgar", diz o narrador. Ele se gaba de que os novos prédios "dificilmente serão igualados no mundo" e que os cidadãos "experimentarão o cuidado pleno do partido" em relação à minoria étnica uigur.

O informercial também nota que autoridades do Partido Comunista de Kashgar até Pequim estão temerosas diante da perspectiva de um terremoto, "o que está perturbando seu sono".

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h29

    -0,60
    3,162
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h36

    -0,01
    70.003,94
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host