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28/05/2009

Sibéria abre novo complexo para guardar armas químicas da era soviética

The New York Times
Clifford J. Levy
Em Moscou
Logo após o colapso da União Soviética, uma equipe de inspeção americana chegou a um complexo de armazenagem decrépito na Sibéria. O portão da frente era guardado por um soldado adolescente magricela que não recebia há meses. Galpões gigantes pareciam guardar pouco de valor. Por que outro motivo suas portas estariam trancadas apenas com cadeados de bicicleta enferrujados?

A realidade era bem mais perturbadora: os galpões continham 2 milhões de cápsulas de artilharia e ogivas carregadas com agentes nervosos, substâncias extremamente mortais, fileira após fileira, empilhadas como lenha. Muitas eram portáteis, e uma única delas detonada em um estádio ou outra área repleta de pessoas poderia matar dezenas de milhares.

Hoje, o local está transformado. A inspeção em 1994 foi catalisadora de um plano americano abrangente para destruição dessas armas químicas, culminando na abertura formal, prevista para sexta-feira (29), de uma instalação próxima para realizar o trabalho.

A nova instalação, construída com US$ 1 bilhão em ajuda americana, representa um marco em uma longa parceria entre os Estados Unidos e a Rússia para proteger e em muitos casos eliminar quantidades enormes de armas químicas, nucleares e biológicas fabricadas pela União Soviética.

Este acordo geral entre os países tem sido frequentemente problemático, e o projeto para erradicar o depósito de armas químicas na cidade siberiana de Shchuchye, proposto inicialmente em 1996, foi repetidamente adiado. Alguns membros do Congresso buscaram colocar um fim ao financiamento, afirmando que a Rússia deveria pagar ela mesma pelo programa, e a supervisão do projeto pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos foi questionada pelos auditores do Congresso.

Por sua vez, a Rússia impôs regulamentações incômodas ao projeto e relutava em usar seu próprio dinheiro. Em geral, o Kremlin sob Vladimir Putin se tornou muito mais sigiloso a respeito destas instalações de armas, tornando mais difícil para as autoridades americanas verificarem como o dinheiro estava sendo gasto.

Ainda assim, autoridades americanas e russas estão saudando a abertura da nova instalação em Shchuchye (a pronúncia é chu-chi), a 1.600 quilômetros ao leste de Moscou e ao leste dos Montes Urais. Elas disseram que estas armas químicas eram em alguns aspectos uma ameaça terrorista muito maior do que as nucleares, por serem mais fáceis de roubar e usar.

A abertura da instalação ressalta o quanto os Estados Unidos e a Rússia conseguiram cumprir certos acordos de armas mesmo em meio ao azedamento geral das relações durante o governo Bush.

"Este é um dos passos mais históricos já dados na questão da não-proliferação", disse Paul F. Walker, que participou na inspeção de 1994 como assessor legislativo e agora é um membro sênior da Global Green USA, uma afiliada de uma organização ambiental criada por Mikhail Gorbachev, o ex-líder soviético.

"Um dos arsenais de armas químicas mais perigosos do mundo está finalmente sendo desmilitarizado", disse Walker. "E levou um longo tempo."

Como demonstrou a primeira inspeção de Shchuchye, o desarranjo político e econômico da Rússia no início dos anos 90 teve consequências graves para sua infraestrutura militar. As autoridades americanas ficaram alarmadas com a possibilidade de armas não-convencionais caírem nas mãos de terroristas.

Em 1991, os senadores Sam Nunn, democrata da Geórgia, e Richard G. Lugar, republicano de Indiana, propuseram um programa para ajudar os países da ex-União Soviética a protegerem e destruírem estas armas.

Apesar de turbulento, o sucesso relativo do programa Nunn-Lugar foi citado por alguns funcionários do governo Obama como uma esperança para negociações de futuros tratados. As autoridades russas e americanas agora estão envolvidas nas negociações de uma nova versão do Tratado para Redução de Armas Estratégicas, ou Start (na sigla em inglês), que expira em dezembro.

As cápsulas e ogivas em Shchuchye contêm cerca de 5.950 toneladas de agentes nervosos, incluindo sarin e VX. Para eliminação deles, um buraco será perfurado em cada uma delas e os agentes serão drenados e misturados com outras substâncias químicas para neutralizá-los. O resíduo será solidificado em asfalto ou um material semelhante.

Apesar da abertura formal da instalação ser na sexta-feira, ele iniciou operações preliminares em março. A Rússia acabou alocando cerca de US$ 600 milhões para o projeto e outros países também contribuíram.

Foram necessários anos para desenvolver o processo para eliminação dos agentes nervosos, com os russos optando por não incinerá-los devido à oposição local. Poderá levar cinco anos ou mais para que todas as armas sejam neutralizadas.

"O fato é que é muito mais fácil produzir armas químicas do que destruí-las", disse Igor Rybalchenko, um cientista que é um consultor sênior do governo russo.

Rybalchenko disse que os métodos sendo usados são seguros. Entretanto, grupos ambientais expressaram preocupação com acidentes potenciais na nova instalação. Eles argumentam que o governo russo há muito viola as leis ambientais nestas instalações.

Lev Fyodorov, presidente da União Russa para Segurança Química, disse que as pessoas em Shchuchye viram incêndios e outros acidentes no complexo de armazenamento nos últimos anos, mas o governo nunca os divulgou ou explicou que medidas de segurança foram adotadas.

"Nas bases de armazenamento americanas, muitos tipos de acidentes ocorreram, e sabemos a respeito deles", disse Fyodorov. "Na Rússia, nós sabemos sobe estas coisas nas bases russas? É claro que não. Eu sou um cidadão russo e o governo russo não me diz nada. Nós precisamos destruir as armas químicas? É claro. Mas precisamos violar as leis ambientais russas para fazer isso?"

A Rússia e os Estados Unidos têm a maioria das armas químicas do mundo e prometeram eliminá-las de acordo com a Convenção de Armas Químicas. Ambos os países tiveram problemas com financiamento e logística, assim como não deverão cumprir o prazo de 2012.

Shchuchye, na verdade, tem apenas 14% das armas químicas da Rússia, que são mantidas em sete instalações.

Mas Shchuchye é considerado talvez a localização mais crítica porque muitos dos agentes nervosos estão em cápsulas. A cidade fica próxima do Cazaquistão, que por sua vez está próximo do Afeganistão.

Lugar lembrou que teve que rechaçar com frequência a oposição no Congresso ao projeto de Shchuchye, especialmente de republicanos que diziam que a ajuda americana estava permitindo à Rússia gastar seu próprio dinheiro reforçando suas forças armadas.

Mas Lugar, que planeja estar presente na cerimônia de inauguração na sexta-feira, disse que em uma visita anterior, um simples gesto mostrou que a instalação de armazenamento coloca em risco o mundo todo.

"Eu peguei uma daquelas cápsulas e a coloquei em uma pasta", ele disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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