UOL Notícias Internacional
 

29/05/2009

Apesar das promessas de auxílio, famílias de Gaza vivem na miséria

The New York Times
Ethan Bronner
Em Gaza
Dezenas de famílias ainda moram em tendas em meios a construções destruídas e tubulações enferrujadas. Com a proibição da entrada de materiais de construção na faixa de Gaza, algumas pessoas estão construindo casas de tijolos de barro cru. Com exceção de comida e remédios, tudo precisa ser contrabandeado do Egito por túneis subterrâneos no deserto. Entre os produtos mais procurados está um analgésico que provoca dependência, e que é usado para combater a depressão.

Quatro meses após Israel ter lançado uma guerra contra o território para acabar com o lançamento de foguetes do Hamas, e dois anos depois que o Hamas passou a controlar integralmente essa faixa costeira, Gaza parece uma ilha à deriva. Espremida de fora por um boicote israelense e egípcio, e de dentro pelos seus governantes islamitas, os 1,5 milhão de habitantes foram privados de qualquer produtividade ou esperança.

"Logo após o término dos ataques, todo mundo veio para cá - jornalistas, governos estrangeiros e instituições de caridade prometendo ajuda", afirma Hashem Dardona, 47, que encontra-se desempregado. "Agora, ninguém mais vem".

Mas como o governo Obama está pressionando Israel para que permita a entrada de materiais para a reconstrução, e com as atenções cada vez mais focadas nas divisões internas palestinas, a faixa de Gaza em breve voltará ao centro das negociações de paz do Oriente Médio.

Para muitos israelenses, a faixa de Gaza é um símbolo de tudo o que está errado quanto à soberania palestina, que eles veem cada vez mais como uma oportunidade para que Israel fique ao alcance dos foguetes das forças anti-israelenses, especialmente o Irã. A menos que encontre-se uma forma de reatar política e geograficamente a faixa de Gaza à Cisjordânia, mitigando-se ao mesmo tempo os temores israelenses, um Estado palestino parece estar mais distante do que nunca.

Isso deixa a faixa de Gaza suspensa em um estado de miséria que desafia categorizações fáceis. O território encontra-se, sem dúvida, com uma altíssima densidade populacional e em condição de pobreza, mas a sua situação é melhor do que a de quase toda a África, bem como de partes da Ásia. Não existe desnutrição aguda, e os índices de mortalidade infantil são comparáveis aos do Egito e da Jordânia, segundo Mahmoud Daher, representante local da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Isto ocorre porque, apesar de Israel e o Egito terem fechado as fronteiras nos últimos três anos na tentativa de esmagar o Hamas, Israel permite a entrada diária de rações de auxílio humanitário, deixando que entrem na faixa de Gaza cerca de cem caminhões com alimentos e remédios. Oficiais militares em Tel Aviv contam a quantidade mínima de calorias consumidas em Gaza para evitar um desastre. E a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) encarregada dos refugiados palestinos administra escolas e clínicas médicas que são limpas e eficientes.

Mas há muitos níveis de privação antes que se chegue a uma catástrofe, e os moradores da faixa de Gaza conhecem todos estes patamares. O território não conta com praticamente nada em termos de uma economia funcional, a não ser comércio básico e atividades agrícolas. A educação declinou terrivelmente, e os serviços médicos também estão caindo.

Há aqui dezenas de milhares de pessoas educadas e ambiciosas - professores, engenheiros, tradutores, gerentes empresariais - que não têm nada a fazer a não ser ficarem frustrados. Eles não podem praticar as suas profissões e são impedidos de sair. Essas pessoas recebem ajuda financeira humanitária e fumam em cafés. Uma pesquisa da ONU revela que houve um aumento da violência doméstica.

Muita gente diz ter passado a ingerir uma pequena cápsula de Tramal, o nome comercial de um analgésico semelhante a um opiato que faz aumentar o desejo sexual e a sensação de controle. Recentemente o Hamas ameaçou com pena de prisão os indivíduos que traficam e tomam a droga.

Mas mesmo assim a pílula entra em Gaza, juntamente com roupas, móveis e cigarros, através das centenas de túneis escavados no deserto na cidade de Rafah, na fronteira sul, trazida por empresários inescrupulosos que pagam às autoridades do Hamas um imposto sobre as mercadorias.

Túneis similares também servem de canais de entrada para armas. Israel bombardeia periodicamente esses túneis na esperança de enfraquecer o Hamas, que afirma que jamais reconhecerá Israel, e que se reserva o direito de usar a violência contra o Estado judeu até que este abandone todas as terras que ocupou na guerra de 1967. Depois disso, haveria uma trégua de dez anos enquanto os próximos passos fossem analisados, embora o estatuto do Hamas pregue a destruição de Israel em quaisquer fronteiras.

Israel iniciou o bloqueio contra a faixa de Gaza logo após o Hamas ter obtido uma surpreendente vitória nas eleições legislativas palestinas em 2006. O bloqueio foi intensificado depois que o Hamas expulsou totalmente a Autoridade Palestina da faixa de Gaza, em junho de 2007, após quatro dias de batalhas de rua. O apoio iraniano ao Hamas fez com que crescesse a convicção israelense de que o bloqueio é a ação correta.

O objetivo israelense é manter a população da faixa de Gaza em um mero nível de subsistência, de forma que a sua situação contraste com a da Cisjordânia, que em tese beneficia-se da ajuda econômica e do desenvolvimento político. Desta forma, os indivíduos que apoiam o Hamas perceberiam o seu erro. Porém, esse plano não tem transcorrido bem, em parte porque a Cisjordânia sob ocupação israelense não é exatamente um quadro paradisíaco, e ainda porque o Hamas parece a cada ano estar mais consolidado no poder em Gaza, mantendo as ruas limpas e a criminalidade reduzida, embora seja difícil avaliar a popularidade do grupo.

"O Hamas está aprendendo com os seus erros, e ficando cada vez mais forte", afirma Sharhabeed al-Zaeem, um proeminente advogado local. Ele e outros têm rogado às autoridades internacionais que façam com que os materiais de construções e outros produtos passem pelos pontos de entrada para o território, que estão fechados, e entrem finalmente na faixa de Gaza.

Eles argumentam que o atual sistema só beneficia o Hamas, já que o grupo impõe impostos sobre as mercadorias que entram pelos túneis e as operações cambiais limitadas, e o povo não o responsabiliza pelo cerco e o bloqueio israelenses. Eles afirmam que se fosse permitida a entrada de vidro e cimento pelos pontos de travessia para Israel, o Hamas não ficaria com o crédito e a Autoridade Palestina poderia coletar os impostos.

"O povo da faixa de Gaza está deprimido, e pessoas deprimidas voltam-se para o mito e a fantasia, o que significa religião e drogas", afirma Jawdat Khoudary, um empreiteiro do setor de construção civil. "Este tipo de prisão alimenta o extremismo. Deixem as pessoas saírem para que vejam uma versão diferente da realidade".

As autoridades israelenses continuam céticas quanto à abertura de fronteiras. Muitas acreditam que a guerra feita pelos israelenses serviu como dissuasão, e apontam como evidência disso a redução drástica do número de foguetes disparados. Eles temem que o aço e o cimento sejam desviados pelo Hamas para a produção de armas. Mas os israelenses estão sofrendo pressões dos norte-americanos e das Nações Unidas, e discutem um projeto piloto.

Enquanto isso, a faixa de Gaza parece-se cada dia mais com um Estado do Hamas, e parece menos vinculada à Cisjordânia. Os homens estão cada vez mais barbudos, e as mulheres mais cobertas. O Hamas é o principal empregador. Escolas e tribunais, que antes eram administrados pela Autoridade Palestina, dominada pela Fatah, encontram-se sob a autoridade do Hamas desde que o governo da Cisjordânica ordenou aos seus funcionários que ficassem em casa. O governo está coletando informações sobre companhias e grupos sem fins lucrativos e procurando assumir controle sobre as suas atividades.

Muita gente aqui está particularmente preocupada com os jovens e os seus horizontes. Em um programa cujo objetivo é ajudar jovens traumatizados pela guerra de janeiro, os adolescentes recebem canetas coloridas para desenhar o que quiserem, diz Farah Abu Qasem, 20, aluna de tradução de inglês que trabalha como voluntária no projeto.

"Eles parecem escolher apenas a cor preta e desenhar coisas como tanques de guerra", diz Qasem. "E quando peço-lhes que desenhem algo que represente o futuro, eles deixam o papel em branco".

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host