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29/05/2009

Escapadas de Berlusconi testam o limite da tolerância da Itália

The New York Times
Rachel Donadio
Em Roma
Quando a esposa do primeiro-ministro Silvio Berlusconi ocupou as primeiras páginas neste mês para anunciar que queria o divórcio, o acusando de ter casos com mulheres muito jovens, parecia ser mais outra tempestade que o homem mais poderoso da Itália poderia facilmente suportar.

Por anos a Itália tem fingido que não vê o que Berlusconi faz, enquanto outros países poderiam olhar furiosamente. Mas então as coisas tomaram um rumo surreal.

Primeiro veio uma torrente rara e inevitável de especulação - em blogs, na televisão e no rádio, em mesas de jantar por toda a Itália - sobre a natureza e origem de seu relacionamento com Noemi Letizia, a bela loira aspirante a modelo em cuja festa de aniversário de 18 anos ele esteve presente em Nápoles, no mês passado, e que disse que o chama "papai". Foi essa festa que fez a esposa de Berlusconi declarar o fim do casamento deles, que é um ano mais velho que Letizia.

Mais recente são as alegações, potencialmente mais danosas, de que Berlusconi convidou Letizia e cerca de 40 outras garotas, como ela e na época menores de 18 anos, para passar o Ano Novo em uma de suas propriedades na Sardenha.

Grande parte do sucesso de Berlusconi vem de sua incrível capacidade de ler o sentimento nacional. Agora, muitos se perguntam se ele finalmente calculou mal e foi longe demais mesmo para os tolerantes italianos, e se sua reputação no final de carreira pode cada vez mais lembrar a decadência imperial romana de "Satyricon" de Fellini.

O primeiro-ministro negou repetidas vezes qualquer coisa imprópria em seu relacionamento com Letizia, que posou com roupa íntima e disse em uma entrevista recente que é virgem. Na quinta-feira (28), Berlusconi disse que não teve absolutamente um "relacionamento, digamos quente ou mais do que quente, com uma garota menor de idade".

A idade de consentimento na Itália é 16 anos, mas as pessoas são consideradas menores até os 18 anos.

"Eu juro pela vida dos meus filhos", ele acrescentou. "Se isto fosse perjúrio, eu teria que renunciar um minuto depois."

De fato, a história está assumindo dimensões políticas, menos de duas semanas antes das eleições para o Parlamento Europeu, e um mês antes da Itália receber o encontro de cúpula dos líderes mundiais do Grupo dos Oito, quando Berlusconi tentará assegurar sua posição junto ao governo Obama. Dario Franceschini, o líder de oposição de centro-esquerda, tem feito aos eleitores esta pergunta sobre Berlusconi, 72 anos: "Você gostaria que sua filha fosse criada por este homem?"

Os críticos dizem que o debate não é apenas sobre sexo, mas reflete uma desatenção aos problemas profundos e antigos da Itália, como a economia, ou a reconstrução após o terremoto que deixou 70 mil pessoas desabrigadas na região central da Itália. O líder de outro partido de oposição o comparou recentemente a Nero, perdendo tempo com besteiras enquanto Roma queima. Em um editorial nesta semana, o "Financial Times" escreveu que Berlusconi é "um exemplo maligno para todos".

Mas Berlusconi ainda governa virtualmente sem oposição.

"O problema é simplesmente que os italianos não conseguem imaginar quem poderia substituir Berlusconi no momento", disse Tim Parks, o romancista e comentarista sobre a Itália. "É perigoso demais e um esforço muito grande substituí-lo. De forma que não importa quão ruim seja o escândalo."

Ou, como o político de direita Francesco Storace disse em uma recente entrevista de rádio: "As pessoas não votam em Berlusconi porque ele diz a verdade; elas votam nele porque gostam dele".

No que muitos veem como um sinal do domínio de Berlusconi do poder na Itália e Vaticano, nesta semana, a Conferência dos Bispos da Itália deu basicamente passe livre a Berlusconi, ou pelo menos um não comentário, pedindo "comportamento adulto", mas dizendo que a conduta de cada pessoa é assunto de "consciência individual".

"As coisas estão completamente viradas do avesso", disse Gianluca Nicoletti, um comentarista da rádio "Il Sole 24 Ore". "Aqueles que sempre representaram a família e os casais fiéis estão felizes em justificar o comportamento desonesto", ele disse. Enquanto alguns na esquerda, "que sempre professaram crença na liberdade sexual total, agora agem como inquisidores com seu apontar de dedo".

O que passou a ser simplesmente chamado de "caso Noemi" apresenta novos elementos no longo relacionamento da Itália com o comportamento questionável de Berlusconi. Pela primeira vez na memória recente, a imprensa italiana está apontando os holofotes para os recessos escuros da vida pessoal do político.

A campanha está sendo liderada pelo arqui-inimigo de Berlusconi na imprensa, o jornal de esquerda "La Repubblica".

Nas duas últimas semanas, ele publicou 10 perguntas para o primeiro-ministro, a principal entre elas sendo como ele conheceu o pai de Letizia. Berlusconi disse que conheceu Letizia recentemente por meio do pai dela, Benedetto Letizia, um funcionário público da cidade de Nápoles.

Nas últimas semanas, os pais de Letizia confirmaram o relato de como Berlusconi conheceu Letizia, enquanto o ex-namorado dela e a tia dela o contradisseram, criando uma confusão que prolongou o drama.

Em uma entrevista publicada pelo "La Repubblica" no domingo, o ex-namorado de Letizia, que como o pai dela tem ficha criminal, como foi descoberto posteriormente, disse que o primeiro-ministro requisitou Letizia no ano passado, após ver a foto dela em um catálogo de modelos.

Ele descreveu o relacionamento de Letizia com Berlusconi como sendo casto e como o de um mentor. Foi ele quem primeiro disse que ela e outra amiga colegial foram convidadas para passar o Ano Novo na propriedade de Berlusconi na Sardenha.

O "Corriere della Sera" noticiou que Berlusconi disse a associados que Letizia esteve na festa juntamente com muitos outros convidados.

Os muitos simpatizantes de Berlusconi acreditam que ele está sendo injustamente atacado no período eleitoral e que deve ser deixado em paz.

Giuliano Ferrara, um ex-conselheiro de Berlusconi, pediu ao "La Repubblica" que pare com a inquisição, dizendo que "a única coisa em jogo" era "o ego de Berlusconi".

Mas se Berlusconi e sua esposa, Veronica Lario, se divorciarem, uma complexa batalha pela herança se prenuncia entre seus dois filhos do primeiro casamento e três do segundo, com Lario. Todos eles saíram em defesa do pai.

O "caso Noemi" tanto aprofundou quanto distraiu de outros pontos escuros persistentes no governo Berlusconi. Na semana passada, um tribunal de Milão apresentou seu argumento para condenação de um advogado britânico, David Mills, por aceitar um suborno de US$ 600 mil de associados de Berlusconi.

Berlusconi não foi julgado, tendo aprovado uma lei que concede imunidade aos altos políticos da Itália enquanto estão no poder. Ele tem repetidamente acusado os promotores de serem ideólogos de esquerda à sua caça.

Enquanto isso, Letizia posou recentemente com um homem identificado com sendo seu novo namorado para a "Chi", uma revista publicada pela Mandadori, que é de propriedade de Berlusconi. Ela discutiu sua vida pessoal. "Eu ainda não dei aquele passo importante", ela disse. "A virgindade é um valor importante. Eu acredito fortemente em Deus e sou uma católica praticante."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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