UOL Notícias Internacional
 

30/05/2009

Leilão dos direitos do petróleo iraquiano poderá provocar hostilidade na disputada Kirkuk

The New York Times
Timothy Williams e Suadad Al Salhy*
Em Kirkuk (Iraque)
Em uma tarde recente, o xeque Habih Shawqi Hamakan espiou por seus binóculos para uma vista que ele considera, apesar das colunas de fumaça preta que tapam o sol, pura beleza.

Até onde os olhos veem se encontram campos de petróleo, entre os mais produtivos no Iraque. Ele se virou, gesticulando para seu amplo sobrado, com seu jardim de roseiras floridas rosas e amarelas. Ele também fica em um campo de petróleo.

Veja onde fica a região de Kirkuk

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O xeque é um dos milhares de curdos que se mudaram para Kirkuk, uma instável cidade petrolífera no norte do Iraque, desde a invasão liderada pelos americanos em 2003 e que reivindicaram terrenos que não eram deles para construir casas. Algumas das casas, evidências ilegais visando reforçar a reivindicação curda por Kirkuk, ficam a menos de um quilômetro das altas chamas de gás natural entre os campos de petróleo.

A presença deles é um dos muitos pontos de pressão convergentes em um momento crítico em Kirkuk, à medida que os direitos a estes campos deverão ser leiloados para companhias de petróleo estrangeiras em junho, como parte do esforço do Iraque para impulsionar sua economia por meio da triplicação de sua produção de petróleo nos próximos seis anos.

A província de Kirkuk, inserida entre o Curdistão e o restante do Iraque, é menor do que Connecticut, mas produz tanto petróleo quanto o Alasca. Acredita-se que ela possua até um sexto do total de reservas de petróleo do Iraque.

Tanto os curdos quanto o governo central há muito reivindicam Kirkuk como sendo seu, e muitos moradores e observadores ocidentais temem que a concessão do contrato, juntamente com a bonança de empregos e o fluxo esperado de dinheiro, poderá instigar a hostilidade entre os curdos, árabes e turcomanos que vivem aqui. Muitos temem que isso possa minar a unidade iraquiana e envolver o território disputado em maior violência. O pior cenário seria um conflito étnico aberto, previsto por muitos desde que a segurança da província foi entregue aos cuidados das forças curdas após a invasão de 2003.

Qualquer disputa por Kirkuk é motivo de preocupação para a Turquia, Síria e Irã, cada uma com uma população curda minoritária, e poderia provocar tensões entre árabes e curdos por todo o norte do Iraque, a região mais nervosa do país.

Ainda assim, apesar do status de Kirkuk permanecer não resolvido e não se saber quanto petróleo há sob ela, muitas das maiores corporações de petróleo do mundo estão disputando o contrato aqui. Este é um dos oito grandes campos de petróleo e gás por todo o Iraque, com produção abaixo de sua capacidade, para os quais o governo concederá direitos de produção no final de junho.

"Ao leiloar os campos em Kirkuk, o primeiro-ministro Maliki está claramente enfiando o dedo no olho dos curdos, ao reafirmar a soberania iraquiana sobre o petróleo nos territórios cujo status está constitucionalmente em disputa", disse Joost Hiltermann, um especialista em Iraque do Grupo Internacional de Crise.

Nas últimas semanas, mesmo após um encontro de cúpula em Berlim entre os árabes, curdos, turcomanos e assírios de Kirkuk, a violência na província aumentou. Nos últimos meses, a cidade de Kirkuk tem sido sacudida por explosões de carros-bomba, tiroteios e ataques suicidas que mataram pelo menos uma dúzia de policiais, três cristãos assírios, um alto oficial de polícia árabe e trabalhadores a caminho dos campos de petróleo.

As forças de segurança predominantemente curdas de Kirkuk disseram que precisam de ajuda para controlar a violência, mas não das tropas do exército iraquiano, predominantemente árabes, posicionadas nos arredores da cidade. As forças armadas americanas realizaram uma série de reuniões com líderes políticos e forças de seguranças árabes e curdas neste mês, sem chegar a um acordo que permita que uma unidade do exército iraquiano opere na cidade.

"Nós esperamos que uma violência muito séria não volte, mas todos os sinais são de que voltará", disse o general Turhan Abdul Rahman Yasif, vice-chefe da força de polícia da província.

Um relatório da ONU, em abril, ofereceu várias recomendações para reduzir as tensões, incluindo tornar Kirkuk uma região administrada em conjunto pelo Iraque e o Curdistão. No final, os moradores realizariam um referendo para decidir o futuro da cidade.

A população de curdos, árabes, turcomanos e cristãos assírios de Kirkuk geralmente vive separada umas das outras nutrindo uma suspeita mútua. Os outros grupos acusam os curdos de quererem anexar Kirkuk e sua riqueza de petróleo ao semiautônomo Governo Regional do Curdistão, o que poderia dar ao Curdistão a base econômica para se tornar um Estado independente.

Mas não há quase nenhuma exploração de petróleo no Iraque há décadas. O Ministério do Petróleo diz que Kirkuk contém cerca de 15 bilhões de barris de petróleo, ou 16% do total do Iraque e 2% das reservas comprovadas de petróleo do mundo.

Mas a maioria das estimativas da indústria do petróleo coloca as reservas de Kirkuk entre 5,5 bilhões e 10 bilhões de barris.

O Revenue Watch Institute, um grupo sem fins lucrativos de políticas de recursos naturais com sede em Nova York, estimou em um relatório de 2006 que 62% do petróleo de Kirkuk já foram extraídos. "Isso significa que este campo super gigante está nos estágios finais de sua vida", disse o relatório.

Mas Mena'a Abdullah Alubaid, diretor geral da North Oil Company do Iraque, uma divisão do Ministério do Petróleo que supervisiona os campos de Kirkuk, insiste que os campos durarão até 2074.

Wayne Kelley, diretor administrativo da RSK Ltd., uma empresa independente de engenharia de petróleo, disse que a companhia petrolífera que vencer o leilão pelo campo de Kirkuk enfrentará questões incluindo a violência potencial e a provável contaminação de parte do campo por resíduos de petróleo. "Em nenhum lugar do mundo um campo deste tamanho foi tão mal administrado", ele disse.

Outro obstáculo significativo pode ser a crescente população de colonos curdos, muitos dos quais construindo casas em terras que o Ministério do Petróleo diz que não é deles.

As famílias dizem que foram removidas à força de Kirkuk pelo governo de Saddam Hussein, que demoliu suas aldeias. Elas chamam a cidade disputada de a "Jerusalém" deles, e algumas dizem que pegarão em armas para permanecer.

Hamakan, 60 anos, disse que após anos de exílio no Irã e em outros lugares, ele finalmente saciou seu desejo de estar em casa. Ele prometeu que não permitirá que tratores do governo destruam a casa de sua família uma segunda vez.

"Eu não vou partir", ele disse. "Caberá a eles demolir a aldeia sobre a minha cabeça."

*Riyadh Mohammed, Abeer Mohammed, Sam Dagher e Mohamed Hussein, em Bagdá, e Tareq Maher e um funcionário iraquiano do "The New York Times", em Kirkuk, contribuíram com reportagem

Tradução: George El Khouri Andolfato

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