UOL Notícias Internacional
 

01/06/2009

Para o congestionamento de Caracas, motoboys são salvação e flagelo

The New York Times
Simon Romero
Em Caracas
Os motoristas os desprezam. Os pedestres os temem. Os assaltantes os esperam nas estradas. Líderes de esquerda os chamam de heróis sem nome.

E essa cidade anárquica, que apesar de seu caso de amor com os carros, entraria em colapso se não fosse por eles: os milhares de destemidos motoboys que tornam a vida aqui traiçoeira e viável ao mesmo tempo.
  • Meridith Kohut/The New York Times

    Colegas prestam tributo a 'motorizado' morto nas ruas de Caracas, durante enterro


Conhecidos como "motorizados", eles carregam passageiros e entregam encomendas, cruzando as faixas em que jipes Cherokee e carros caindo aos pedaços que bebem gasolina subsidiada entopem as ruas em congestionamentos monumentais.

Com a rebeldia que cresce em meio ao caos concreto de Caracas, eles sobem guias e aceleram pelas calçadas cheias de gente para entregar suas encomendas. Eles ignoram faróis vermelhos e consideram os sinais de trânsito um costume das tribos urbanas mais dóceis. Autoridades de trânsito estimam que haja cerca de 5 mil motoboys, mas esse número corresponde apenas aos que se dão ao trabalho de preencher os documentos de registro.

Eles estão preparados, ao menor sinal de uma mensagem de texto, para deixar tudo o que estão fazendo para ajudar um colega que caiu no trânsito. Muitos carregam armas e há relatos de que atiram em motoristas de carros que batem em um dos seus. Um conselho para os motoristas que ficam tentados a gritar com um motorizado por riscar a pintura de seus carrões ou arrancar um espelho retrovisor: não façam isso.

"Sei que somos considerados a escória do mundo, mas a vida nunca é tão simples", disse Jesus malave, 45, que se tornou um motorizado há dois anos para sustentar sua mulher e duas filhas. Ele ganha cerca de US$ 500 por mês, o dobro do que costumava ganhar fazendo serviços gerais.

"A verdade é que nós oferecemos um serviço que tem uma grande demanda", disse. Descrevendo a si mesmo como um renascido em Cristo, ele acrescentou: "Quem além de Deus poderia ter transformado Caracas nesse inferno, e depois nos escolher para carregar pequenos milagres pelas ruas todos os dias?"

O folclore dos motorizados incluem feitos nobres. Dirigindo normalmente motos com baixa cilindrada para a cidade, eles já levaram mulheres grávidas às pressas para as salas de parto e carregaram feridos dos deslizamentos de terra em Vargas, em 1999, para os hospitais.

Mas, como diz Malave, a história é complexa.

"Queria que a política encontrasse e prendesse o motorizado que fez isso para mim, mas sei que isso nunca vai acontecer", disse Maria Hipolita Beloni, 56, que teve a mandíbula fraturada ao ser atingida por um motorizado que dirigia com farol apagado à noite este mês, próximo a uma favela no oeste da cidade.

Os caraqueños, como são conhecidos os moradores da cidade, classificam os motorizados em várias categorias de acordo com a eficiência e a delinquência.

Os mais comuns são os mototaxistas, que carregam passageiros ou documentos e normalmente não fazem nada mais grave do que infringir as leis de trânsito. Há também os motobanquistas, que assaltam bancos com suas motocicletas. Os mais temidos são os sicários, assassinos profissionais que usam motos para trabalhar e perseguem vítimas como Pierre Fould Gerges, executivo de um jornal que foi morto a tiros por eles no ano passado.

Outras cidades da América Latina se orgulham de suas próprias subculturas de motociclistas. São Paulo tem seus motoboys e Santo Domingo, na República Dominicana, os motoconchos. Mas os motorizados se diferenciam dos demais no que diz respeito ao seu nível de politização e aos perigos inerentes à sua profissão.

Os motorizados se tornaram um pilar de apoio para o presidente Hugo Chávez, com muitos grupos com nomes como Força Motorizada, Frente Motorizada de Integração Socialista e Comando Motorizado do Partido Socialista Unido.

Entre outros deveres, eles levam eleitores para as urnas, intimidam opositores de Chávez nos protestos de rua e, às vezes, estão ligados a grupos que fazem ataques de vandalismo a alvos como a rede de televisão Globovision e a missão diplomática do Vaticano na cidade.

"Não somos o exército de ninguém, e o governo não vê isso dessa forma", diz Gustavo Martinez, 40, presidente da Associação Nacional de Motorizados Bolivares Socialistas, uma organização que representa 3.300 motorizados. "As autoridades nos veem como mais um grupo social formado no seio da revolução".

Outros veem os motociclistas pró-Chávez sob uma perspectiva diferente.

Manuel Caballero, um proeminente historiador venezuelano, compara as táticas de intimidação deles com as dos esquadrões de motos da SS de Hitler. Ainda assim, é inegável que o movimento político de Chávez deu aos motorizados algo que eles não tinham: um sentido de pertencer a algo.

"A forma como os motorizados se moldaram é um reflexo da transformação da economia venezuelana a partir dos anos 80", disse Luis Duno-Gottberg, professor de estudos culturais na Universidade Rice, em Houston.

O número de motorizados, na maioria autônomos, cresceu nas últimas décadas à medida que a economia informal se expandiu. Seus números aumentaram novamente quando a recente alta do petróleo permitiu que os venezuelanos comprassem centenas de milhares de carros novos. O aumento de 34% nas vendas de carros em 2007 e 2008 piorou o trânsito já ruim da cidade.

Os motorizados agarraram a oportunidade de transportar passageiros desesperados para evitar os congestionamentos que fazem com que um deslocamento de 3 km leve duas horas e meia. Com uma moto, a mesma viagem não leva mais do que 15 minutos.

"O aumento de produtividade é incrível", diz Rommel Mendoza, 34, radialista que usa uma moto para fazer reportagens sobre a vida nas ruas da cidade e tem uma grande audiência. "Agora, eu posso fazer quatro ou cinco matérias por dia em vez de uma só".

Como o trabalho de motorizado é mais lucrativo do que algumas profissões na indústria, muitos motorizados se tornaram alvos dos bandidos. A demanda de motos está aumentando, desencadeando uma explosão de roubos e assassinatos.

Assaltantes mataram pelo menos 66 pessoas este ano ao tentarem roubar motos. Os assassinatos de motorizados se tornaram tão comuns que seus enterros se transformaram em rituais assistidos com um misto de terror e fascínio nos cemitérios de Caracas.

Normalmente, os colegas do motorizado morto vêm em caravana à frente do caixão, roncando os motores de suas motos. Bebida alcoólica é oferecida quando eles chegam ao local do enterro. Batidas de reggaeton ecoam pelo ar. Alguns atiram para o alto com suas armas.

Então os motorizados equilibram o caixão sobre um par de motos, para uma última e lenta volta.

"Os motorizados estão face a face com a morte todos os dias", diz Ramon Velasquez, zelador do Cemitério Geral do Sul de Caracas, que já viu dezenas de enterros assim. "Mais do que a maioria de nós nessa cidade, eles sabem o que significa estar vivo."

Tradução: Eloise De Vylder

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