UOL Notícias Internacional
 

03/06/2009

Anarquia na Somália persiste devido a facções combatentes

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Nairóbi (Quênia)
A Somália transformou-se mais uma vez em uma zona violenta de batalhas, para a qual convergem jihadistas vindos de outros países, que preparam-se para uma investida final no sentido de derrubar o governo de transição.

O governo está suplicando por ajuda, afirmando que mais tropas de paz, dinheiro e armas poderiam fazer com que a situação tornasse-se desfavorável para os radicais muçulmanos.

Mas a realidade pode ser mais sombria do que os dois lados estão dispostos a admitir: o conflito da Somália transformou-se em uma guerra que ninguém é capaz de vencer, pelo menos neste momento.

Nenhuma das facções - o governo moderado muçulmano, os militantes radicais shababs, os clérigos sufis que controlam algumas partes da região central da Somália, as milícias de clãs que controlam outras partes, o governo autônomo da Somalilândia no noroeste e o governo semi-autônomo de Puntland, no nordeste - parece suficientemente poderosa, organizada ou popular para superar os adversários e acabar com a violência que matou milhares de pessoas nos últimos dois anos.

Especialistas na Somália dizem que o principal conflito, que envolve o governo contra os shababs, ainda durará meses, alimentado por auxílio externo aos dois lados. A Organização das Nações Unidas (ONU) e os países ocidentais veem o governo de transição, embora débil, como o melhor reduto de resistência contra a pirataria e o extremismo islâmico na Somália, e estão investindo centenas de milhões de dólares na segurança governamental. Ao mesmo tempo, os shababs são sustentados por um fluxo de armas e combatentes, originário em grande parte da vizinha Eritreia.

Os shababs, mais do que ninguém, conseguiram internacionalizar o conflito da Somália e usar os seus sonhos jihadistas para atrair combatentes estrangeiros de todo o mundo, incluindo dos Estados Unidos. A organização Shabab, que em árabe significa juventude, é em sua maior parte uma milícia formada por indivíduos de menos de 40 anos de idade que abraçam a versão rígida wahhabi do islamismo e que, segundo diplomatas dos Estados Unidos, são guiados por um outro grupo wahhabi: a Al Qaeda.

Ahmedou Ould-Abdallah, o principal enviado da ONU à Somália, afirma que há centenas de jihadistas estrangeiros lutando ao lado dos shababs. Ele observa que esses indivíduos são "mais motivados, organizados e treinados" do que os típicos combatentes de rua somalis, que costumam ser adolescentes que recebem um punhado de dólares por dia para investirem cegamente contra os inimigos nas batalhas portando fuzis Kalashnikov enferrujados. Esses jovens combatentes conhecem tanto as táticas militares quanto as matérias escolares, ou seja, muito pouco. As aulas praticamente despareceram nos últimos 18 anos, desde que o governo central da Somália entrou em colapso.

Mas os shababs também apresentam limitações. Nas últimas semanas, eles e os seus aliados capturaram Mogadício, a capital da Somália, e fecharam as rotas de fuga da cidade. Porém, no final, eles mostraram-se incapazes de capturar as últimas, mas estrategicamente vitais, áreas que o governo ainda controla, como o porto, o aeroporto e o palácio presidencial situado no topo de uma colina.

Os novos recrutas shababs de outros países importaram para a Somália os truques usados pela Al Qaeda, como explosivos detonados por controle remoto e ataques suicidas a bomba. Mas, conforme ficou demonstrado no Iraque e no Sri Lanka, os insurgentes necessitam de mais do que ataques suicidas para controlar um país. É necessário usar força devastadora, ou uma ideologia persuasiva e uma estratégia de governo. Atualmente os shababs não têm nada disso. O único papel que eles parecem desempenhar no momento é o de obstáculo ao governo.

"Os shababs não conseguem governar", afirma Hassan Gabre, um engenheiro aposentado de Mogadício. Ele diz que os shababs são simplesmente uma parte da indústria da violência da Somália, que tenta defender "o regime de anarquia".
Clérigos shababs não perdem tempo em instaurar a sua versão austera do islamismo nos territórios que capturam. Recentemente eles amputaram a mão de um homem condenado por roubo e a seguir dependuraram o corpo ensanguentado dele em frente a uma multidão em Kismayo, uma cidade portuária no sul da Somália. Mas isso pode ter sido apenas um espetáculo periférico sangrento.

Ould-Abdallah fala de uma "agenda oculta" e sugere que o motivo real pelo qual os shababs e os seus aliados controlam Kismayo é uma convergência de interesses financeiros escusos baseados na venda de armas, no tráfico humano e no comércio clandestino de carvão.

"Existe nisso uma dimensão econômica", afirma Ould-Abdallah.

As coisas nem sempre foram assim. Os shababs constituíram-se em uma parte fundamental de um mini-governo funcional em 2006, quando uma aliança de tribunais islâmicos controlou brevemente grande parte da região centro-sul da Somália. Mas as polêmicas políticas religiosas dos shababs eram contrabalançadas por islamitas moderados, que prestavam serviços como a limpeza de bairros e policiamento comunitário, e como resultado o movimento islâmico obteve apoio junto às bases populares. Ao final, a experiência durou apenas seis meses, até que tropas etíopes, apoiadas por forças militares dos Estados Unidos, invadiram e empurraram os islamitas para a clandestinidade.

Essa intervenção fracassou. Os islamitas retornaram como uma força guerrilheira temível e os etíopes retiraram-se em janeiro, fazendo com que a Somália voltasse mais ou menos ao estágio de 2006, sendo que durante esse processo 17 mil pessoas foram mortas (segundo grupos somalis de direitos humanos). A seguir, líderes islamitas moderados tomaram o lugar do governo de transição, que é formalmente protegido pela força de paz de 4,300 soldados da União Africana.

Mas nos dias de hoje ninguém é especialmente estimado em Mogadício, nem mesmo os soldados da força de paz, que podem estar desempenhando a mais perigosa missão do gênero. Muitos somalis voltaram-se contra eles após um episódio fatal em fevereiro, quando uma bomba plantada à beira de uma estrada atingiu um caminhão da União Africana, e os soldados da força de paz responderam atirando descontroladamente contra uma multidão na rua. Segundo autoridades somalis, no episódio as forças de paz mataram 39 civis, embora a União Africana tenha dito que o número foi bem menor e que as pessoas morreram em um fogo cruzado. Atualmente os islamitas radicais estão chamando as tropas africanas de "bactérias".

Tudo isso poderia representar uma oportunidade para o governo de transição. Afinal, o novo presidente, Sheik Sharif Sheik Ahmed tornou-se popular como solucionador de problemas das comunidades, tendo ficado mais conhecido por ajudar a libertar crianças sequestradas.

Mas o governo de Sheik Sharif parece estar incapacitado pelas mesmas divisões cansativas e insolúveis entre clãs e pela falta de habilidade que acabou com os 14 governos transitórios anteriores. Houve alguns traços de esperança, como a aprovação pelo governo de um orçamento nacional pela primeira vez em vários anos e a utilização de dinheiro arrecadado legitimamente com impostos no porto de Mogadício para pagar os soldados do país. Mas o quadro mais amplo é sombrio. Nas últimas semanas, o governo tem tido muita dificuldade em organizar as suas diversas milícias para que estas defendam conjuntamente os poucos quarteirões da capital que ele ainda controla.

O padrão é evidente, e é possível que não acabe tão cedo: um governo fraco significa mais violência, o que significa um governo ainda mais fraco, que implica em mais violência, e assim sucessivamente. "Com todos esses combates, o governo não é capaz de atrair os melhores somalis", afirma Mohamed Osman Aden, um diplomata somali no Quênia. "Os bons somalis não virão para cá em um ambiente tão violento. Você viria?".

Tradução: UOL

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