UOL Notícias Internacional
 

03/06/2009

Relatório americano encontra erros em ataque aéreo que resultou na morte de civis afegãos

The New York Times
Eric Schmitt e Thom Shanker
Em Washington
Uma investigação militar concluiu que militares norte-americanos cometeram erros significativos na condução de alguns ataques aéreos no oeste do Afeganistão, em 4 de maio, que resultaram na morte de dezenas de civis afegãos, segundo um alto oficial militar americano.

O alto oficial disse que o número de civis mortos provavelmente seria menor se as equipes aéreas e as forças em solo norte-americanas tivessem seguido as regras rígidas concebidas para prevenir a morte de civis. Se as regras tivessem sido seguidas, pelo menos alguns dos ataques pelos aviões de guerra norte-americanos, contra meia dúzia de alvos em um período de sete horas, teriam sido abortados.

  • AP

    Ontem (2), o general Stanley A. McChrystal, indicado para ser o comandante americano no Afeganistão, prometeu que a redução de baixas civis seria "essencial para nossa credibilidade"

O relatório representa o mais claro reconhecimento norte-americano de falha nos ataques. Ele dará nova munição aos críticos, incluindo muitos afegãos, que se queixam de que as forças americanas com frequência demais agem de forma indiscriminada no pedido de ataques aéreos, colocando em risco a missão norte-americana ao voltar a população civil contra as forças americanas e seu aliado, o governo afegão.

Desde os ataques, os comandantes militares americanos têm prometido tratar do problema. Na terça-feira, o general Stanley A. McChrystal, indicado para ser o comandante americano no Afeganistão, prometeu que a redução de baixas civis seria "essencial para nossa credibilidade".

Qualquer vitória americana seria "vazia e insustentável" se levasse ao ressentimento popular entre os cidadãos afegãos, disse McChrystal ao Comitê de Serviços Armados do Senado, durante uma audiência de confirmação.

Segundo o alto oficial militar, o relatório sobre os ataques de 4 de maio apontou que um avião foi liberado para atacar os combatentes do Taleban, mas então teve que fazer a volta e não reconfirmou o alvo antes de despejar as bombas, deixando aberta a possibilidade dos militantes terem deixado o lugar ou civis terem entrado na área de alvo naquele intervalo de poucos minutos.

Em outro caso, um complexo de prédios onde os militantes estavam reunidos para um possível contra-ataque às tropas americanas e afegãs foi considerado uma violação das regras, que exigem uma ameaça mais iminente para justificar a colocação de uma aldeia com alta densidade de moradias em risco, disse o oficial.

"Em vários casos onde havia uma ameaça legítima, a opção sobre como lidar com a ameaça não atendia às regras de engajamento", disse o oficial militar, que forneceu um amplo resumo das conclusões iniciais do relatório sob a condição de anonimato, porque a investigação ainda não está concluída.

Antes de ser escolhido como novo comandante no Afeganistão, McChrystal passou cinco anos como comandante do Comando Conjunto das Operações Especiais, supervisionando os comandos no Iraque e no Afeganistão. As forças das Operações Especiais foram altamente criticadas pelos afegãos pelas táticas agressivas que contribuíram para a morte de civis.

Durante seu depoimento, McChrystal disse que os ataques por aviões de guerra e unidades das Operações Especiais em solo permaneceriam uma parte essencial do combate no Afeganistão. Mas ele prometeu assegurar que estes ataques se baseariam em inteligência sólida e que seriam o mais precisos possível. O sucesso americano no Afeganistão deve ser medido pelo "número de afegãos protegidos da violência", não pelo número de inimigos mortos, ele disse.

A investigação dos ataques de 4 de maio na província de Farah, no oeste, ilustraram as decisões difíceis, de fração de segundo, diante dos jovens oficiais no calor da batalha, à medida que equilibram o uso de força letal para proteger seus soldados sob fogo com as regras detalhadas que restringem o uso de poder de fogo para prevenir a morte de civis.

No relatório, o oficial investigador, o general Raymond A. Thomas III, analisou cada um dos ataques aéreos realizados por três aeronaves da Marinha, que decolaram de um porta-aviões, e um bombardeiro B-1 da Força Aérea contra alvos na aldeia de Granai, em uma batalha que durou mais de sete horas.

Em cada caso, disse o alto oficial militar, Thomas determinou que os alvos que foram atingidos representavam uma ameaça legítima às forças afegãs ou americanas, incluindo um grupo de marines designados para treinar os afegãos e outro designado a uma força-tarefa das Operações Especiais.

Mas em "vários casos", disse o oficial, Thomas determinou que os ataques aéreos não eram a resposta apropriada à ameaça, devido ao risco potencial aos civis, ou que as forças americanas fracassaram em seguir suas próprias regras táticas na condução de bombardeios.

O governo afegão concluiu que cerca de 140 civis foram mortos nos ataques. Uma investigação militar americana anterior disse, em maio, que 20 a 30 civis foram mortos. Aquela investigação também concluiu que 60 a 65 militantes do Taleban foram mortos em combate. Oficiais militares americanos disseram que as duas investigações mostram que os combatentes do Taleban dispararam deliberadamente contra as forças americanas e aeronaves a partir de complexos e outros lugares onde sabiam que civis afegãos buscavam abrigo, visando atrair uma resposta americana que mataria civis, incluindo mulheres e crianças.

O combate teve início, disseram os militares, quando soldados e policiais afegãos foram a várias aldeias em resposta aos relatos de que três autoridades do governo afegão foram mortas pelo Taleban. A polícia foi rapidamente sobrepujada e pediu apoio das forças americanas.

Os oficiais americanos disseram que uma revisão dos vídeos das aeronaves e das comunicações entre a tripulação aérea e um comandante em solo estabeleceu que combatentes do Taleban tinham se refugiado em "prédios que se tornaram alvo nos ataques finais do combate", que prosseguiu noite adentro.

O número de soldados americanos no Afeganistão deverá dobrar, para cerca de 68 mil, segundo a nova estratégia para o Afeganistão do presidente Barack Obama.

Em seu cargo anterior como comandante do Comando Conjunto das Operações Especiais, McChrystal supervisionou unidades designadas para capturar e matar líderes militantes. Em sua aparição no Congresso na terça-feira, ele foi questionado sobre os relatos de abusos cometidos contra os detidos por seus comandos.

Questionado pelo senador Carl Levin, democrata de Michigan, o presidente do comitê, McChrystal disse que se sentia desconfortável com algumas das técnicas mais duras que foram oficialmente aprovadas para interrogatório. Na época, as técnicas aprovadas incluíam posições de estresse, privação de sono e o uso de cães de ataques para intimidação.

Ele disse que todos os relatos de abusos cometidos durante seu comando foram investigados, e que todos os casos comprovados de abuso resultaram em ação disciplinar. E ele prometeu "aplicar rigidamente" os padrões americanos e internacionais para tratamento de detidos em campo de batalha caso fosse confirmado ao posto no Afeganistão.

Durante a sabatina, McChrystal também reconheceu que o Exército "falhou com a família" na forma como lidou com a morte por fogo amigo do cabo Pat Tillman, o astro profissional do futebol americano que se alistou no Exército após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Uma revisão final por um general do Exército de quatro estrelas inocentou McChrystal de qualquer erro, mas puniu vários altos oficiais que foram responsáveis pelos erros administrativos nos dias que se seguiram à morte de Tillman. Inicialmente, os oficiais do Exército disseram que o cabo tinha sido morto em uma embosca inimiga, quando na verdade ele foi baleado por membros de sua própria equipe Ranger.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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