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04/06/2009

Após Tiananmen e prisão, uma vida boa mas desconfortável na nova China

The New York Times
Michael Wines
Em Pequim
Quando Liu Suli foi solto de uma prisão em Pequim em 1991, após ter cumprido 20 meses de pena por seu papel nos protestos pró-democracia da Praça Tiananmen, em 1989, ele prometeu ser fiel ao que chamou de "três nãos". Ele não concederia entrevistas sobre os protestos. Ele não escreveria artigos. Ele não aceitaria doações de simpatizantes.

Naquela manhã quente de 4 de junho, Liu carregou cadáveres de manifestantes, com o sangue deles manchando seus sapatos. O sacrifício deles foi doloroso demais de encarar, muito menos de aceitar.

Mas nesta semana, à medida que se aproxima o 20º aniversário do fim violento do movimento pró-democracia, Liu cedeu. Sentado em sua livraria em Pequim, interrompido apenas pelas incontáveis tragadas nos cigarros sem filtro e goles de chá gelado, ele tentou reconciliar aquela Tiananmen com a China atual. Ele falou por três horas.

"Se eu não falar mais a respeito, é possível que eu esqueça", disse. "Eu posso não saber como dizer."

Esta quinta-feira marca 20 anos desde que centenas de estudantes, trabalhadores e cidadãos comuns morreram em um investida do exército contra o movimento pró-democracia na Praça Tiananmen, no centro de Pequim. Dentro da China, será um dia como qualquer outro; até mesmo referências indiretas ao 4 de junho são tabu.

Para o mundo exterior, as autoridades chinesas oferecem neste ano uma desculpa defensável: os protestos, elas dizem, ameaçavam a estabilidade da China. Com a estabilidade restaurada, a China produziu um milagre econômico que retirou milhões da miséria.

Para os veteranos do movimento de 4 de junho, entretanto, a reconciliação não é tão limpa ou superficial.

Alguns, disse Liu com evidente repulsa, colocaram o passado de lado e abraçaram a China onde Adam Smith, e não Karl Marx, é o principal ideólogo. Outros se tornaram dissidentes permanentes.

E alguns habitam no incômodo mundo intermediário, parte tanto de Tiananmen quanto da nova China, mas não inteiros em nenhum. Eles são advogados prósperos que defendem os dissidentes, cientes de que isso pode lhes custar o emprego, e acadêmicos estabelecidos cujos nomes em uma petição de direitos humanos pode condená-los à perda do cargo ou exílio.

E são intelectuais como Liu Suli, que suportou o ataque em Tiananmen e a prisão para ocupar um lugar que nunca buscou na nova classe média chinesa. Nos 18 anos desde sua soltura, ele construiu uma livraria e café popular perto da principal instituição acadêmica de Pequim, a Universidade de Pequim, que se tornou um refúgio para intelectuais e estrangeiros. Atualmente com 49 anos, ele não parece um homem que sofreu nestes 20 anos de estabilidade.

Mas Liu sofre. Ele fica consternado com a idéia de que o sucesso da China foi erguido sobre os corpos dos manifestantes de Tiananmen. Ele luta com a incapacidade dos ideais de Tiananmen ganharem mais espaço em sua terra natal. E se desespera com o pensamento manifestado com frequência de que seus compatriotas trocaram a liberdade que ele e seus companheiros manifestantes buscavam pela chance de ter um carro e um apartamento maior.

"Você pode criar porcos para serem muito fortes e muito gordos", ele disse. "Mas um porco ainda é um porco. E um porco não tem direitos."

Liu tinha 29 anos, com esposa, um filho de 2 anos e um emprego de professor na Universidade Chinesa para Ciência Política e Direito quando Hu Yaobang, o líder comunista que foi afastado do poder por defender reformas liberais, morreu em abril de 1989. Em uma semana, 100 mil manifestantes tomaram a Praça Tiananmen para seu funeral. Um dos estudantes de Liu, Zhou Yongjun, se tornou o primeiro líder do novo movimento pró-democracia.

Liu também estava lá, mas como observador. Com câmera em punho, ele registrou dezenas de rolos de filme documentando os eventos e começou a ver uma espécie de cronologia levando a Tiananmen, dos protestos em 1986 e 1979.

"As exigências políticas que os estudantes estavam fazendo eram na verdade um acúmulo de 40 anos de governo comunista na China", ele disse. "A ingenuidade e idealismo dos estudantes não eram apenas deles; eram a ingenuidade e idealismo do povo."

Quando os estudantes deram início à greve de fome em 13 de maio, o governo já tinha declarado o protesto como sendo ilegal. Os governantes da China, disse Liu, não deixaram nenhuma opção a si mesmos exceto a violência caso os estudantes não recuassem.

No final, ele abandonou sua posição de observador e se juntou aos manifestantes, rapidamente ascendendo ao posto de diretor de operações e porta-voz da Aliança Capital para Proteção da Lei e Patriotismo, um grupo dedicado à coordenação dos protestos. Ele escoltava autoridades do Partido Comunista até a multidão para conversar com os manifestantes, informava os jornalistas ocidentais e escoltava os líderes estudantis às reuniões com os oficiais do exército chinês.

Em 4 de junho, os soldados se aproximaram do monumento da praça, onde Liu estava posicionado. Um colocou uma arma contra sua cabeça. Outro se aproximou por trás, o alertando em voz baixa para fugir.

Eles se retiraram em meio ao campo caótico de ônibus virados e veículos militares incendiados, retornando ao campus universitário onde os corpos de sete manifestantes jaziam no gramado. Ele ajudou a retirá-los do sol para desacelerar o processo de decomposição. Liu e dois outros manifestantes, homens procurados, fugiram de Pequim a pedido dos líderes do protesto.

Mas Liu não demorou a voltar. "Se todos do movimento fugissem", ele disse, "não restaria ninguém para dar continuidade ao movimento". Ele passou um ano e oito meses em uma cela de prisão de Pequim com 13 outros homens, tão lotada que nem todos podiam deitar à noite para dormir. Sua esposa, da qual ele de lá para cá se divorciou, partiu com seu filho para os Estados Unidos.

A soltura de Liu em fevereiro de 1991, antes mesmo que seu caso fosse julgado, foi um choque bem-vindo. Ele foi demitido de seu cargo na universidade e expulso do Partido Comunista, mas aquilo era bom para ele. "Eu lhes disse que qualquer coisa ligada ao partido não tem nada a ver comigo", ele brincou.

Ele disse que ainda é vigiado constantemente por agentes de segurança. "O governo realmente nos odeia", ele disse. "Dói para eles ainda estarmos aqui. Nós fazemos muitas coisas que eles não gostam. Mas eles não podem arcar com o preço de nos destruírem."

Segundo ele, suas energias agora estão dedicadas a discussões mais profundas sobre como a China pode reintegrar o mundo democrático moderno. Para alguém que viu suas esperanças esmagadas em Tiananmen, é uma tarefa formidável, e ele sabe disso.

"Um idealista na China é uma palavra que fede nas ruas", disse Liu. "'Idealista' é igual a maluco, ou estúpido, ou idiota. É melhor não falar sobre idealistas na China."

E ele é um idealista?

"É claro que sou", disse Liu.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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