UOL Notícias Internacional
 

04/06/2009

Balas sobre Pequim

The New York Times
Nicholas D. Kristof
Colunista do NYT
Há exatamente 20 anos eu estava no canto noroeste da Praça Tiananmen e assisti a "República Popular" da China abrir fogo contra o povo.

Era noite; os disparos troavam em nossos ouvidos e a Avenida da Paz Eterna estava listrada de sangue. Soldados uniformizados reunidos em uma extremidade da praça, erguendo periodicamente seus rifles de assalto e disparando salvas diretamente contra a multidão em que eu estava, nos faziam correr para trás em terror até os disparos cessarem.

Então a salva parava, e no silêncio ensurdecedor nós parávamos e olhávamos para trás. Na centena de metros entre nós e os soldados havia garotos baleados, estirados mortos ou feridos no chão.

Alguns manifestantes gritavam insultos contra os soldados e atiravam tijolos ou coquetéis Molotov que caíam ineficazmente no espaço aberto. Mas nenhum de nós ousava dar um passo à frente para ajudar os feridos que se contorciam. Eu era o chefe da sucursal do "New York Times" em Pequim e estava encolhido atrás de uma barreira de outras pessoas que eu esperava que absorveriam as balas; o bloco de notas na minha mão estava manchado pelo suor do medo.

Os soldados já tinham aberto fogo contra uma ambulância que tentava recolher os feridos, de forma que outras ambulâncias mantinham distância. Finalmente, alguns salvadores improváveis surgiram - os condutores de riquixás.

Eram camponeses e operários que ganhavam a vida pedalando os riquixás de bicicleta, levando passageiros ou carga por Pequim. Foi um desses condutores que lentamente pedalou até os soldados para recolher os corpos dos mortos e feridos. Então aceleraram de volta na nossa direção, com as pernas trabalhando furiosamente, correndo na direção do hospital mais próximo.

Um condutor troncudo de riquixá tinha lágrimas escorrendo por suas bochechas ao passar por mim, para exibir o estudante gravemente ferido para que pudesse fotografar ou recontar o incidente. Aquele condutor talvez não soubesse definir democracia, mas ele arriscou sua vida para tentar promovê-la.

Aquilo estava ocorrendo por toda Pequim. Na rua do velho aeroporto naquela mesma noite, caminhões repletos de soldados entravam na cidade pelo leste. Um motorista de ônibus de meia-idade os viu e rapidamente bloqueou a rua com seu ônibus.

Saia do caminho, gritaram os soldados.

Eu não vou permitir que ataquem os estudantes, respondeu desafiadoramente o motorista

Os soldados apontaram suas armas para o motorista e ordenaram que removesse o ônibus. Em vez disso, ele retirou as chaves da ignição e as arremessou no mato ao lado da rua, para assegurar que ninguém pudesse retirar o ônibus dirigindo. O homem foi preso; eu não sei o que acontece com ele.

Assim, 20 anos depois, o que aconteceu àquele anseio ousado por democracia? Por que a China ainda está congelada politicamente - o regime controla a imprensa ainda mais rigidamente hoje do que em grande parte dos anos 80- apesar da China ter se transformado economicamente? Por que há tão poucos protestos hoje?

Uma resposta é que grande parte da energia foi desviada para ganhar dinheiro, em parte porque é um escape mais seguro. Um dos meus amigos chineses explicou que se protestasse em voz alta, ele poderia ser preso; se protestasse discretamente, seria perda de tempo. "É preferível gastar meu tempo assistindo a um DVD pirata", ele disse.

Outra resposta é que muitos daqueles condutores de riquixás, motoristas de ônibus e outros em 1989 não estavam exigindo precisamente uma democracia parlamentar, mas uma vida melhor -e eles a conseguiram. O Partido Comunista fez um trabalho extraordinário na administração da economia da China e em elevar economicamente as mesmas pessoas que oprime politicamente.

Os padrões de vida aumentaram e as pessoas em Pequim podem ainda não votar, mas elas possuem uma taxa de mortalidade infantil 27% mais baixa do que a de Nova York.

Nem tudo é doce: o meio ambiente é uma catástrofe, um nacionalismo feio está crescendo entre alguns jovens chineses e até mesmo chineses não politizados se irritam com a corrupção e censura na Internet (incluindo o bloqueio nesta semana ao Twitter, Flickr e Hotmail). Compensando isso, seus filhos agora recebem uma educação incomparavelmente melhor do que gerações anteriores -melhor no geral do que a que muitas crianças recebem nos Estados Unidos.

Quando você educa cidadãos e cria uma classe média, você nutre aspirações por participação política. Neste sentido, a China está seguindo o mesmo caminho que Taiwan e a Coréia do Sul nos anos 80.

Em Taiwan em 1986, um jovem oficial ambicioso chamado Ma Ying-jeou costumava me dizer que a democracia robusta ao estilo Ocidental talvez não fosse plenamente adequada ao povo de Taiwan. Ele reviu sua posição e agora é o presidente democraticamente eleito da ilha.

Alguns dos meus amigos são membros do Partido Comunista e estão esperando o momento propício. Nós forasteiros também podemos ser igualmente pragmáticos e pacientes, pois não há muito o que fazer para acelerar este processo. E enquanto esperamos, nós podemos nos inspirar naqueles condutores de riquixás de 20 anos atrás.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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