UOL Notícias Internacional
 

05/06/2009

Por todo o Oriente Médio, elogios e críticas ao discurso de Obama

The New York Times
Michael Slackman
No Cairo (Egito)
Em um nível, o discurso do presidente Barack Obama teve sucesso em tocar os muçulmanos de todo o Oriente Médio, obtendo muitos elogios por sua abordagem respeitosa, suas citações do Alcorão e suas referências francas a conflitos políticos altamente carregados.

Mas os comentários calibrados do presidente também pediam aos ouvintes, em uma região repleta de ódio, que dessem dois passos que há muito são anátemas: esquecer o passado e entender o ponto de vista oposto. Para um presidente que proclamava a meta de pedir às pessoas que escutassem verdades desconfortáveis, estava claro que partes de seu discurso repercutiram profundamente junto ao seu público pretendido e outras caíram em ouvidos moucos, em Israel assim como no mundo muçulmano.

O DISCURSO DE BARACK OBAMA

Repetidas vezes, os ouvintes muçulmanos se disseram impressionados em quão habilmente Obama se apropriou de referências religiosas, culturais e históricas de forma que outros presidentes americanos não conseguiram. Ele acrescentou no discurso quatro citações do Alcorão e empregou as saudações em árabe. Ele citou as antigas queixas históricas como a mancha do colonialismo, o apoio americano ao golpe no Irã em 1953 e o deslocamento do povo palestino. Seu discurso também foi aprovado pelo que não fez: o uso da palavra terrorismo, amplamente visto aqui como sinônimo de ataque ao Islã.

"Ele realmente falou mais como um líder esclarecido da região do que como um estrangeiro", disse Mustafa Hamarneh, o ex-diretor do Centro para Estudos Estratégicos da Universidade da Jordânia. "Foi muito diferente da abordagem neocolonial e condescendente do governo anterior."

Na prática, Obama estruturou seu discurso quase como uma oração de sexta-feira, misturando uma mensagem política, social e religiosa. Em estilo e substância, disseram alguns analistas regionais, o discurso buscou minar a mensagem de terroristas radicais como Osama Bin Laden.

"A Al Qaeda se beneficiava da retórica anterior de choque de civilizações para mobilização e recrutamento de indivíduos como parte do combate à cruzada", disse Mohammad Abu Rumman, o editor de pesquisa do jornal "Al Ghad" em Amã, Jordânia. "O discurso é positivo e nos permite mudar o tema de luta religiosa/entre civilizações para um político-realista."

Talvez inevitavelmente, ao buscar apresentar um balanço dos muitos conflitos que dividem a região, Obama enfureceu alguns em ambos os lados. Muitos árabes e israelenses rejeitaram furiosamente o que consideraram uma tentativa de apresentar seu sofrimento como moralmente equivalente. Eles esmiuçaram o conteúdo do discurso quase como um texto bíblico.

"Como Obama ousa comparar o sofrimento dos refugiados árabes aos 6 milhões de judeus assassinados no Holocausto?" perguntou Aryed Eldad, um parlamentar do Partido União Nacional de direita, em Israel.

Ahmed Youssef, o vice-ministro das Relações Exteriores do governo do Hamas, em Gaza, disse: "Ele aponta para o direito de Israel existir, mas e quanto aos refugiados e seu direito de retornar?"

E na Jordânia, Rohile Gharaibeh, vice-secretário-geral da Frente de Ação Islâmica, o partido político da Irmandade Muçulmana, rejeitou qualquer referência ao Holocausto. "O Holocausto não foi obra dos muçulmanos; foi dos europeus, e não deve ser pago pelo povo palestino, ou pelos árabes e muçulmanos", ele disse.

O discurso do presidente incluiu uma lista de assuntos que azedaram as relações com os muçulmanos. À medida que cada assunto era abordado, da tolerância religiosa e direitos das mulheres às armas nucleares e guerras no Iraque e Afeganistão, ele foi saudado com aplausos calorosos ou olhares gélidos, dependendo de quem estava ouvindo.

No Iraque, após seis anos de ocupação, oportunidades perdidas e promessas não cumpridas, havia uma alta dose de ceticismo.

Nos cafés e restaurantes por todo o país, os televisores estavam sintonizados em esportes, filmes ou videoclipes musicais. Quando um homem em um restaurante em Mosul tentou mudar o canal para o discurso, os clientes gritaram para ele: "Que discurso estúpido!"

No restaurante Al-Shorooq, na cidade sagrada xiita de Karbala, uma pequena multidão vaiou Obama enquanto ele falava de Israel. "A coisa mais importante é realizar as coisas, não apenas falar sobre elas", disse Alaa Sahib Abdullah, um advogado de 30 anos.

No Irã, alguns elogiaram a referência explícita ao golpe de 1953, que derrubou um popular primeiro-ministro iraniano.

"O golpe se tornou um símbolo do nacionalismo para os iranianos, e o fato de Obama ter reconhecido a intervenção dos Estados Unidos envia uma mensagem positiva para todos os grupos", disse Alireza Rajaee, um analista político de Teerã. "Agora, aqueles que defendem melhores laços com os Estados Unidos não temerão citá-lo publicamente, porque podem dizer que os Estados Unidos reconheceram seu erro histórico."

Apesar de muitos ouvintes concordarem de modo geral com os comentários de Obama sobre violência e extremismo, alguns disseram que não gostaram da forma como ele caracterizou as guerras no Afeganistão e no Iraque, que eles descreveram como catástrofes sangrentas.

"O que surpreende é que ele condena a violência, mas não diz uma palavra sobre o que os Estados Unidos fizeram no Iraque", disse Khalid Saghieh, o editor executivo do "Al Akhbar", um jornal libanês com inclinação pró-Hizbollah. "Se há o desejo de pedir um recomeço, é preciso no mínimo pedir desculpas pelas dezenas de milhares de vítimas no Iraque."

Os oponentes políticos dos governos autocráticos da região também expressaram decepção. "A menção de democracia e direitos humanos no discurso foi bem menor do que queríamos", disse Ayman Nour, o mais proeminente dissidente político do Egito, que foi preso após desafiar o presidente Hosni Mubarak na última eleição.

Na questão do conflito entre palestinos e israelenses, o presidente fez pouco para impressionar sua audiência muçulmana - assim como acalmar as ansiedades de alguns israelenses. Ele enfureceu os árabes ao igualar os disparos de foguetes contra Israel com violência, uma prática que muitos aqui dizem ser uma resistência legítima contra a ocupação.

Do ponto de vista árabe, ele não ofereceu nenhuma proposta nova ou sugeriu algum cronograma para o avanço na direção de um Estado palestino. Do ponto de vista israelense, ele criticou a expansão dos assentamentos e endossou à força a criação de um Estado palestino independente, que o atual governo israelense se recusa a endossar.

"Como um perito legal, ele deveria saber que as pessoas estão sob ocupação e não podem reconhecer o Estado enquanto estão sob ocupação, apenas depois", disse Youssef, do Hamas. "Por que pressionar os árabes e muçulmanos a reconhecerem Israel, apesar dele não reconhecer nossa existência."

Mas israelenses e palestinos também conseguiram recuar de suas próprias preocupações e disseram entender a importância mais ampla do discurso. Até mesmo Youssef saudou o discurso como sendo histórico.

O governo israelense disse em uma declaração que espera que o discurso "de fato leve a um novo período de reconciliação entre o mundo árabe e muçulmano e Israel".

Políticos e analistas de ambos os lados acentuaram as declarações que interpretaram como apoiando suas próprias causas.

Os israelenses ficaram satisfeitos por Obama ter mencionado o laço entre os Estados Unidos e Israel como sendo "inquebrável" e por ter definido Israel como "terra dos judeus"; eles também apreciaram sua rejeição inequívoca à resistência palestina por meio da violência e sua condenação à negação do Holocausto.

Na questão de Jerusalém, uma das mais sensíveis e intratáveis no conflito entre israelenses e palestinos, Obama evitou o confronto político, preferindo o tema da harmonia religiosa. Ele não pediu para a cidade, atualmente sob pleno controle israelense, ser dividida em duas capitais, israelense e palestina.

"Quanto muito, houve uma insinuação de unidade da cidade", disse Yehuda Ben Meir, do Instituto para Estudos de Segurança Nacional, em Tel Aviv. "O discurso deve certamente ser aceitável para os israelenses."

Apesar do anseio palpável para que o presidente mudasse as políticas e não apenas o tom, alguns pareceram entender que ele estava tentando promover o prosseguimento do debate com equilíbrio e de modo indireto.

"Se eu estivesse no lugar dele, o que eu faria?" disse Mansoor al Jamri, editor do jornal "Al Waast", em Bahrein. "Meus principais amigos são ditadores e meu melhor aliado estratégico é visto como um inimigo estratégico do mundo muçulmano. Se ele cumprir o que disse, e é um compromisso, muitas pessoas no final ficarão felizes."

Reportagem de Isabel Kershner, em Jerusalém; Robert W. Worth, em Beirute, Líbano; e Michael Slackman e Mona el-Naggar, no Cairo. Taghreed El-Khodary, em Gaza; Hwaida Saad, em Beirute; Muhammad al-Milfy, em Riad; Omar al-Mani, em Damasco, Síria; e Sharon Otterman, em Nova York, contribuíram com reportagem adicional.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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