UOL Notícias Internacional
 

05/06/2009

Taleban começa a enfurecer os paquistaneses

The New York Times
Sabrina Tavernise
Em Islamabad (Paquistão)
Há um ano, o público paquistanês estava profundamente dividido a respeito do que fazer a respeito da disseminação da insurreição. Alguns viam os militantes do Taleban como irmãos muçulmanos e conterrâneos que simplesmente queriam a lei islâmica, de forma que muitos eram contrários a uma ação militar contra eles.

Mas a história se move rapidamente no Paquistão, e após meses de crueldades televisionadas do Taleban, promessas quebradas e ataques suicidas, há um senso crescente - aparente na mídia, entre os políticos e o público - de que muitos paquistaneses estão finalmente se voltando contra o Taleban.

A mudança ainda está começando e é difícil de quantificar. Mas parece particularmente profunda entre os milhões de paquistaneses diretamente ameaçados pelo avanço do Taleban das áreas tribais para partes com maior densidade populacional do Paquistão, como o Vale do Swat. A raiva deles contra o Taleban agora supera sua frustração com a campanha militar, que destruiu suas casas e matou seus parentes.

"É o Taleban o responsável pela nossa miséria", disse Fakir Muhammed, um refugiado do Swat, que, como muitos que experimentaram pessoalmente o governo do Taleban, saudaram a campanha militar para expulsar os insurgentes.

O crescente apoio à luta contra o Taleban poderia ser um momento de virada importante para o Paquistão, cujas divisões em torno de sua militância islâmica às vezes pareciam colocar em risco o próprio Estado.

Mas é uma oportunidade que pode desaparecer de forma igualmente rápida, alertam analistas e políticos, caso os líderes políticos do Paquistão fracassem em capturar ou matar os líderes do Taleban, em ajudar os cerca de 3 milhões de deslocados ou em criar um governo funcional nas áreas há muito ignoradas pelo Estado.

"Este é um momento profundo em nossa história", disse Javed Iqbal, o principal burocrata na Província da Fronteira Noroeste, a área dos combates. "Minha maior preocupação é se há um entendimento suficiente disso entre as pessoas que tomam as decisões."

Na quarta-feira, em uma fita de áudio, Osama Bin Laden citou especificamente a luta no Swat e nas áreas tribais do Paquistão, culpando o governo Obama pela campanha e por semear "novas sementes de ódio e vingança contra a América".

As autoridades americanas estão altamente cientes do potencial da crise de refugiados estimular a militância. Menos de um quarto dos US$ 543 milhões pedidos pela ONU para os refugiados foi entregue, segundo o Ministério das Relações Exteriores do Paquistão.

Na quinta-feira, Richard C. Holbrooke, o enviado especial americano, visitou as tendas de refugiados, como parte de uma viagem de três dias para espalhar a mensagem de que os Estados Unidos estão tentando ajudar. O governo Obama pediu US$ 200 milhões adicionais, ele disse, notando que estava fornecendo mais da metade do total de ajuda estrangeira na crise.

Mas mesmo Holbrooke reconheceu: "A mensagem não está chegando e nós sabemos disso".

De fato, o sentimento antiamericano é alto no Paquistão. Muitos paquistaneses culpam os Estados Unidos e a guerra no Afeganistão pelos seus problemas atuais.

Os paquistaneses por muito tempo apoiaram o Taleban como aliados, como forma de exercer influência no vizinho Afeganistão. Diferente dos afegãos, eles nunca viveram sob o governo do Taleban, e demoraram para perceber seus riscos.

Mas isto está mudando, à medida que a experiência dos paquistaneses que agora viveram sob o Taleban deixa tantos desiludidos.

Em mais de um ano de combates, os militantes entraram no Swat, matando ou expulsando os ricos e promissores para melhorar a vida dos pobres. Finalmente, as forças armadas concordaram com uma trégua em fevereiro, que praticamente cedeu Swat ao Taleban e permitiu que os insurgentes impusessem a lei islâmica, ou Shariah.

A perspectiva da Shariah era atraente, disse Iftikhar Ehmad, que é dono de uma loja de telefones celulares em Mingora, a cidade mais populosa no Swat, porque a Justiça no Swat é corrupta e ineficaz demais.

Mas a Shariah do Taleban não era a mudança benigna que as pessoas esperavam. Assim que o Taleban tomou o poder, os insurgentes pareciam apenas interessados em acumular mais, e em abril avançaram para Buner, um distrito vizinho a apenas 100 quilômetros de Islamabad.

"Não é a Shariah, é outra coisa", disse Ehmad, socando furiosamente o ar no quente campo de tendas na cidade de Swabi. "É um comportamento canalha."

O dia-a-dia começou a degradar. Uma mulher foi açoitada em público e um vídeo dela se contorcendo de dor e implorando por misericórdia provocou grande ultraje. Os chefes do Taleban ordenaram que as pessoas doassem dinheiro. Lojas de cosméticos e escolas para meninas foram incendiadas.

Quando os militares entraram no Swat no mês passado, a população local se sentiu tão frustrada com o Taleban que começou a conduzir os soldados aos túneis com armas e esconderijos do Taleban em hotéis, disseram os militares.

"Há seis meses estas pessoas não estavam dispostas a ajudar", disse um oficial militar envolvido no planejamento da campanha. "Aos poucos, elas estão se apresentando mais e mais."

Há também uma mudança em outras partes do Paquistão, como no Punjab, a província mais populosa, onde as pessoas costumavam ver o problema da militância como sendo algo remoto, disse Rasul Baksh Rais, um professor de ciência política da Universidade de Ciências Administrativas de Lahore. Agora a província se tornou alvo de ataques suicidas, o mais recente na semana passada, em Lahore.

Rais citou a mudança na cobertura da campanha militar pela mídia e a forte posição adotada pelos partidos políticos, até mesmo alguns religiosos, como evidência da mudança de postura.

"Agora a mesa virou contra o Taleban", ele disse. "Ele foi marginalizado."

Talvez, mas as causas que permitiram a disseminação do Taleban - a pobreza, a ausência do governo, a falta de mobilidade para o alto na cidade - permanecem. Iqbal agora trabalha freneticamente para preencher estas lacunas. Novos juízes foram nomeados recentemente para Swat, ele disse, e cerca de 3 mil novos policiais serão selecionados nesta semana.

O oficial militar paquistanês, que falou sob a condição de anonimato para poder discutir as futuras operações, disse que os soldados permanecerão em Swat por pelo menos seis meses. É uma questão em aberto quando as autoridades se sentirão seguras o bastante para retornar. O apoio ao Taleban não desapareceu totalmente.

No início desta semana, em uma rua extremamente quente em Mardan, uma cidade no sul do Swat que absorveu muitas pessoas deslocadas pelos combates, um homem alto e de barba longa, Muhammed Tahir Ansari, ficou furioso quando perguntado se os refugiados aprovavam a operação militar. "É ilógico pensar que as pessoas ficariam felizes com esta situação tensa", ele disse de modo ríspido.

Ele era de uma caridade administrada pelo Jamaat-e-Islami, um dos principais partidos religiosos que apóiam tacitamente o Taleban, e que estava dirigindo um esforço frenético para distribuir água e abanadores.

Enquanto isso, o governo não era encontrado em parte alguma.


Irfan Ashraf, em Swabi e Mardan, Paquistão, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h29

    -0,86
    3,130
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h31

    1,14
    64.484,80
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host