UOL Notícias Internacional
 

07/06/2009

Rússia tem políticas dúbias em relação a sua população islâmica

The New York Times
Por Michael Schwirtz
Em Kazan (Rússia)
Almaz Khasanov levantou-se e dirigiu-se ao microfone dentro da cela pintada de verde onde ele e os outros acusados estavam sentados e deu um depoimento que provocou uma onda de ansiedade por todo o tribunal lotado.

"Sou membro do partido político Hizbut Tahrir", disse ele em seu depoimento preparado. "O objetivo dessa organização é a criação de um modo de vida islâmico, incluindo a criação de um califado islâmico."

Khasanov é um pretenso revolucionário religioso que prometeu desafiar o modo de vida tradicional de Kazan, capital de Tatarstão, uma antiga região muçulmana no coração da Rússia.

Ele está sendo julgado junto com outros 11 homens, acusados de serem membros de uma organização terrorista e de fomentarem planos para derrubar violentamente o governo. A maioria dos homens nega pertencer ao grupo, e seus amigos, bem como defensores dos direitos humanos, dizem que a polícia a os agentes de inteligência russos os torturaram para extrair provas falsas para o caso.

Khasanov, ao contrário, admite livremente ser um membro do Hizbut Tahrir e insiste que isso é um direito seu. Apesar de o Hizbut Tahrir ter sido banido, por ser considerado uma organização terrorista, na Rússia e na maior parte dos países da antiga União Soviética, o grupo prometeu não usar a violência como um meio de atingir seus objetivos.
Ele tem permissão de funcionar nos Estados Unidos e na maior parte da União Europeia, mas geralmente sob intensa supervisão.

Entretanto, muitos aqui, tanto muçulmanos quanto cristãos ortodoxos russos, estão assustados com o fundamentalismo sem pudores do Hizbut Tahrir, que prega uma teologia pré-moderna que é geralmente incompatível com as noções ocidentais de sociedade civil. Nesse sentido, o julgamento aumentou ainda mais a ambivalência em relação à minoria muçulmana.

Apesar de historicamente muçulmana, a cidade de Kazan, que fica no rio Volga a cerca de 800 quilômetros a leste de Moscou, foi influenciada muito mais por sua confluência de culturas do que por uma única corrente social. Minaretes com luas crescentes no topo competem por proeminência com as cúpulas douradas ortodoxas e com os arranha-céus soviéticos no horizonte da cidade, apesar de os shoppings, hotéis de luxo, bares e clubes noturnos também chamarem atenção.

Os muçulmanos tatar daqui, que viveram sob o controle de Moscou desde Ivã, o Terrível, e conquistaram a região do Império Mongol no século 16, não parecem tão diferentes de seus vizinhos russos, com roupas seculares e uma predileção por vodka gelada.

Mesmo assim, um influxo de ideias conservadoras vindas do estrangeiro está começando a destruir as tradições locais e poderá até mesmo ameaçar a estabilidade da região, dizem autoridades e líderes religiosos.

Mas todos os réus em julgamento, seus parentes e muitos especialistas russos em Islã negam isso. Não está claro qual é o nível de envolvimento, se é que há algum, que cada um dos homens tem com o Hizbut Tahrir. Muitos parentes dos réus negaram que eles sejam membros do partido. Em vez disso, disseram que os homens, principalmente estudantes, estão sendo perseguidos por estudar o Islã, e se converter a ele, fora das estruturas religiosas oficiais.

"Eles são pessoas com boa escolaridade - alguns deles têm dois diplomas - e estavam interessados em diferentes correntes do Islã", disse Gulnaza Faisulina, cujo marido enfrenta julgamento. "Eles estão buscando ideias filosóficas, e nem todos os líderes religiosos são capazes de fornecer isso."

Valiulla Yakupov, que é um mufti [jurista especializado na lei muçulmana] do Conselho Religioso Muçulmano da República do Tatarstão, concorda que as organizações muçulmanas tradicionais não vêm respondendo aos interesses e desejos dos jovens muçulmanos.

"Essas pessoas foram presas por suas ideias, não por suas ações", disse. "Se eu e outras figuras religiosas trabalhássemos com eles de forma mais ativa e explicássemos algumas coisas para eles, isso provavelmente não teria acontecido."

Inevitavelmente, o julgamento reflete as contraditórias políticas russas em relação aos muçulmanos, que são estimados em 15 a 20 milhões de pessoas, entre uma população total de 140 milhões. As autoridades promoveram a construção de mesquitas e escolas religiosas, e o primeiro-ministro Vladimir V. Putin, quando era presidente, fez lobby junto ao governo da Arábia Saudita para aumentar as quotas para muçulmanos russos que participam da "hajj", ou peregrinação, anual para Meca.

Mas o governo também embarcou numa grande campanha de intimidação e perseguição de muçulmanos independentes que às vezes ultrapassa os limites da lei de direitos humanos, disse Yelena Ryabinina, especialista em assuntos muçulmanos na Rússia.

Dmitry Afanasov, um russo convertido ao Islã e amigo de muitos dos acusados em Kazan, disse que apanhou violentamente até perder a consciência nas mãos da polícia, que, segundo ele, torturou-o para que ele desse um falso testemunho que envolvesse seus amigos em planos terroristas em troca de sua liberdade. "Eles disseram que receberam sinal verde para bater nos muçulmanos", disse.

Esta campanha foi em grande parte moldada durante uma década e meia de luta da Rússia contra os violentos movimentos separatistas muçulmanos no norte do Cáucaso. Só na Tchetchênia, duas guerras sangrentas causaram milhares de mortes.

Entretanto, quase não se ouve falar de violência religiosa no Tatarstão, onde o poderoso presidente Mintimer Shaimiev conseguiu preservar uma autonomia ampla em relação a Moscou em troca de conter os sentimentos separatistas no território.

O renascimento religioso aqui, apesar de amplo, tem sido em grande parte benigno. Cerca de 50 mesquitas foram construídas desde a queda da União Soviética. Madrassas e açougues "halal" abriram, e cada vez mais mulheres, muitas delas jovens, andam pelas avenidas de pedestres usando lenços de cabeça coloridos.

Ruslan Kurbanov, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Orientais da Academia de Ciências Russa, acusou as autoridades de asfixiarem uma nova geração de pensadores muçulmanos que buscam rejuvenescer a religião. Impedir a inovação religiosa, disse ele, fará apenas com que mais muçulmanos adiram ao extremismo.

"Apenas a aceitação dessas novas ideias e a permissão do pluralismo de opinião dentro das estruturas religiosas oficiais podem fazer com que as tensões crescentes e a inclinação dos muçulmanos para o extremismo seja eliminada", disse ele.

Antes do julgamento, Farida Rafikov, mãe de Dias Rafikov, um dos réus, foi categórica a respeito da inocência de seu filho, dizendo que ele estava envolvido de forma passional com sua religião e nada mais.

Depois do testemunho de Khasanov, entretanto, ela parecia abalada.

"Simplesmente não sei se ele admitiria isso ou não", disse ela. "Tenho até medo de pensar nisso."

Tradução: Eloise De Vylder

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