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08/06/2009

Duas mulheres de negócios ajudam o mosteiro a prosperar

The New York Times
Por Laurie Goodstein
Sparta, Wisconsin (EUA)
Assim que o sino em formato de tigela tocou, cinco monges desse remoto mosteiro se reuniram na capela para a quarta ronda de orações do dia - ao todo são sete - e suas vozes murmuravam um canto gregoriano em latim.

Ao mesmo tempo, numa casa próxima à propriedade do mosteiro, o telefone tocava num pequeno escritório onde duas mulheres e uma auxiliar de escritório administram um negócio multimilionário que gera o dinheiro para tocar o mosteiro.

"LaserMonks, bom dia. Saudações e paz", atendeu a auxiliar de escritório Victoria Bench, uma mulher paciente que às vezes ouve as pessoas do outro lado da linha dizerem: "Sua voz não parece com a de um monge".

Os monges dos mosteiros católicos romanos devem sustentar a si mesmos, equilibrando uma vida de oração e trabalho, de acordo com a Regra de São Bento, escrita no século 6. Alguns mosteiros fabricam queijo, outros fazem geléia, chocolate ou vinho.

Mas os monges da Abadia Cisterciana de Nossa Senhora de Spring Bank fazem dinheiro com a venda de tinta e cartuchos para impressora, e eles mesmos não trabalham muito.

O reverendo Bernard McCoy, superior do mosteiro, foi quem teve a ideia de criar a LaserMonks.com. Mas o negócio só decolou quando os monges o entregaram para duas mulheres laicas que vieram do Colorado para oferecer consultoria, e acabaram ficando.

"Sentimos que somos as administradoras do negócio deles, e de fato colocamos o pão na mesa", disse uma delas, Sarah Caniglia, sentada no escritório impecavelmente organizado, entre velas e CDs de canto gregoriano. "Sinto como se fosse uma matriarca, com filhos já grandes que nunca vão se casar".

McCoy, que aos 42 anos tem o corte de cabelo típico dos monges, careca em cima, com uma franja, disse: "A vida de um monge não é para ficar sentado por aí atendendo telefonemas. Nós temos que ser mais reclusos."

"Somos oradores profissionais", disse McCoy, que usa um hábito branco e um longo escapulário preto, amarrado com um cinto de couro e, nos pés, sandálias "Croc" de liquidação. Alguns dias ele usa uma camiseta que diz: "pergunte-me sobre meu voto de silêncio".

Este não é o único mosteiro que emprega pessoas laicas, mas os monges e as mulheres daqui têm uma relação surpreendentemente simbiótica. O mosteiro tentou vários outros negócios para se sustentar antes disso:
restaurar casas que seriam demolidas, produzir cogumelos shitake, implantar um campo de golfe e um centro de retiro empresarial.

Um dia, os monges estavam no meio de um grande relatório sobre o projeto de golfe quando a impressora ficou sem toner e McCoy foi encomendar mais. "Pensei, isso é muito caro para um pouco de poeira preta", disse.

Ele descobriu que era possível comprar cartuchos novos e reciclados por uma fração do preço cobrado pelas fabricantes de material de escritório. Ele abriu a LaserMonks em 2002 com a ideia de vender para instituições de caridade, mas o negócio se expandiu tão rápido que logo eles estavam correndo para atender à demanda.

Enquanto isso, Caniglia e Cindy Griffith estavam buscando compradores para seu próprio negócio de toner e tinta para impressora, em Loveland, Colorado, e ligaram para McCoy para ver se a LaserMonks queria comprar sua base de dados. Eles se entenderam de imediato e não demorou para que as duas mulheres pegassem a estrada em direção à zona rural de Wisconsin.

"Eu estava morrendo de medo", diz Griffith, 50, uma webdesigner de 50 anos, divorciada e avó, que não é católica. "Eu já tinha ido a casamentos católicos, mas não sei nada sobre monges. Eles falam? O que eu faço quando eles rezam? Tenho que cantar junto? Eu não sei latim."

As mulheres ficaram no convento do mosteiro, de frente para o rio Mississipi. Duas semanas se transformaram em dois meses, depois em seis. As mulheres compartilharam seus conhecimentos sobre gerenciamento de base de dados e webdesign, e também ideias sobre o futuro da LaserMonks. Os monges deram a elas uma amostra de vida contemplativa, equilibrada e simples.

"Eu era uma yuppie, queria ganhar muito dinheiro, ter um carro legal e ser sócia de um clube de tênis", disse Caniglia, 41, que é católica.
"Eu aprendi a simplificar minha vida, e ficar feliz ao ver as estrelas à noite, ao passear com os cachorros."

As mulheres agora vivem nos dois andares superiores de uma pequena casa na propriedade do mosteiro, em cima do escritório, com vista para plantações de soja e milho. Caniglia e McCoy trocam mensagens de e-mail diariamente, mas se encontram apenas a cada três semanas. As mulheres e os monges se reúnem em dias festivos e feriados.

Sempre empreendedoras, as duas também vendem produtos feitos por outros mosteiros, incluindo chocolates, pralinas e um molho para churrasco chamado "Sacrifício de Fogo". Elas vendem "Biscoitos Benevolentes", e petiscos para cachorros que os monges fazem em formas de biscoito na cozinha do monastério.

Seu produto mais recente é um cartucho de impressora feito com óleo de soja em vez de petróleo. Mostrando uma página recém-impressa, Caniglia
disse: "É seguro para o meio ambiente, e a impressão é ótima", e rende mais páginas por cartucho do que os que levam petróleo, e por um preço menor. "É indiscutível."

A LaserMons teve US$ 4,5 milhões de rendimento no ano passado. As despesas e o custo dos produtos respondem por 80% desse valor, deixando 10% para o monastério e 10% para entidades beneficentes. As duas mulheres fizeram US$ 60 mil juntas. ("Não trabalhamos pelo dinheiro", disse Caniglia.)

Como a LaserMonks trabalha sem os monges, eles ficam livres para desenvolver seus talentos e hobbies. O reverendo Robert Keffer pinta e faz esculturas, o irmão David Klecker costura hábitos e fotografa, o irmão Joseph Watson faz carpintaria, o irmão Adam Mathews cuida da propriedade e o irmão Stephen Treat escreve um blog.

Em pé, diante de seu cavalete num estúdio ensolarado, o padre Keffer pintava uma imagem de São Bernardo, cujo cabelo lembrava um pouco o estilo escovado dos anos 80.

"Artistas profissionais vêm nos visitar", disse o padre Keffer, "e dizem para mim: "Você faz parte da minha ideia de como é o céu'."

Tradução: Eloise De Vylder

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