UOL Notícias Internacional
 

08/06/2009

Na fronteira, coreanos do lado sul observam com incredulidade seu agressivo vizinho

The New York Times
Martin Fackler
Em Daekwang Village (Coreia do Sul)
Os soldados posicionados nos bunkers e postos de checagem ao longo dessa extensão da zona desmilitarizada que divide as duas Coreias estão sob alerta à medida que agora olham para uma Coreia do Norte com armas nucleares. Mas numa manhã recente, eles foram visitados por 120 civis, principalmente mulheres jovens, que chegaram em ônibus vermelho e branco brilhantes.

Na Coreia do Sul

  • AFP

    Soldado sul-coreano faz guarda na ilha de Yeonpyeong, nas águas disputadas do Mar Amarelo. As forças conjuntas de Coreia do Sul e Estados Unidos elevaram o nível de alerta militar nesta quinta-feira, após a Coreia do Norte suspender o armistício assinado em 1953 entre as duas Coreias, informou o ministério de Defesa

Conforme um soldado sul-coreano apontou para a torre de guarda da Coreia do Norte, visível a apenas 3 quilômetros dali, as mulheres caçoaram da precisão militar de seus movimentos. A primeira pergunta foi se ele era solteiro. Mas muitas ficaram em silêncio quando começaram a caminhada de 45 minutos guiada ao longo das cercas com arame farpado da fronteira mais fortificada do mundo.

"É esclarecedor", disse Huh In-young, 40, que usava um chapéu amplo verde oliva com seu vestido de verão. "Temos a tendência de esquecer da existência desmilitarizada em nossa vida diária."

O grupo fazia o que é conhecido como um passeio de disciplina, uma prática comum das companhias paternalistas da Coreia do Sul para satisfazer os funcionários e aumentar a unidade das equipes, normalmente com caminhadas nas montanhas ou viagens para parques de diversões. Mas uma semana depois que a Coreia do Norte fez seu segundo teste nuclear, a companhia - estatal, que coordena lojas duty-free no Aeroporto Internacional Incheon, próximo a Seoul - optou por algo mais realista para seus funcionários, que estão mais acostumados a pensar em relógios TAG Heuer do que em mísseis Taepodong.

"O objetivo disso é a disciplina mental, para que eles possam ver isso e apreciar o que temos hoje na Coreia do Sul", disse Kang Joong-seok, diretor excecutivo da companhia, a Organização de Turismo da Coreia.
"Nós tomamos nossa riqueza como garantida."

De fato, enquanto o norte continua a ameaçar guerra e aparentemente se preparar para ainda mais testes de mísseis, a população cada vez mais rica da Coreia do Sul parece em grande parte desinteressada em relação à atitude beligerante de seu vizinho. Na capital congestionada e cheia de luzes de neon da Coreia do Sul, Seoul, a vida não mudou nada desde o teste nuclear do norte na semana passada, com os moradores ainda relaxando no Starbucks ou em seus escritórios nas modernas torres comerciais da cidade.

Base de lançamento de mísseis na Coreia do Norte

  • Imagem fornecida pelo DigitalGlobe mostra uma sofisticada base norte-coreana de lançamento de mísseis em Pongdong-ni. Segundo um analista, a nova base estaria pronta para ser utilizada

Na mídia local, o teste nuclear da Coreia do Norte e a resposta mundial costuma ficar em segundo lugar, depois da tristeza e dos protestos nacionais em relação ao suicídio, há quase duas semanas, de um ex-presidente, Roh Moo-hyun. Os coreanos do sul parecem ter se acostumado com as ameaças do norte, que são vistas como nada além de uma estratégia desesperada para ganhar concessões de Washington.

Mas próximo à zona desmilitariza, uma faixa de terra de 240 quilômetros cheia de armadilhas para tanques e campos minados, a tensão permanece palpável. No sul, alguns pontos foram abertos para o turismo, incluindo o trecho próximo a Daekwang, um pacato vilarejo rural a cerca de 72 quilômetros ao norte de Seoul - e 160 quilômetros a sudeste da capital da Coreia do Norte, Pyongyang.

Os visitantes podem olhar do alto para a zona desmilitarizada a partir de uma plataforma de observação de concreto, camuflada, que parece um dos muitos grandes bunkers que pontuam toda o lado sul coreano da fronteira. Do outro lado de um cinturão sem árvores, uma terra de ninguém, há uma linha semelhante de cercas e bunkers, controlados pela Coreia do Norte.

Até há pouco tempo, o observatório atraía cerca de 3 mil visitantes por mês, disseram os soldados. Um dos destaques aqui é o monte T-Bone, uma faixa de terra que foi palco de um combate violento entre os EUA e os chineses durante a Guerra da Coreia, no século passado.

Mas os cancelamentos aumentaram junto com o crescimento das tensões desde o teste nuclear da semana passada, apesar de os militares daqui dizerem que a fronteira continua segura o suficiente para visitantes.
Jang Seung-jae, presidente de uma companhia que leva grupos para esse local, disse que mais de cem pessoas cancelaram na última semana. "A TV fala o tempo todo sobre como a zona desmilitarizada é perigosa", disse ele.

Na Coreia do Norte

  • AP

    Imagem mostra participantes de cerimônia em 26 de maio em comemoração ao teste nuclear realizado pelo governo da Coreia do Norte

O único grupo a visitá-la desde os testes foi a equipe da loja duty-free Incheon. O diretor-excecutivo Kang, disse que alguns empregados se mostraram preocupados, mas, no final, ninguém desistiu.
"É como a gripe suína", disse. "Alguns têm medo disso, e outros não.
Depende de quanto você consegue aguentar."

Para alguns, as tensões são parte do apelo. "Vim por causa da adrenalina", disse Chong Ha-kyun, 51, que disse que serviu como soldado na zona desmilitarizada há 18 anos, durante sua época de serviço militar obrigatório. "Apesar de que devo dizer; é menos tenso do que eu lembrava."

"A Coreia do Sul mudou tanto, mas o norte continua congelado no tempo", disse ele, expressando o sentimento abrangente no país de que a Coreia do Sul agora tem uma superioridade confortavelmente maior de riqueza e tecnologia, se falta capacidade nuclear. "Acho que todas as famílias deveriam trazer seus filhos aqui, para ver como nossa prosperidade atual está protegida por uma fileira de arame farpado."

No começo da caminhada, o grupo escreveu suas esperanças pela reunificação da Coreia em fitas coloridas brilhantes, que depois foram amarradas na cerca. Nenhum dos funcionários disseram ter sentido hostilidade em relação ao norte, apesar de normalmente estarem cansados do barulho constante do norte sobre os testes de armas.

"Eu não tenho nenhuma visão negativa deles, ainda que eles estejam nos provocando", disse Kim Hyun-jin, 30. "Mas admito que estou nervoso de vir até aqui. Eu estava em parte esperando que o passeio fosse cancelado."

Mais tarde naquele dia, depois que o grupo havia se retirado da zona desmilitarizada para um almoço de porco e álcool de arroz num restaurante confortável, os participantes disseram que estavam felizes por terem ido até lá.

"Esse passeio de disciplina ficará na minha memória por um longo tempo", disse Koo Sun-hee, 36, que disse que aquela era sua primeira vez ao visitar a fronteira. "A Coreia do Norte é o país mais próximo, para nós, mas que parece que é o país mais distante.

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    13h49

    0,65
    3,168
    Outras moedas
  • Bovespa

    13h54

    0,75
    65.585,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host