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09/06/2009

Cinco anos após reforma, chefes de espionagem americanos ainda disputam terreno

The New York Times
Mark Mazzetti
Em Washington
Em 19 de maio, Dennis C. Blair, o diretor nacional de inteligência, enviou um memorando confidencial anunciando que seu gabinete usaria sua autoridade para selecionar o mais alto espião norte-americano em cada país estrangeiro.

Um dia depois, Leon E. Panetta, o diretor da CIA, enviou um despacho próprio. Ignore a mensagem de Blair, escreveu Panetta aos funcionários da agência; a CIA ainda estava encarregada no exterior, um papel que os chefes da CIA guardam possessivamente há décadas.

A disputa representa um teste para ambos os chefes de espionagem, com o general James L. Jones, o conselheiro de segurança nacional, agora tentando negociar uma trégua. A batalha nos bastidores mostra a intensidade da disputa contínua entre as agências de inteligência, cujos papéis foram deixados mal definidos após uma reforma estrutural em 2004, que visava promover uma maior cooperação e colocar um fim aos conflitos internos.

A CIA comanda as operações de inteligência no exterior a partir das embaixadas americanas desde os anos 40, e membros da agência temem que Blair e seu Escritório do Diretor Nacional de Inteligência estejam promovendo uma disputa de poder capaz de colocar em risco antigos relacionamentos com os serviços de inteligência estrangeiros.

Por sua vez, Blair estaria furioso com o que considera uma insubordinação de Panetta, cuja agência agora responde ao gabinete do diretor nacional de inteligência.

Blair chegou ao cargo determinado a consolidar a autoridade do chefe de inteligência sobre 16 agências díspares de espionagem, e especialistas em inteligência disseram que a atual disputa com a CIA é um teste para saber se a Casa Branca está disposta a apoiá-lo neste esforço.

Panetta, por sua vez, tentou acalmar os nervos em Langley, Virgínia, em parte ao tranquilizar os funcionários da agência de que ele lutará em prol das autoridades da CIA na Casa Branca. Panetta, um chefe de gabinete da Casa Branca sob o presidente Bill Clinton, tem laços estreitos como vários assessores do presidente Barack Obama, incluindo Rahm Emanuel, o chefe de gabinete da Casa Branca.

Mas é Blair quem parece estar reunindo o apoio de legisladores influentes, alguns dos quais enfurecidos com o fato da CIA não ter aceito seu papel reduzido no firmamento da inteligência.

"Nós precisamos afastar a inteligência da mentalidade da Guerra Fria, e a CIA tem até certo ponto um problema em aceitar isso", disse a senadora Dianne Feinstein, democrata da Califórnia, a presidente do Comitê de Inteligência.

Blair e Panetta se encontraram pela primeira vez apenas dias antes de Obama aparecer com eles em um palco em janeiro, para anunciar suas indicações. Apesar de apresentarem históricos profissionais muito diferentes, eles em grande parte desenvolveram um relacionamento cordial de trabalho, disseram funcionários do governo.

Apesar de Panetta manter laços estreitos com alguns membros da Casa Branca, é Blair quem passa a maior parte do tempo no Escritório Oval, já que às vezes entrega pessoalmente o briefing diário de inteligência para Obama. Blair, um almirante reformado, também conhece Jones há anos, já que os dois ascenderam às mais altas patentes militares no mesmo período.

Blair assumiu um escritório nascido dos fracassos da inteligência antes da guerra no Iraque, e quase desde sua criação as operações do diretor nacional de inteligência são criticadas como sendo inchadas e ineficazes. No ano passado, o inspetor-geral do gabinete do diretor nacional de inteligência divulgou um relatório o criticando como sendo incapaz de colocar um fim às disputas territoriais que há anos atormentam a comunidade de inteligência e foram parcialmente responsáveis pelo fracasso em prevenir os ataques do 11 de Setembro.

Ainda mais críticas vêm de atuais e ex-diretores da CIA, que frequentemente retratam o gabinete do diretor de inteligência como sendo uma burocracia desnecessária que emperra engrenagens que precisam ser enxugadas. Por sua vez, os funcionários que trabalham para o diretor nacional de inteligência retratam às vezes a CIA como inflexível, obcecada por território e isolada.

Mais de uma dúzia de atuais e ex-funcionários do governo foram entrevistados para este artigo, a maioria insistindo no anonimato por estar preocupada em parecer que estão tentando influenciar os funcionários da Casa Branca na disputa. O fato de a Casa Branca ter intervindo no assunto foi noticiado inicialmente pela agência de notícias "Associated Press".

Alguns atuais e ex-funcionários consideram a resistência da CIA à diretriz de 19 de maio como sendo mesquinha, já que os chefes de estação da CIA provavelmente continuariam sendo os principais representantes de inteligência na maioria dos países. Mas eles disseram que, todavia, em alguns países pode ser mais apropriado que um representante de outra agência, como a Agência de Segurança Nacional ou a Administração de Combate às Drogas, seja o mais alto representante de inteligência.

Por exemplo, a Agência de Segurança Nacional (NSA), responsável pelas interceptações de comunicações, conta com uma grande estação de escuta no Reino Unido, que faz parte de uma extensa parceria de interceptação de comunicações entre os Estados Unidos e o Reino Unido. Alguns argumentam que o gabinete do diretor nacional de inteligência deveria designar um membro da NSA para coordenar as atividades de inteligência em Londres.

Outros exemplos que os funcionários apontam são países como o Iraque e o Afeganistão, onde a grande presença militar americana poderia levar o diretor nacional de inteligência a escolher um membro da Agência de Inteligência da Defesa.

Mas alguns especialistas externos criticam a decisão de Blair de enfrentar a CIA, especialmente quando o Pentágono ainda controla grande parte do orçamento de inteligência.

"Pode ser que Blair esteja investindo contra a CIA por saber que não pode investir contra o Pentágono, que é um agente muito maior", disse Amy Zegart, uma professora da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que escreve extensamente sobre assuntos de inteligência.

A CIA insiste há anos que a questão envolve muito mais do que território burocrático. Alguns membros da agência até mesmo ameaçaram renunciar em 2005, quando John D. Negroponte, o então diretor nacional de inteligência, propôs colocar um membro da NSA como mais alto funcionário americano de inteligência em Wellington, Nova Zelândia.

O maior perigo, argumentou a CIA, é colocar em risco os relacionamentos entre seus chefes de estação e os membros de inteligência estrangeiros, que levam anos para cultivar.

Michael V. Hayden, que dirigiu a CIA de 2006 até o final do governo Bush, frequentemente brigava com funcionários do diretor nacional de inteligência a respeito de quem deveriam ser os chefes das estações. Segundo a lei, disse Hayden, é dever da CIA administrar as parcerias dos Estados Unidos com os serviços de espionagem estrangeiros, e mudar essa dinâmica poderia desnortear ainda mais os aliados que já não entendem a burocracia de inteligência americana.

"Quando parceiros estrangeiros vêm a Washington, eles já ficam confusos a respeito de com quem devem lidar aqui", ele disse. "Agora, é possível a criação da mesma circunstância em uma capital estrangeira."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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