UOL Notícias Internacional
 

09/06/2009

Efeito Obama é notado na eleição do Líbano

The New York Times
Michael Slackman
Em Beirute (Líbano)
Havia muitos motivos domésticos para os eleitores darem a vitória à coalizão apoiada pelos Estados Unidos nas eleições parlamentares libaneses no domingo - mas analistas políticos também a atribuem em parte à campanha do presidente Barack Obama de estender a mão ao mundo árabe e muçulmano.

A maioria dos analistas previa que a coalizão liderada pelo Hizbollah, já uma força crucial no governo libanês devido ao apoio que recebe dos xiitas, que correspondem à maioria da população do Líbano, venceria com conforto. No final, entretanto, a coalizão alinhada com os americanos conquistou 71 cadeiras, enquanto a oposição alinhada com a Síria e o Irã, que inclui o Hizbollah, conquistou apenas 57.

É difícil extrair conclusões firmes de uma única eleição. Mas pela primeira vez em muito tempo, estar alinhado aos Estados Unidos não provocou uma derrota no Oriente Médio. E como o Líbano sempre foi um terreno de teste crítico, isso pode marcar uma mudança significativa na dinâmica regional, com outra grande eleição, no Irã, daqui a apenas quatro dias.

Com o discurso de Obama sobre as relações com os muçulmanos ainda fresco na mente dos eleitores libaneses, os analistas apontaram para os passos dados pelo governo desde que tomou posse.

Washington agora propõe conversar com os financiadores do Hizbollah, o Irã e Síria, em vez de confrontá-los - uma medida que mina a tentativa do grupo de satanizar os Estados Unidos. Os americanos também não estão mais pressionando seus aliados no governo libanês a desarmar unilateralmente o Hizbollah, o que, dada a considerável força do partido, poderia ter provocado uma crise.

"O Líbano é um caso que diz muito", disse Osama Safa, diretor do Centro Libanês para Estudos Políticos daqui. "Não é mais relevante para os extremistas o uso da carta antiamericana. Parece que os Estados Unidos estão avançando para algo novo."

Na verdade, alguns analistas disseram que é possível que a eleição no Líbano possa ser um prenúncio da disputa presidencial de sexta-feira no Irã, onde um presidente linha-dura antiamericano, Mahmoud Ahmadinejad, pode estar perdendo terreno contra seu principal oponente moderado, Mir Hussein Moussavi.

Apesar de Ahmadinejad ter se tornado cada vez mais impopular por muitos motivos, incluindo sua condução problemática da economia, analistas políticos disseram que Obama minou o apelo do confronto de Ahmadinejad com o Ocidente.

Os resultados no Líbano também podem dificultar ainda mais para Israel explorar o temor de domínio do Hizbollah e desviar a conversa do processo de paz com os palestinos - uma tática que muitos analistas daqui atribuem ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

"Eu acho que o discurso de Obama no Cairo provavelmente teve o papel de neutralizar o antiamericanismo", disse Khalil al-Dakhil, um sociólogo da Arábia Saudita. "Foi uma mensagem positiva. Foi uma mensagem conciliatória."

Todavia, há muitos outros fatores em ação que não dependem dos Estados Unidos. A eleição libanesa fez pouco para mudar o equilíbrio de poder em um país onde o Hizbollah é de longe o agente mais forte. Os cristãos, que exerciam um papel moderador e tradicionalmente pendiam para os Estados Unidos, não são uma força política em nenhum outro lugar na região. E provavelmente levará semanas, até mesmo meses, até que todos os lados possam concordar na composição do novo governo, sugerindo que a paralisia que frequentemente envolve o governo do Líbano poderá continuar.

O poder no Líbano é dividido segundo as linhas sectárias. Os cristãos controlam metade das 128 cadeiras do Parlamento. A outra metade é dividida entre os sunitas, xiitas, drusos e outras poucas seitas. Nesta eleição, os xiitas votaram em grande parte no Hizbollah e na oposição, e os sunitas e drusos votaram com a maioria. A verdadeira disputa foi entre os cristãos, que estavam divididos entre os campos desta vez. E aqui a coalizão liderada pelos sunitas e apoiada pelos americanos parece ter realizado uma campanha negativa bem calculada, instigando tensões sectárias e temores de um domínio iraniano e sírio.

A oposição contra-atacou, com o Hizbollah e seus aliados acusando que a coalizão 14 de Março, como os partidos apoiados pelo Ocidente são conhecidos, permitiu que os Estados Unidos controlassem o Líbano e servisse como um agente de Israel.

Mas entre os importantes eleitores cristãos indefinidos, o temor do Irã e da Síria parece ter superado a preocupação com a interferência de Washington.

Quando o vice-presidente Joe Biden visitou o Líbano no final de maio e pareceu ter ameaçado retirar o apoio financeiro em caso de uma vitória da oposição, isso foi amplamente considerado como o beijo da morte. Mas agora, alguns analistas políticos acreditam que o vice-presidente possa ter ajudado a cristalizar a escolha entre os eleitores: aliança com os Estados Unidos, França e seus aliados regionais, Egito e Arábia Saudita; ou com o Irã, Síria e seus aliados, o Hizbollah e o Hamas.

O temor era de que o Líbano poderia se tornar isolado como a faixa de Gaza.

"É evidente que a maioria dos libaneses já estava decidida em sua mente; eles não querem confrontação, eles querem paz", disse Hilal Khashan, um professor de ciência política da Universidade Americana de Beirute.

Os resultados finais mostraram que 54,8% dos eleitores compareceram às urnas, muito mais do que os 28% que votaram em 2005.

O Parlamento libanês ficará dividido quase exatamente como estava, negando à nova maioria um mandato para governar sozinha. Ela conta com uma maior legitimidade para formar um governo, mas essa legitimidade é em grande parte simbólica. Como resultado, para manter a estabilidade, a maioria provavelmente concordará em um governo de unidade que incorpore membros da oposição.

"Este é um país destinado a ser governado na base da acomodação", disse Khashan.

O maior perdedor foi o general cristão reformado, Michel Aoun, o líder do Movimento Patriótico Livre. Ele fez uma aliança com o Hizbollah e, caso a aliança tivesse vencido, despontaria como o mais poderoso líder cristão do país. Em vez disso, os analistas políticos disseram que ele saiu das eleições enfraquecido.

A pergunta mais difícil diante do novo governo é dar ou não à minoria a capacidade de vetar quaisquer decisões de governo. Analistas políticos disseram que o Hizbollah não necessariamente precisa desse poder, mas que Aoun precisa para permanecer relevante. Não está claro, disseram os analistas, se o Hizbollah assumirá esta luta em prol do general reformado.

Apesar desses detalhes internos estarem sendo acertados, todos os olhos agora se voltarão para o Irã e sua eleição presidencial de sexta-feira. Uma vitória dos moderados não alteraria as prioridades do Irã, mas seria vista como outro passo na direção da moderação da região, algo pelo qual Obama começou a pressionar.

"Isso não afetou o Irã e nem a Síria", disse Paul Salem, diretor do Centro Carnegie para o Oriente Médio, em Beirute. Mas hoje os Estados Unidos, França, Egito e Arábia Saudita, todos se sentem melhores."


Hwaida Saad contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,38
    3,156
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h22

    0,41
    65.277,38
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host