UOL Notícias Internacional
 

10/06/2009

Candidatos no Irã divididos na direção da economia

The New York Times
Robert F. Worth
Em Teerã
No Ocidente, a eleição presidencial do Irã é vista principalmente pelas lentes da repressão às liberdades sociais pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad, sua abordagem combativa em relação a Israel e aos Estados Unidos e do programa nuclear do Irã.

Mas aqui, como em tantas outras eleições, outra questão é vista como mais importante: a economia. A taxa de inflação debilitante do Irã, o desemprego e a questão de como sua receita do petróleo está sendo gasta estão no topo da agenda da maioria dos eleitores, dizem os analistas.

Os dois campos principais daqui veem a questão em termos claramente opostos, com os simpatizantes de Ahmadinejad dizendo que suas políticas melhoraram as coisas para as pessoas comuns, enquanto todos seus três adversários na eleição de sexta-feira insistem que a economia está em sérias dificuldades. Mesmo quando se trata de indicadores econômicos básicos, os dois lados frequentemente apresentam estatísticas e projeções totalmente opostas, deixando muitos eleitores confusos sobre em que acreditar.

Até certo ponto, ambos os lados têm um argumento a seu favor: as políticas populistas de Ahmadinejad enriqueceram alguns segmentos da população, mas uma tendência mais longa de desemprego e estagnação econômica também é evidente.

Em seus debates com outros candidatos, Ahmadinejad apresenta gráfico atrás de gráfico supostamente mostrando que a economia do Irã está em um estado esplêndido, atravessando tranquilamente a recessão global que devastou grande parte do Ocidente.

Na verdade, o crescimento desacelerou fortemente no Irã, que é altamente dependente das exportações de petróleo. O Fundo Monetário Internacional projeta que a economia do país crescerá 3,2% em 2009, em comparação a 4,5% em 2008 e quase 8% em 2007.

Durante um debate no sábado, um dos rivais de Ahmadinejad assistiu em descrença -olhos arregalados, cabeça erguida mas em desequilíbrio- enquanto o presidente dava uma alegre palestra sobre sua boa condução da economia.

"Você acha que eu vim do deserto e que não sei nada sobre números?" disse o candidato, Mehdi Karroubi, com sua voz quase trêmula de ultraje.

Karroubi passou a contestar os números de Ahmadinejad, incluindo sua alegação de que a inflação era de 14%, não os 23,6% informados nesta semana pelo Banco Central do Irã.

Outros adversários fizeram o mesmo, apresentando seus próprios gráficos e lendo litanias de estatísticas pessimistas sobre desemprego e queda da receita de petróleo.

Ahmadinejad não inventou os números, como alegam seus detratores, mas enfatizou alguns dados que eram adequados aos seus propósitos e ignorou outros amplamente usados como indicadores.

A inflação é de aproximadamente 14% quando medida com base na mudança dos preços ano a ano, disse Saeed Leylaz, um economista que foi brevemente ministro no governo reformista de Mohammad Khatami. Mas no Irã como nos outros lugares, a inflação é geralmente citada como uma média anualizada, ou uma taxa anual projetada, com base no aumento dos preços em um mês ou trimestre recente, e segundo esta medida ela é de 23,6%, segundo o Banco Central do Irã.

Mas independente da forma como é medida, a inflação está maior hoje do que há quatro anos, enquanto o crescimento diminuiu, minando a alegação de Ahmadinejad de que a economia melhorou no seu mandato.

Leylaz disse que as receitas das exportações de petróleo aumentaram nos últimos anos e que os petrodólares injetados na economia tendem a alimentar a inflação em vez de um crescimento produtivo. A acusação de que a riqueza do petróleo do Irã está sendo desperdiçada é baseada em fatos, ele argumentou.

Além disso, o desemprego está crescendo rapidamente. A taxa era de 10,5% há quatro anos e agora é de 17%, disse Leylaz.

"O problema é que Ahmadinejad se concentrou na distribuição da riqueza, e o que precisamos é de criação de riqueza", disse Leylaz. Com uma população desproporcionalmente jovem, o Irã precisa desesperadamente de mais crescimento econômico e mais empregos.

Em vez disso, dizem os economistas, Ahmadinejad comprou o apoio político dos pobres e da classe média baixa ao aumentar as pensões e salários dos funcionários públicos. Ele também distribuiu as chamadas "ações de justiça" de empresas estatais que estão vendendo ações ao público, e forneceu empréstimos a baixas taxas de juros para empreendedores e casais jovens.

Os rivais de Ahmadinejad dizem que o dinheiro deveria ser gasto na criação de empregos e na melhoria da infraestrutura do Irã.

Mas as políticas populistas claramente servem a um propósito.

"Ele ajuda os pobres, ele apoia as famílias dos mártires e os feridos", disse Hassan Muhammad Zadeh, um veterano de 47 anos que veio demonstrar seu apoio em um grande comício de Ahmadinejad na segunda-feira.

Zadeh explicou que sua pensão mais que dobrou, para US$ 500 por mês, desde que Ahmadinejad chegou ao poder.

Outros na grande multidão, reunida em um salão de oração inacabado no centro de Teerã, tinham suas próprias histórias de como empréstimos e aumentos salariais consolidaram sua lealdade a Ahmadinejad, que é amplamente visto aqui como um homem simples com profunda compaixão pelos pobres.

"Quem disse que Ahmadinejad criou o desemprego?" disse Hamid Nassiri, 25 anos, do sul de Teerã e que trabalha em um mercado. "Não é verdade. Ele é do povo e atende às necessidades do povo."

Aqueles que se opõem a Ahmadinejad costumam estar em melhor situação financeira e ter maior escolaridade. Questões como as liberdades sociais e a reputação do Irã no mundo são importantes para eles. Muitos também dizem que suas políticas de redistribuição, apesar de populares, minaram a economia.

"Ahmadinejad destruiu o país", disse Bahram, um estudante de 23 anos de Teerã, que se recusou a dizer seu sobrenome por temer repercussões por criticar o presidente. "Nós precisamos de emprego. Nós queremos que nosso dinheiro seja para nós, não para o Hizbollah no Líbano."

Nazila Fathi contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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