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10/06/2009

Moradores de aldeias atacadas no Paquistão insurgem-se contra o Taleban

The New York Times
Sabrina Tavernise e Irfan Ashraf
Moradores de aldeias estão insurgindo-se contra o Taleban em uma região remota no norte do Paquistão, em uma rebelião popular que evidencia a mudança do clima do povo local diante dos militantes e uma confiança crescente para confrontar os extremistas.

Mais de mil moradores de aldeias do distrito de Dir estão lutando contra os militantes do Taleban desde a sexta-feira, quando um homem-bomba taleban detonou a sua carga durante as orações em uma mesquita, matando pelo menos 30 pessoas.

Enfurecidos com o atentado, homens das aldeias vizinhas passaram a procurar militantes talebans e aqueles que os apoiam, queimando casas e matando pelo menos 11 homens identificados como combatentes talebans, segundo relatos de sete moradores locais, incluindo um que participou da luta.

Esta não é a primeira vez que os paquistaneses formam as suas próprias milícias para fazer frente ao Taleban, mas as iniciativas anteriores frequentemente fracassaram, em grande parte porque o governo e as forças armadas não lhes forneceram ajuda.

Mas a mais recente tentativa é significante, revelando a determinação do povo de Dir de manter à distância tanto o Taleban quanto as forças armadas e de impedir que a área transforme-se em mais uma zona de guerra, como o próximo Vale Swat, onde milhões de pessoas fugiram dos combates.

Segundo os moradores locais, a rebelião proporciona ao governo uma chance de demonstrar ao povo paquistanês que desta vez as autoridades estão falando sério ao oferecerem ajuda.

Autoridades do governo local pediram a ajuda das forças armadas, um auxílio que chegou na manhã da terça-feira (09/06) na forma de helicópteros de combate. Segundo os moradores - muitos deles temendo estimular uma operação militar de maior envergadura, por terem medo das táticas truculentas que as forças armadas utilizaram em outros locais -, a maior parte dos helicópteros errou os alvos. Dois moradores entrevistados por telefone disseram que as pessoas começaram a fugir.

"Se eles dispararem indiscriminadamente, teremos que deixar a área, e isso proporcionará aos militantes uma fuga segura", afirma um ancião da vila de Siah Kater.

Caso se sustente, o levante da população de Dir poderá mostrar-se estrategicamente importante em um momento em que os insurgentes estão sob uma pressão cada vez maior das forças armadas paquistanesas em locais como o Vale Swat e procuram preservar os seus abrigos.

Segundo os moradores locais, perto da fronteira com o Afeganistão, a área em torno de Dir é utilizada pelo Taleban como uma rota para combater as forças norte-americanas no sul do Afeganistão.

O distrito paquistanês, assim como o Vale Swat e Buner, é mais um da província da Fronteira Noroeste no qual o Taleban infiltrou-se nos últimos meses, vindo das áreas tribais sem lei da fronteira afegã, e chegando a cem quilômetros da capital paquistanesa, Islamabad.

De acordo com os moradores, os militantes começaram discretamente a fortalecer as suas unidades no noroeste de Dir, morando com aquele que as autoridades paquistanesas e a população local descrevem como sendo um grupo de afegãos que vive na área há anos. As autoridades paquistanesas acreditam que o comandante deles, um afegão chamado Khitab, seja ligado a Al Qaeda.

O grupo de talebans, que teria de 200 a 400 membros, não conta com apoio amplo, segundo disseram os moradores entrevistados por telefone. Apenas quatro das 25 vilas da área, um vale chamado Dog Darra, os estão abrigando. Durante meses os anciãos da aldeia tentaram persuadi-los a partir, sob pressão das autoridades governamentais.

A população local acredita que foi por esse motivo que o Taleban detonou uma bomba na mesquita na última sexta-feira.
"Eles desejavam intimidar essas pessoas e atacá-las", afirma Abdul Kalam, que apoia os combatentes que integram as milícias contrárias ao Taleban. "Em vez de irem embora, eles retaliaram com esse ataque".

A bomba mudou tudo, e, segundo os moradores, até mesmo aqueles que vinham apoiando o Taleban juntaram-se à caçada aos extremistas. "Esta explosão foi a gota d'água", afirma Jamil Roghani, um morador da área que está fornecendo remédios aos feridos. "Isso fez com que as pessoas tornassem-se violentas".

Na terça-feira, o número de moradores locais que juntaram-se às milícias para combater o Taleban aumentou para mais de mil. Na semana passada esse número era de cerca de 700. Eles empurraram o Taleban para o extremo mais elevado no noroeste do vale, uma área chamada Ghazigeh, e os cercaram com trincheiras.
Roghani afirma que três comandantes talebans foram mortos. Ele os identificou como Chamtu, Sultan Rehman e Musa. Quatro moradores ficaram feridos. Ele diz que combatentes locais viram bunkers e túneis cavados no chão.

"Nós só deixaremos a área após destruí-los", afirma Roghani. "Sabemos que isto não é islamismo. Esses indivíduos são criminosos". Não foi possível verificar se tais relatos correspondem à realidade porque os combates estão sendo travados em uma área remota, à qual os jornalistas não têm acesso.

Um oficial militar paquistanês afirmou que as condições climáticas impediram os helicópteros de identificar os seus alvos, mas disse que o exército enviará uma unidade paramilitar nesta quarta-feira, algo que provavelmente preocupará os moradores.

Muitos dos entrevistados querem que o envolvimento governamental limite-se a ataques aéreos contra o reduto do Taleban nas montanhas. Mas outros, furiosos com a brutalidade do ataque taleban, são favoráveis a uma resposta mais forte do governo.

"Neste momento a população está exaltada, e ela apoiará o governo em todas as iniciativas para expulsar essa gente", garante Roghani.

Fayaz Ahmad Khan Toru, um funcionário do governo da Província da Fronteira Noroeste, afirma que as autoridades sabiam que a resposta do governo seria cuidadosamente observada, e que elas estão trabalhando em conjunto com o povo local. "O fracasso não é uma opção", diz Toru.

Syed Muhammad, 30, um funcionário público da vila de Mian Dog, que fica no vale, diz que sem auxílio militar, o levante popular fracassará. Os militantes estão demasiadamente entrincheirados para que a milícia local seja capaz de desalojá-los apenas com as suas armas.

Mas ele manifestou um otimismo cauteloso quanto à possibilidade de que o povo local não seja ignorado, conforme aconteceu na maior parte das outras operações, e que as forças armadas, que agora dão continuidade à sua campanha contra o Taleban, possam estar aprendendo lições.

"Creio que agora os militares perceberam que os moradores locais devem se envolver nessas operações", diz ele. "Sem o apoio da população local, eles não poderão erradicar os militantes".


Ismail Khan contribuiu para esta reportagem.

Tradução: UOL

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