UOL Notícias Internacional
 

11/06/2009

China enfrenta tempestade de protestos por novo software censor

The New York Times
Andrew Jacobs
Em Pequim
A China está enfrentando uma tempestade de protestos em casa e no exterior por causa da nova regulamentação que exige que todos os computadores pessoais vendidos no país incluam um software capaz de filtrar pornografia e outros conteúdos "vulgares" da internet.

Executivos da indústria, defensores da liberdade de expressão e usuários comuns de computador reagiram furiosamente à nova exigência, que dá aos fabricantes até 1º de julho para pré-instalarem o software em milhões de computadores novos. O governo apresentou a exigência aos fabricantes de PCs em 19 de maio, mas ela não foi divulgada publicamente até segunda-feira.

"A instalação obrigatória do software de filtragem é simplesmente um ato às cegas", disse um editorial no "Wuhan Evening News".

Os fabricantes de computadores nos Estados Unidos dizem que será impossível cumprir a exigência até o final do mês e pediram ao governo chinês que reconsidere a diretriz. Eles disseram que ela levanta questões espinhosas sobre censura e se os fabricantes poderão ser processados se o software - projetado por uma empresa com laços com as forças armadas e agências de segurança pública da China - entrar em conflito com os sistemas operacionais ou fizer os computadores travarem.

"Para ser honesto, ninguém sabe do que este software é capaz", disse um executivo de uma fabricante americana de computadores.

Até o momento, o governo não exibiu qualquer sinal de recuar. Na terça-feira, a imprensa estatal e autoridades defenderam o novo software, conhecido como "Green Dam" (barragem verde), e disse que as suspeitas de que poderia se transformar em um spyware operado pelo governo eram exageradas.

"Se você tem filhos ou está esperando um filho, é possível entender as preocupações dos pais com conteúdo online impróprio", disse Qin Gang, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, em uma coletiva de imprensa na terça-feira.

Blogueiros, dissidentes e até mesmo os veículos normalmente cautelosos da mídia estatal receberam o anúncio com ceticismo, questionando a confiabilidade do software e se perguntando se poderia ser usado para censurar conteúdo não-sexual. Alguns criticaram a decisão do governo de gastar 41 milhões de yuans, ou US$ 6 milhões, em um programa que não foi solicitado por meio de um processo de licitação aberto.

A China restringe vigorosamente o conteúdo da Internet, bloqueando regularmente páginas de Internet dedicadas à independência do Tibete, questões de direitos humanos ou outros assuntos politicamente sensíveis. Uma campanha antivulgaridade neste ano fechou milhares de sites pornográficos.

"Como impedir isso de se transformar em uma porta dos fundos para uso indevido de poder?" perguntou um editorial no site da revista "Caijing". "Até agora as autoridades não responderam estas perguntas. O governo pode pedir aos pais que assumam a responsabilidade por uma série de mecanismos, mas não pode se transformar em um Grande Pai onipotente."

Os desenvolvedores do Green Dam dizem que o programa, que usa tecnologia de reconhecimento de imagem e filtro de texto para bloquear material, não é capaz de atuar como spyware. Mais importante, eles disseram que o programa pode ser desativado ou apagado pelos donos de computador que não quiserem usá-lo.

O "Beijing News" dedicou uma página inteira ao Green Dam e considerou seu desempenho longe de estelar. Por exemplo, uma pergunta inocente de matemática que incluía a palavra "bolas" foi filtrada, assim como fotos aparentemente inocentes com fundos amarelos.

Escrevendo no próprio site do Green Dam, uma professora disse que imagens sexualmente explícitas não foram bloqueadas e outra se queixou de que ele não a deixava ver imagens de porcos. "Pobre porquinho!" ela escreveu. "Eu fiquei curiosa, então procurei fotos de mulheres africanas nuas. Oh, elas não foram censuradas!"

Em um editorial que escreveu para o "Oriental Morning Post", Wang Lin, um professor associado da Escola de Direito da Universidade de Hainan, disse que o governo deveria ter consultado os usuários de computador e permitido que outras empresas de software apresentassem programas semelhantes. "Eles tomaram uma decisão que afeta dezenas de milhões de pessoas sem consideração pela opinião delas", ele disse em uma entrevista. "É como você comprar um carro e o governo lhe dizer onde pode dirigir."

Os executivos dos fabricantes de computadores, que no ano passado venderam cerca de 40 milhões de PCs na China, concordariam com esses sentimentos, apesar de nenhum ter se mostrado disposto a falar, por temor de enfurecer um governo que esperam que mudará de ideia.

Fabricantes e projetistas de software trabalham nos bastidores para convencer as autoridades a reconsiderarem a exigência, que foi elaborada sem consulta à indústria e sem aviso prévio.

Na terça-feira, uma coalizão de associações comerciais americanas emitiu uma declaração que apresentava educadamente o seu argumento.

"Nós acreditamos que deveria haver um diálogo aberto e saudável sobre como o software para controle pelos pais pode ser oferecido no mercado de forma que assegurem a privacidade, confiabilidade do sistema, liberdade de expressão, fluxo livre de informação, segurança e opção pelo usuário", dizia a declaração, que foi assinada por grupos como a Associação da Indústria de Software e Informação e o Conselho da Indústria de Tecnologia da Informação, cujos membros incluem a Lenovo, Dell, Apple e Hewlett-Packard.

Na quarta-feira (10), representantes da indústria disseram que um diálogo teve início e um executivo americano de informática, falando anonimamente, disse que tinha esperanças de que a exigência será afrouxada.

Ainda assim, ele disse que uma possível concessão - permitir que os fabricantes de PC simplesmente adicionem um disco do Green Dam na caixa de cada computador novo- não seria ideal. Testes preliminares por técnicos de software de várias empresas, ele disse, revelaram problemas significativos de software que poderiam afetar o sistema operacional do computador e outros programas.

Os blogueiros, que já enfrentam censura ocasional do governo, ficaram especialmente irritados com as novas exigências. Wang Xiaofeng, um blogueiro popular, disse que um amigo que baixou o software não mais conseguia ver seus textos satíricos. Ele disse ter ficado especialmente incomodado com a forma como o Green Dam foi introduzido, ou melhor, imposto ao público.

"É como um brigão forçando as pessoas a fazer o que ele que", ele disse em uma entrevista por telefone.

Ainda assim, ele disse não estar muito preocupado com a possibilidade do software ter um impacto duradouro sobre a liberdade na Internet. O governo está continuamente tentando aumentar as restrições à Internet e toda vez essas restrições são contornadas pelos astutos e persistentes. "As pessoas sempre encontrarão uma forma de superar esses firewalls", ele disse. "É uma vergonha que o governo continue gastando dinheiro dos contribuintes para criá-los."


Xiyun Yang contribuiu com pesquisa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h10

    0,06
    3,138
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h17

    -0,18
    75.856,64
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host