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12/06/2009

Alguns combatentes da Al Qaeda trocam o Paquistão pelo Iêmen e Somália

The New York Times
Eric Schmitt e David E. Sanger
Em Washington
As autoridades americanas dizem que estão vendo as primeiras evidências de que dezenas de combatentes da Al Qaeda, e um pequeno punhado dos líderes do grupo terrorista, estão trocando seu refúgio principal, nas áreas tribais do Paquistão, pela Somália e o Iêmen. Em comunicações que estão sendo cuidadosamente monitoradas pelo Pentágono, pela Casa Branca e pela Agência Central de Inteligência (CIA), os grupos terroristas em todas as três localizações estão se comunicando com maior frequência, aparentemente tentando coordenar suas ações, disseram as autoridades.

Alguns assessores do presidente Barack Obama atribuem a mudança à pressão dos ataques intensificados com aeronaves não-tripuladas contra os agentes da Al Qaeda no Paquistão, após anos de esforços americanos malsucedidos para remover o grupo terrorista de seu santuário ali.

Mas há outras explicações possíveis. A principal entre elas é o crescimento das campanhas jihadistas tanto na Somália quanto no Iêmen, que agora podem ter o mesmo apelo para os militantes que o Iraque teve após a invasão militar americana lá, em 2003. A Somália atualmente é um Estado fracassado que lembra o Afeganistão antes dos ataques de 11 de setembro de 2001, enquanto o governo fraco do Iêmen é ineficiente no combate aos militantes, disseram as autoridades americanas.

O deslocamento dos combatentes ainda é pequeno, talvez de poucas dezenas, e não há evidência de que os principais líderes -Osama Bin Laden e Ayman Al Zawahri- estejam considerando sair de seu refúgio nas áreas tribais paquistanesas, segundo mais de meia dúzia de altos funcionários do governo, autoridades de contraterrorismo e militares entrevistados nos últimos dias. A maioria das autoridades não quis comentar "on the record" detalhes do que estão vendo, por causa da sensibilidade da informação que estão coletando.

Leon E. Panetta, o diretor da CIA, disse em comentários feitos aqui nesta quinta-feira (11) que como a Al Qaeda está sob crescente pressão no Paquistão, os Estados Unidos devem impedir que o grupo terrorista crie um novo refúgio no Iêmen ou na Somália.

O gotejamento constante de combatentes para fora do Paquistão poderia agravar o caos na Somália, onde um grupo militante islâmico, o Shabab, está atraindo centenas de jihadistas estrangeiros em sua luta para derrubar o fraco governo islâmico moderado em Mogadício. Ele também poderia inchar as fileiras de uma crescente ameaça no Iêmen, onde os militantes agora controlam grandes áreas do país fora da capital.

"Eu estou muito preocupado com o crescimento dos refúgios na Somália e no Iêmen, especialmente porque estamos vendo a liderança da Al Qaeda, alguns líderes, começar a partir para o Iêmen", disse o almirante Mike Mullen, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, em comentários feitos na Instituição Brookings daqui, em 18 de maio.

Para os Estados Unidos, o movimento cria oportunidades tanto quanto riscos. Com o governo Obama concentrado em sua luta contra o Taleban e a Al Qaeda nos refúgios no Afeganistão e Paquistão, um deslocamento de combatentes e alguns líderes para novas localizações poderia complicar os esforços americanos para desferir um golpe duradouro.

Mas, nas áreas tribais do Paquistão, as forças da Al Qaeda e do Taleban foram atraídas pela proteção dada pelas tribos pashtun com as quais possuem profundos laços familiares e tribais. Uma saída dessas áreas poderia expor os líderes da Al Qaeda à traição, enquanto as comunicações entre os militantes no Paquistão, Somália e Iêmen criaram uma nova oportunidade para a inteligência americana localizar os insurgentes, que abandonaram muitos dispositivos eletrônicos de comunicação logo após os ataques do 11 de Setembro para evitar detecção.

Um alto funcionário do governo Obama atribuiu parte da movimentação à "enorme pressão que estamos impondo à liderança e às fileiras intermediárias" com os ataques com Predators, lançados tanto do Paquistão quanto do Afeganistão. A estratégia de Obama até o momento tem sido intensificar muitos dos ataques iniciados sob o governo Bush, apesar de serem uma fonte de contínua tensão dentro do Paquistão, em grande parte devido à morte de civis.

"Há indicações de que alguns terroristas da Al Qaeda estão começando a ver as áreas tribais do Paquistão como um lugar difícil no qual estar", disse uma autoridade americana de contraterrorismo. "É provável que um pequeno número tenha deixado a região como resultado. Entre esses indivíduos, alguns provavelmente foram parar na Somália e no Iêmen, entre outros lugares. Os terroristas da Al Qaeda que estão deixando as áreas tribais do Paquistão são predominantemente soldados de infantaria."

A medição dos números dos que deixaram o Paquistão é quase tão difícil quanto avaliar a motivação daqueles que estão deixando as áreas tribais. Os ativos da inteligência americana são fracos nas áreas tribais paquistanesas, mas um pouco melhores na Somália e no Iêmen.

Mas as autoridades americanas disseram que há evidência do deslocamento. Um alto oficial militar americano, que monitora a África atentamente, disse que mais de 100 combatentes estrangeiros treinaram em campos terroristas apenas na Somália nos últimos anos. Outro alto oficial militar disse que agentes da Al Qaeda e confederados no Paquistão, Iêmen e Somália aumentaram as comunicações uns com os outros.

"O que realmente nos preocupa é que estão se comunicando uns com os outros muito mais -Al Qaeda no Paquistão, Somália e Iêmen", disse o alto oficial militar. "Eles estão perguntando: 'Do que vocês precisam? Dinheiro? Combatentes?'"

A estratégia de Obama para o Afeganistão e Paquistão colocou a derrota da Al Qaeda como objetivo nº 1, em grande parte para assegurar que o grupo não possa tramar novos ataques contra os Estados Unidos. Logo, a movimentação dos combatentes, e as perturbações que causa, são interpretadas por alguns dos principais assessores do presidente como um sinal de sucesso.

Mas o surgimento de novos refúgios, a partir dos quais a Al Qaeda e suas afiliadas poderiam tramar novos ataques, cria perguntas difíceis para os Estados Unidos sobre como combater a crescente ameaça, assim como cria a possibilidade de ataques com mísseis poderem ocorrer em breve no Iêmen e na Somália.

"Estas são questões que acho que a comunidade internacional terá que discutir, porque a Al Qaeda não vai desaparecer", disse Mullen a um comitê do Senado em 21 de maio.

A CIA diz que seus ataques com aeronaves não-tripuladas perturbaram as operações da Al Qaeda e atingiram as altas fileiras do grupo. As autoridades americanas disseram que os ataques mataram 11 dos 20 principais líderes da Al Qaeda no ano passado.

"A Al Qaeda foi atingida pelas aeronaves não-tripuladas, gerando muita insegurança entre eles", disse Talat Masood, um general paquistanês reformado e analista militar em Islamabad.

"Muitos entre eles estão incomodados e é possível que estejam partindo para a Somália e outras frentes de batalha jihadistas. Os mais radicais, entretanto, provavelmente permanecerão."

Sem apontar qualquer país, o almirante Eric T. Olson, chefe do Comando das Operações Especiais, falou em termos gerais na semana passada sobre como o aumento das operações militares paquistanesas no Vale do Swat, assim como as primeiras indicações de uma nova ofensiva paquistanesa no Waziristão do Sul, colocaram os militantes em fuga.

"À medida que os paquistaneses aplicam pressão", disse Olson a um comitê da Câmara, "eles partirão para refúgios em outros lugares".

Jack Styczynski, em Nova York, contribuiu com a reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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