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12/06/2009

Culpar o sujeito que veio antes não funciona por muito tempo

The New York Times
Peter Baker
Em Washington
Enquanto o presidente Barack Obama luta para recuperar a economia moribunda e enfrentar múltiplas questões internacionais, ele desperdiça poucas oportunidades para lembrar ao país que os problemas não foram criados por ele.

"A crise financeira que este governo herdou ainda cria dolorosos desafios tanto para as empresas quanto para as famílias", disse Obama nesta semana, enquanto propunha limites aos gastos.

  • Reuters - 18.abr.2009 e AP - 4.jun.2009

    Analistas e historiadores dizem que os presidentes podem evitar a culpa desta forma até que suas políticas tenham tempo para entrar em vigor

"Nós herdamos uma crise financeira como nenhuma vista em nosso tempo", ele disse na semana passada, ao empurrar a General Motors para a concordata.

Seus conselheiros e aliados seguem o mesmo roteiro. "O governo Obama herdou uma situação em Guantánamo que era intolerável", disse James L. Jones, o conselheiro de segurança nacional, sobre a prisão militar em Cuba. A secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, defendeu a política externa de Obama da mesma forma. "Nós herdamos muitos problemas", ela disse.

Obama não é o primeiro presidente a apontar o dedo para seu antecessor. Ronald Reagan culpava Jimmy Carter pela economia ruim que herdou, assim como Bill Clinton culpava o primeiro presidente Bush, e o Bush mais jovem culpava Clinton. Ex-assessores de Bush, como Karl Rove, argumentam que Obama o tem feito mais rotineira e extensamente do que outros presidentes, apesar da equipe Obama negar isso.

Mas a certa altura, o novo presidente assume a propriedade dos problemas e se vê respondendo por suas próprias ações. Para Obama, mesmo alguns assessores dizem que o momento pode estar próximo.

Obama teve um gosto disso nos últimos dias, quando ele e sua Casa Branca foram colocados na defensiva ao tentar explicar por que a taxa de desemprego subiu para 9,4%, quando sua equipe previu que o pico seria de 8% desde que o Congresso aprovasse seu plano de estímulo, o que os legisladores fizeram diligentemente. Obama obviamente não criou a recessão passada para ele, mas foi seu governo que estabeleceu a expectativa de que sua política a impediria de se aprofundar ainda mais.

Os desafios que se acumulam no exterior poderão cada vez mais ser vistos como também sendo de Obama, dizem conselheiros, críticos e alguns especialistas de fora. Ao enviar 21 mil soldados americanos adicionais ao Afeganistão e substituir o comando lá, Obama agora tornou dele aquela guerra, como veem muitos analistas em Washington. A posição dura que Obama adotou em relação a Israel nas últimas semanas, devido à expansão dos assentamentos, também poderá tornar o conflito com os palestinos mais um problema seu.

"Eu acho que eles têm até o verão até estas questões se tornarem totalmente um problema de Obama", disse Ed Gillespie, um ex-consultor da Casa Branca de Bush. "Mas a novidade já está começando a passar."

Como muitos outros ex-assessores de Bush, Gillespie se irrita com o apontar de dedo para seu antigo chefe. "Culpar Bush em breve deixará de funcionar", ele disse. "E não é o que as pessoas procuram em seu novo presidente. Elas procuram por alguém que não culpe alguém, mas sim que resolva os problemas."

David Axelrod, o conselheiro sênior de Obama, disse que a Casa Branca não está tentando transferir a culpa com seu mencionar frequente da "herança" que recebeu de Bush, mas buscar paciência por parte do público para políticas que poderão exigir meses, em alguns casos anos, para surtir efeito.

"Sejam quais forem os problemas que ele herdou ao entrar pela porta, eles agora são responsabilidade dele", disse Axelrod. "Ninguém está tentando se esquivar da responsabilidade ou apresentar desculpas para eles. Mas é importante às vezes colocar as coisas em perspectiva, não atribuir culpa, mas sim ressaltar que alguns desses problemas são complexos e exigirão tempo para solucionar."

Analistas e historiadores dizem que os presidentes podem evitar a culpa desta forma até que suas políticas tenham tempo para entrar em vigor.

"Quando um presidente tenta novas políticas para lidar com velhos problemas e então as novas políticas parecem ser políticas fracassadas, então aí a responsabilidade passa a ser dele", disse George C. Edwards 3º, um especialista em presidência da Texas A&M University. "Este é o desafio para um presidente."

David Winston, um estrategista republicano, disse que isso pode acontecer quando as pessoas começarem a questionar se as novas políticas estão funcionando. Este é um motivo para a Casa Branca ter pressionado nos últimos dias o argumento de que seu caro programa de gastos está começando a exibir resultados, ao mesmo tempo em que tenta tranquilizar a população de que freará o aumento do déficit orçamentário.

A série de eventos públicos ocorreu à medida que os números mais recentes do emprego mostravam uma desaceleração nas demissões, apesar da taxa de desemprego ainda estar crescendo.

Obama e seus assessores dizem que o pacote de estímulo de US$ 787 bilhões aprovado em fevereiro já criou ou salvou 150 mil empregos e criará ou salvará mais 600 mil nos próximos meses. Mas centenas de milhares de empregos ainda estão desaparecendo a cada mês, e as alegações da Casa Branca de empregos "salvos" são difíceis de documentar.

A Casa Branca foi forçada a explicar por que seu plano de estímulo não impediu o desemprego de crescer acima de 8%, como disse em janeiro que impediria. Os economistas da Casa Branca disseram que a previsão era consistente com as previsões independentes da época e não levavam em consideração quão profunda a recessão realmente foi no último trimestre do ano passado -em outras palavras, sob Bush.

"A recessão se revelou mais profunda do que foi previsto", disse Axelrod.

Sem o plano de Obama, argumentou a Casa Branca, a situação seria ainda pior hoje.

Ao mesmo tempo, Obama está assumindo uma a uma a propriedade das questões de política externa que encontrou quando assumiu o lugar de Bush. Algumas são mais fáceis do que outras para prosseguir culpando seu antecessor. À medida que a Coreia do Norte desafia Obama, ele pode apontar que Pyongyang desenvolveu suas armas nucleares no mandato de Bush.

Mas em outras questões, Obama está claramente deixando sua própria marca, e receberá o crédito se for bem-sucedido e críticas caso não seja. O exemplo mais óbvio é o do Afeganistão, onde ele aumentou o número de tropas muito além do que Bush tinha em campo e removeu o comandante militar anterior.

"A essa altura eu realmente acho que o Afeganistão se tornou a guerra de Obama", disse John A. Nagl, presidente do Centro para uma Nova Segurança Americana, uma organização de pesquisa fundada por especialistas em segurança nacional que agora trabalham no governo Obama. "Quando você escolhe seu comandante, você está assumindo plena responsabilidade."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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